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Amor à Flor da Pele, de Wong Kar-wai

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A passagem do tempo e a teia de pequenas emoções estão no centro da visão romântica e nostálgica do diretor chinês Da invasão de filmes orientais que se concentrou desde meados dos anos 1990, aqueles que trazem a assinatura de Wong Kar-wai estão entre os que mais chamaram a atenção para o fenomenal cinema produzido nas três Chinas (a China continental, a ex-colônia inglesa Hong Kong, e Taiwan). Distinto de muitos de seus colegas e ao mesmo tempo compartilhando com eles um gosto refinado pelo estetismo visual, os filmes de Wong também se destacam por um forte apelo emocional. Desde Amores Expressos  (1994), o diretor seduziu as platéias com sua visão romântica e ultracontemporânea dos desencontros amorosos. Amor à Flor da Pele  é o filme onde essa temática encontra uma forma que lhe encaixa à perfeição. Ambientada em 1962, a obra narra os encontros de um homem e uma mulher, ambos casados, que se conhecem num hotel quando seus respectivos parceiros estão longe...

Biografia de Saramago

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Por Ana Dias Cordeiro Para conhecimento do escritor, tinham já sido escritos vários livros, alguns de entrevistas, ou teses de doutorado sobre José Saramago e a sua obra. Hoje é lançada a Biografia - José Saramago pelas Edições Pluma/Guerra e Paz, “a primeira”, segundo o autor João Marques Lopes, por ser até hoje a única a analisar a obra completa do escritor nascido em 1922. A biografia, diz João Marques Lopes, lembra, além das obras, o papel da poesia, das crônicas no Jornal do Fundão e na Capital  e da crítica literária na revista Seara Nova  ou dos editoriais no Diário de Lisboa  no percurso de José Saramago. E retrata a infância na aldeia ribatejana da Azinhaga, em Golegã, a morte trágica do irmão mais velho quando Saramago tinha apenas quatro anos, a juventude em Lisboa e as adversidades da família, a importância de cada um dos seus familiares como a avó Josefa e o avô Jerónimo “capaz de pôr o universo em movimento apenas com duas...

Quase deuses, de Joseph Sargent

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Por Pedro Fernandes O ano é 1930. A cidade é Nashville, Estados Unidos. Tempo e lugar de segregação racial. Como pano de fundo sobre a questão negra, está a figura de Vivien Thomas, que como todo negro servia aos mandos e desmandos do branco e está condenado a ser um portador de profissões de pouca significância; ele é um hábil marceneiro com sonho de fazer medicina. Com um nome feminino porque sua mãe achava que teria uma menina e, quando nasceu o menino, não quis mudar o nome escolhido, num país também assolado pela Grande Depressão de 1929, Thomas encontra-se desempregado e vê o pouco dinheiro que juntava há sete anos para um dia realizar o sonho pelos seus próprios méritos. Claro, estamos também numa terra que atende pelo nome de meritocracia como o modelo ideal de qualquer um chegar ao topo. Só até aqui nesse parágrafo o leitor já terá encontrado uma quantidade diversa de temas caros explorados pela obra de Joseph Sargent: o contexto histórico de degeneração do capi...

Haiti: a maldição branca

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Nota:  Tenho acompanhado diariamente as páginas dos telejornais acerca da catástrofe em Haiti. Entretanto, me parece que as informações que chegam acerca do caos instalado naquele país não são totalmente verdadeiras, porque a mídia sempre tem o dom de nos esconder alguma coisa ou virar o rosto para aquilo capaz de lhe dar, na melhor das hipóteses (sim, há as piores) os louros da audiência. O caos que agora o Haiti sofre é, antes de ser fruto apenas do terremoto que assolou o país, fruto da ganância e da presença do homem branco, que como levaram a cabo a nação indígena por onde estiveram, levaram também a desarmonia àquela antiga e rica colônia formada por descendentes de escravos africanos. Isso a mídia não nos mostra. Recentemente pude ler um texto ("Haiti: a maldição branca") publicado no site da Fundação José Saramago que o escritor uruguaio Eduardo Galeano, autor de, entre outros títulos, de As veias abertas da América escreveu sobre o Haiti e a sua história. Par...

A maçã no escuro, de Clarice Lispector

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Por Pedro Fernandes Nas visitas constantes às livrarias neste período de férias tenho visto uma febre chamada Clarice Lispector. Ela está nas prateleiras mais visíveis. Desde a razoável biografia do estadunidense Benjamin Moser passando pela excelente fotobiografia organizada pela brasileira Nádia Battella Gotlib e pela publicação dos primeiros textos da escritora como a reunião de textos Só para mulheres - conselhos, receitas e segredos e Correio feminino  até a reedição de sua obra. Clarice Lispector também já deve ocupar ao lado de Machado de Assis a cadeira daqueles escritores mais bisbilhotados pela crítica. Pois bem, nostalgicamente me volto para uma velhinha edição de 1978 da escritora que recuperei dos escombros do que era uma biblioteca. Na época de meu início de adolescência escrevia versos beberrões que despencavam altas horas da madrugada no meio de meus sonos entrecortados pelas fantasias amorosas. Ainda não conhecia Clarice. Dela, apenas linh...

A jangada de pedra, de José Saramago

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Por Pedro Fernandes A jangada de pedra é um romance que pode ser visto por ângulos diversos. A capacidade narrativa de José Saramago manifesta em sua fluidez expressiva faz de cada uma de suas obras uma experiência literária genial, mas talvez o mais importante, é que o seu lugar de pessoa sempre sobressai o lugar do escritor e se faz notar a mensagem política e humana que nos deixa esta metáfora da união entre a Europa e a América Latina, um dos vieses principais de leitura deste romance ora comentado. A Península Ibérica se aparta do resto da Europa. É como se a Saramago gostasse de jogar com a realidade, embora a realidade seja um dos aspectos principais deste romance, assim como é, para a escrita de outras obras como Levantado do chão ou Memorial do convento , para citar duas delas. Mesmo que o fantástico aqui se interponha com maior maestria que nas outras obras – basta assinalar a grande imagem que é, do acaso, toda uma parte do continente partir-se e sair v...