Fausto e a contemporaneidade

Por Herasmo Braga

Rembrandt, Fausto, 1650. 



Aristóteles na Poética afirma que o imitar é inerente ao ser humano. Se atentarmos para além das questões biológicas, a atividade que o homem mais realiza em sua jornada é interpretar. Podemos considerar sem sobressaltos ou exageros que a trinca de formação da compreensão do sujeito se dará pelas fontes históricas, filosóficas e literárias. Portanto, se a busca por algo é de muito saber, a vigência destes minadouros deve ter suas presenças marcantes. Fausto, seria, portanto, uma imagem significativa da modernidade tão em voga.

A Modernidade, então, formou-se tendo como principal característica a centralidade no Eu. Junto a esse Eu-Centro, ao longo dos séculos, foram inseridas maneiras de ser e de se ver em que foi se evidenciando pari passu o acentuamento do Eu e, consequentemente, o apagamento do outro. Desta forma, o imaginário social do sujeito moderno era integrado apenas por maneiras individuais, soberbas, vaidades, e o mundo, portanto, era elaborado de acordo com os vínculos relacionados somente aos desejos, vontades e pensamentos deste Eu-Centro tão autêntico e independente. Assim, nada diferente a esse Eu é digno de menção ou reconhecimento.

No final da Idade Média, com o início da Modernidade, surgiu no imaginário social o Doutor Fausto, que parece cristalizar bem todos esses sentimentos primeiros e vindouros. Marshall Berman em Tudo que é sólido desmancha no ar: a aventura da modernidade apresenta-nos essa figura da seguinte maneira: “O que esse Fausto deseja para si mesmo é um processo dinâmico que incluiria toda sorte de experiências humanas, alegria e desgraça juntas, assimilando-as todas ao seu interminável crescimento interior; até mesmo a destruição do próprio eu seria parte integrante do seu desenvolvimento”. Fausto, seria, por conseguinte, esse ser a querer centralizar em si todas as fortunas humanas em si para que o seu mundo interior fosse tão rico quanto todas as experiências que o mundo possibilitaria para todos, todavia, a autossuficiência e a glória maior seriam únicas e dele. 

A excelência do mundo das vivências e das cognições habitaria no seu ser individual. Esses aspectos podemos contar em História do Doutor Johann Fausto, escrita de um anônimo do século XVI, na seguinte passagem em que ele mesmo, um tanto atormentado e inquieto com a possibilidade de ir para o Inferno, chamado de Geena, a vaidade de tudo querer e tudo poder arrefecia a sua alma, como podemos ler no capítulo 16: “Doutor Fausto tinha continuadamente um remorso no coração e um pensamento, o de haver cometido uma falta ao renunciar à felicidade de sua alma, prometendo-se então ao Diabo pela obtenção de bens terrenos. Mas seu remorso era o mesmo da penitência de Caim e de Judas”. Considerava-se, portanto, indigno de perdão, por essa razão, não tinha nada mais a fazer a não ser intensificar os seus desejos e trazer para si mais realizações.

Notamos, assim, o quanto a centralidade no Eu e na mesma direção do esquecimento do outro faz com que o sentir-se independente fique mais agudo e a vaidade mais robusta, a ponto de formular, tidas como potentes ideias, que, mesmo mancas, superficiais como do Eu ser o único responsável pelo seu destino, pela sua formação, considerado válido, reconhecido e legitimado por todos os outros sujeitos. 

Chegam-se ao ponto de onipotência como em Fausto ao rivalizar com Deus e mesmo com as falas um tanto realistas do Espírito, enviado para dar tudo o que desejava, não causar qualquer arrefecimento em sua veleidade: “abusaste por demais do dom precioso de tua inteligência e te declaraste inimigo de Deus e dos homens, a isso não deves culpar a ninguém a não ser a tua altivez orgulhosa e atrevida, por isso perdeste tua mais bela joia e adorno: a proteção de Deus”. Destarte, as características do sujeito moderno e do seu imaginário compõem a maneira de ver, as ambições, as jactâncias convergem no personagem Fausto. 

Nesta linha, Berman afirma que “manter viva certa consciência fáustica e a contestar a proclamação mefistofélica de que o homem só poderia realizar grandes empreendimentos obliterando qualquer sentimento de culpa e preocupação”. Não é à toa que a sua história ao longo dos séculos continua não só a ser contada como inspiradora para muitos sujeitos modernos e mesmo quando reconfiguradas em novas versões como a de Goethe, segue a convergir com o imaginário moderno no qual estamos submersos.

Mesmo que em um mundo de espumas, na leitura de Sloterdijk, ocorra uma provocação deste Eu para a insegurança como no seu Eu soberano, é perceptível que não atingirá sua integridade moral, distinta, única, superior, mas apenas algum temor no afronto físico, então dissipa-se em seu ser qualquer abalo forte. Pois de todas as outras formas que para ele realmente importa, vê-se seguro, mesmo que em seu ser apresente “mal-estar no espírito”, não será algo insuportável a ponto de desistir de si e ter de reconhecer o outro. 

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