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Há perigo em toda lista

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Por Pedro Fernandes É verdade que as escolhas, qualquer uma, não deve, em tempo algum, agradar a Deus e ao Diabo. Quando se elaboram listagens sempre corre-se o risco, entretanto, de cometer pecados ainda mais graves e não agradar, simultaneamente, nem a um nem a outro. Já comentei certa vez por aqui da moda que é hoje as listas. Invenção norte-americana, ao que me parece, e ganhou status de qualificações. Num universo saturado de tanta coisa as listagens (algumas e poucas!) agradam e são (por que não?) úteis. Recentemente a Universidade de Coimbra aderiu ao modelito e pôs à escolha aquilo que seriam os dez romances mais representativos da língua portuguesa. E como nas muitas das listagens que rola por aí deu vexame. Primeiro, me chama atenção o número curtíssimo de dez romances - quando sabemos que a lista é bem (mais bem mesmo!) maior do que isso. Não deu em outra. Pecou-se. E pecou-se feio. Com uma sugestiva alcunha de  10 Paixões em Forma d...

Lápis nas veias, de Clauder Arcanjo

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Por Pedro Fernandes Os atropelos do tempo não me permitiram ainda que eu chegasse ao fim das mais de 197 páginas desse livro de Clauder Arcanjo, o segundo da safra de escritor; o primeiro foi Licânia . Entretanto, é um título que já me inquieta a escrever sobre e diria que desde quando o tive em mãos.  Publicado pela Sarau das Letras, mesma editora que pôs a lume  Incerto caminhar , de David Leite, Lápis nas veias atende a essa minha falta de tempo. É um livro breve com textos breves. Isto é, pequeno nas dimensões e na extensão dos textos, na extensão do volume (assemelhado a um livro daqueles de bolso). Mas como roga a epígrafe recortada de um ditado popular: "Tamanho não é documento". E ele próprio se faz grandioso, sobretudo porque une uma beleza estética fabulosa: o imagético à palavra. Para cada texto uma fotografia do premiado Pacífico de Medeiros. Verbo e imagem costuram-se constroem uma sinfonia perfeita entre a palavra e a fotografia. É, portanto, um li...

O realismo irónico

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Por Miguel Real Praticando um culto estilista da língua e sendo, com Mário Cláudio, um dos escritores vivos com mais amplo domínio de registo vocabular, seja clássico, seja moderno, Mário de Carvalho é possuidor de um vastíssimo leque de artifícios literários pelos quais encanta o leitor. Entre o anedotário, a paródia, a exploração surrealista da imaginação ( A inaudita guerra da Avenida Gago Coutinho , 1983; “Três personagens transviadas” e “Fenômenos da aviação”, in Contos vagabundos , 2001), o pastiche, o conto pícaro, a graça jocosa, a apologia e a parábola moralistas, mantém sempre uma admirável qualidade de escrita. Foi, porém, nas diversas modalidades do conto e do romance histórico ( Um deus passeando pela brisa da tarde , 1994) que Mário de Carvalho sobressaiu com uma impressionante mestria, seja enquanto criador de uma obra-prima do pícaro moderno ( Quatrocentos mil sestércios , 1991), seja enquanto cultor do conto histórico-romântico ( Conde Jano , 1991), no...

Bom dia RN, da história de uma foto a uma coleção de livros

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Por Pedro Fernandes 1.  A foto apresentada acima data de 2006. Eu era quase recém-chegado a Mossoró e ao curso de Letras. Estou à saída do Teatro Lauro Monte Filho, situado na belíssima Praça Vigário Antônio Joaquim. Aqui uma curiosidade: a praça que se situa entre o teatro e a Catedral de Santa Luzia, apesar do nome, abriga um conjunto de estátuas que celebram Dix-Sept Rosado. Sim, a oligarquia está em toda parte. Na foto, não dá para ver as estátuas - é noite e a câmera do celular não faz milagres - mas o conjunto arquitetônico está bem atrás de mim.  2.  Por este ano e desde o ano anterior, 2005, circulava pelo Rio Grande do Norte um ciclo feito de um conjunto de vozes interessado por colocar em órbita discussões acerca das mais variadas manifestações históricas, culturais e literárias potiguares. O nome do projeto de seminários, Bom Dia. Agregou mais de uma centena de professores, jornalistas, intelectuais, políticos, mestres e doutores, pe...

A necessidade de ficção

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Por Pedro Fernandes Eis que chega ao fim o seriado que parecia não ter fim nunca. E deve chegar com um fim ad infinitum . Não deverá agradar, certamente, a gregos e troianos. A quem conseguiu atravessar a jornada há de ficar um rombo na agenda possível de ser substituído por outro que vier: os estúdios estadunidenses despertaram há um tempo para esse filão dos seriados e devem fazer disso o negócio da china em narrativa para a tela. Como foi que comecei a ver Lost não me lembro. Nem o porquê. Talvez eu tenha sido influenciado pelos amigos da faculdade que já ficavam horas no computador esperando disponibilizarem na web os episódios e fazer o download . Ao menos foi assim que consegui me embrenhar nesse complexo quebra-cabeças muito antes da estreia na TV aberta.   Nesse ritmo assisti ainda, por completo, as quatro primeiras temporadas. Os atropelos do tempo, no entanto, fizeram com que tivesse de deixar o restante do material lançado para outro momento, este qu...

Ben-Hur, de William Wyler

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Ben-Hur  é um filme grande sob todos os aspectos. Além das suas três horas e meia de duração, os números de produção impressionam ainda hoje. O orçamento total foi de US$15 milhões (o longa mais caro já feito, até então), e a bilheteria, de mais de US$70 milhões só nos Estados Unidos, tirou a MGM do buraco. Foram utilizados 100 mil figurinos e 300 sets construídos. A emblemática cena da corrida de bigas exemplifica o espírito grandioso: sua filmagem durou três meses e exigiu a presença de 8 mil extras em uma arena construída em um ano, ao custo de US$ 1 milhão. Uma meticulosidade típica de William Wyler, por anos tido injustamente como um diretor sem personalidade; um artesão, não um autor. A história da vingança do escravo Ben-Hur (Charlton Heston, que ganhou o papel após a recusa de Burt Lancaster e Paul Newman) contra seu traidor e ex-amigo Messala (Stephen Boyd), cheia de referências bíblicas e à vida de Cristo, foi adaptada do romance homônimo do general americano L...