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O fim de tudo, de Luiz Vilela

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Por Pedro Fernandes Desde Machado de Assis, é possível distinguir entre os escritores brasileiros, uma vertente do conto só encontrada por aqui. É que em grande parte a narrativa curta se distanciou do elemento poético ou das situações reflexivas comuns em outras literaturas e aproximou-se do trivial e corriqueiro. Isto é, nossa contística afeiçoou-se mais à crônica e figura não como uma narrativa enquadrada numa moldura, um recorte fotográfico, para voltar às relações descritas por Julio Cortázar, mas como um fotograma – o recorte também de molde da fotografia, mas interessado em não desprezar o movimento contínuo que se nota, por exemplo, na novela ou no romance. É claro que, determinadas maneiras clássicas de assunção da narrativa curta, tem raízes profundas entre nós, sobretudo, se olharmos a partir dos exercícios construídos por uma Clarice Lispector; mas, mesmo a escritora de Laços de família , se isolarmos a diversa quantidade de simbologias, propositalmente umas – ou...

Viver, beber e escrever

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Por Ulises Culebro O poeta John Berryman seguia uma estrita dieta constituída de um litro diário de uísque enquanto escrevia na década de 1960 seus poemas de The dream songs . Em seus anos em Cuba, Hemingway chegava a beber 16 daiquiris numa sentada, um recorde só superado pelos 18 uísques que parecem ter levado à tumba Dylan Thomas. Some-se (ou melhor, subtraia-se) os licores em questão nalgumas dessas ocasiões e as longas conversas que também as acompanham e só assim terão uma ideia aproximada das proezas desses titãs da bebida. Em Viagem ao redor da garrafa , Olivia Laing se dedicou a seguir o rastro de seis dos muitos escritores estadunidenses marcados pela bebida; dos oito prêmios Nobel de Literatura (homens) que teve os Estados Unidos, cinco eram alcoólatras. Ajudada pelos lugares onde viveram e beberam John Cheever, F. Scott Fitzgerald, Hemingway, Raymond Carver, Tennessee Williams e John Berryman, a autora traça um mapa topográfico do alcoolismo na literatura...

Imre Kertész, lembrar para não permitir o renascimento do horror

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Por Guillermo Altares Imre Kertész, sobrevivente de Auschwitz, morreu numa quinta-feira, 31 de março de 2016, em sua cidade natal, Budapeste. Sua obra, sobretudo seu romance Sem destino , que levou treze anos para escrevê-lo e publicou em 1975, oferece tanto do ponto de vista literário como memorialístico uma janela única para observar um acontecimento que define o século XX: o Holocausto. Kertész era um menino de 15 anos quando foi deportado em 1944 pela polícia húngara para o campo de extermínio alemão de Auschwitz, na Polônia. Quando voltou para a Hungria, não só encontrou o apartamento de seus pais ocupado por estranhos como se deu conta de que restava só no mundo – toda sua família havia sido engolida pela máquina de assassinar nazista. Essa sensação de solidão ante o horror, de que cada decisão tomada por um adolescente que não havia cumprido a maioridade pode determinar sua vida ou sua morte, está no coração da obra de Kertész e foi um dos elementos favo...

As grandes ondas, de António Barahona (Parte I)

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Por Pedro Belo Clara Apresenta-se hoje aos nossos estimados leitores o título escolhido para a reunião da obra poética do autor citado em epígrafe. O nome do mesmo, sabemo-lo graças às breves notas que em anexo a este livro clarificam diversos pormenores passíveis de ser encontrados através de um natural movimento de leitura, nasce a partir de “As grandes fontes”, sugestão do também escritor Alexandre Vargas, e merece melhor clarificação no poema de abertura, intitulado “Prefácio”: As Grandes Ondas: ígneo mar revôlto do coração, a fluctuar no som, a lume do tumulto. Um excelente modo de iniciar esta viagem pelo universo poético de Barahona, sem dúvida, dado o aprumo da súmula que se fez poema. Embora, sublinhamos, em momento algum do livro se identifique uma menção ao facto de termos em mãos uma antologia pessoal. Muito pelo contrário: leríamos o livro como se se tratasse de um novo trabalho do autor. Somente chegando ao seu término poderemos ver a ref...

Boletim Letras 360º #163

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A semana está marcada por uma daquelas perdas irreparáveis: desta vez estamos sem o escritor Imre Kertész (imagem), Prêmio Nobel de Literatura de 2002. Esta é uma das notícias de destaque no conjunto de informações que deram forma aos vários encontros nossos com os leitores de nossa página no Facebook   – página que chegou aos 25 mil amigos! Todos são muito bem-vindos! Segunda-feira, 28/03 >>> Inglaterra: Vai a leilão um lote de 230 peças de cerâmica realizadas por Pablo Picasso De 1947 até a década de 1970, Picasso dedicou a mesma paixão que tinha pela pintura à cerâmica –desde o desenho e a escultura. O encanto por essa forma de trabalho nasce no verão de 1946, quando o artista conheceu os ceramistas Suzanne Douly e Georges Ramié em seu estúdio Madoura, na cidade francesa de Vallauris. Foi ela quem convenceu a Picasso para que fizesse edições numeradas de cerâmica. O leilão é realizado pela Sotheby's no próximo 5 de abril e as peças estão a...

O trem azul do destino da poesia de Demétrio Diniz

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Por Márcio de Lima Dantas 1. O livro Haveres (Natal: Barriguda, 2004), terceiro do poeta Demétrio Vieira Diniz, atesta e faz saber o delineamento de uma singular dicção. Engenho e arte que latejavam na compleição expressional e semântica da fatura dos poemas do livro anterior, Passarás, irrompem numa constelação de imagens no qual se mesclam domínio da arquitetura do verso com uma detida reflexão marcada por uma temperança bem estoicamente sertaneja. O denso e precioso prefácio do também poeta Leontino Filho, retalhando o livro em nacos de exegética profundidade, e com arguto conhecimento de categorias da teoria da literatura, alcança a requintada estampa do livro, detendo-se em cada poema, numa atitude amorosa de leitor afeito à poesia de qualidade; o crítico, apaixonado por seu objeto, engendrou um ensaio cujas fronteiras recendem o suave perfume das chapadas florescidas da mais autêntica poesia.  Poesia resultado de um indivíduo que é uma espécie de ar...