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J. P. Donleavy: Um safado em Dublin

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Por José María Guelbenzu James Patrick Donleavy é um escritor estadunidense nascido em Nova York, em 1926. Seu primeiro romance Um safado em Dublin (tradução de The ginger man ) encontrou sérias dificuldades para publicação por causa de seu conteúdo suscetível de ser julgado por obscenidade. A editora Olympia Press – a mesma que um dia, muito anos antes, trouxe à luz outro romance igualmente tachado de obsceno, o Ulysses , de James Joyce – foi quem se atreveu a publicá-lo em 1955 e não apareceu nos Estados Unidos até 1958. Um safado em Dublin acabou por causar um grande impacto e hoje figura como um clássico do século XX na lista dos cem grandes romances deste período elaborada pela Modern Library. O leitor que enfrenta hoje este livro pensará imediatamente em Charles Bukowski, um medíocre escritor que se tornou moda em nosso país há uns quantos anos por sua condição de alcoólatra e desleixada indiferença. A comparação é certamente interessante porque entre Buk...

Uma caneta chamada García Márquez

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Por Winston Manrique Sabogal Numa noite festiva de sexta-feira, onde havia sido um lugar de resistência de escravos em Cartagena das Índias, acendeu-se a luz do jornalismo e do futuro em Gabriel García Márquez. Tinha 21 anos, estava sem trabalho e o destino desfeito seus planos de estudar Direito e escrever contos para oferecer-se um futuro em que se viu aterrorizado quando um amigo, com música para todo tambor, lhe propôs tentar a sorte como jornalista. “Soube aprender o ofício e poetizá-lo desde aqueles dias da origem de repórter ligado ao escritor e romancista que está buscando a si próprio”, explica Dasso Saldívar, autor de sua biografia Gabriel García Márquez: viagem à semente . Passagens dessa geografia jornalística estão em O escândalo do século (tradução livre: Literatura Random House), com prefácio de Jon Lee Anderson, uma antologia que reúne meia centena de crônicas, reportagens e artigos selecionados por Cristóbal Pera. Tudo começou há setenta anos. Garcí...

Elogio ao contador de histórias

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Por José Manuel Fajardo O escritor Italo Calvino. É difícil determinar qual é o lugar, o alcance, a importância que a literatura tem para os seres humanos. Poderia se pensar que na realidade é um assunto que concerne basicamente à maioria formada por leitores de livros. Talvez, tomando nota dos tempos audiovisuais em que vivemos, poderia se ampliar essa influência aos que desfrutam dos filmes e séries de televisão que se inspiram em romances ou em obras para o teatro. Esses cálculos, por sua vez, sempre são suspeitos, porque a literatura, em sua dimensão narrativa, ocupou e ocupa um lugar central na vida de toda a humanidade: leitores e analfabetos, curiosos e não-curiosos, ricos e pobres. Como dizia uma personagem de William Shakespeare, a vida é um conto cheio de som e fúria contado por um louco. Talvez a crueldade, a brutalidade e a loucura não façam parte necessariamente da vida, mas o que não resta dúvida é que esta é sempre para os seres humanos um conto, um roma...

Boletim Letras 360º #290

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Estas são as notícias copiadas esta semana em nossa página no Facebook . E não deixamos de lembrar os leitores que acompanham o blog que, na segunda-feira, 10 de setembro de 2018, realizaremos o segundo sorteio de um exemplar de O dom da amizade , de Colin Duriez. Publicado pela HarperCollins Brasil, o livro conta a relação de amizade entre dois gênios da literatura de fantasia, J. R. R. Tolkien e C. S. Lewis. Como será o sorteio e como participar da promoção? Fácil! Visita nossa página no Facebook (o link está na primeira linha desta nota). Revisitar a obra, o pensamento e a biografia de José Saramago no ano de duas décadas do Prêmio Nobel ao escritor português, o único em língua portuguesa até o presente. Segunda-feira, 03/09 >>> Itália: A série baseada na tetralogia napolitana de Elena Ferrante tem estreia mundial no Festival de Veneza Em 2016 noticiamos por aqui que um seriado a partir dos quatro romances que sagrou a es...

Não escrever: breve ensaio sobre a impossibilidade

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Por Matías Moscardi Em seu poema “Brisa marinha” Mallarmé condensa, numa imagem, o momento inaugural e vertiginoso da escrita moderna nesse “papel vazio com seu branco anseio”. Aí parece começar o ato criativo do poeta: no contraste entre o branco imaculado da folha e a gordurosa tinta negra que, num pequeno big-bang caligráfico, dá vida a um universo inteiro. Entende-se, então, que no imaginário romântico encontremos o mito da origem do famoso “bloqueio criativo do escritor”. Se o poeta é um “pequeno deus”, a folha em branco se converte no nada que enfrenta: um vórtice retangular de celulose que, de sua condição estática e impassível, ameaça em bloquear até mesmo o mínimo vislumbre de começo. César Vallejo começa um conhecido soneto com estes dois hendecassílabos: “Quero escrever, porém me sai espuma, / quero falar muitíssimo e me entalo”; no segundo quarteto, acrescenta: “Quero escrever, porém me sinto puma; / quero laurear-me, mas me cinjo de alho”. Algo nestes ver...

Jamais o fogo nunca, de Diamela Eltit

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Por Pedro Fernandes O título do romance mais conhecido de Diamela Eltit é retirado do poema “Os nove monstros”, de César Vallejo. A leitura integral do texto, que não está dissimulado na obra da escritora chilena porque os dois versos que formam sentido com o sintagma nominal aparecem logo à entrada como epígrafe, antecipa o conteúdo de Jamais o fogo nunca . Pode-se afirmar, inclusive, que o poema se constitui em chave de leitura indispensável porque entrar na narrativa do romance sem esse conhecimento pode significar um tempo maior para captar quais os seus sentidos. O poema em questão assinala o tema da dor e se constitui numa espécie de grito do poeta sobre a indignidade do seu tempo, quando homens se distanciam perigosamente da humanidade e se constituem em carrascos dos seus semelhantes, impondo sobre uns aos outros o opróbrio e o horror. Obviamente que este estágio de segregação aparece em Jamais o fogo nunca não se constitui de maneira íntegra a retoma...