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A promessa, de Friedrich Dürrenmatt

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Por Pedro Fernandes Algumas das expressões romanescas adquiriram um modelo repetido até a exaustão. É o caso do romance policial. Desde a publicação, em 1841, de The murders in the rue Morgue , de Edgar Allan Poe, que uma sorte de características tem servido à imaginação criativa de escritores de diferentes culturas: a cena casual de um crime, uma investigação em que todos são suspeitos e por vezes o criminoso é o menos provável, um detetive vestido dos princípios racionais capaz de desvendar o mistério com um simples ou um complexo exercício de estratagemas. A variedade de obras literárias ou de escritores que lidam com esses elementos levaram os estudiosos a compreenderem pelo menos duas categorias constitutivas do que podemos chamar por um modelo de romance: as histórias de detetives e as histórias policiais. As duas têm sua raiz na literatura criminal anglo-saxônica e se distinguem pela presença diferenciada do herói: numa, é um detetive particular e, noutra, um ou um g...

Selvagem, de Camille Vidal-Naquet

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Por Pedro Fernandes O primeiro filme de Camille Vidal-Naquet é uma releitura sobre a liberdade. E a situação escolhida para a afirmação sobre o que chamaríamos de sua tese – isso porque o espectador não demora a visualizar uma ideia central e o desenvolvimento de múltiplas situações no seu entorno no intuito de refutar e corroborar com o que se quer defender –, compõe praticamente um ensaio sobre o indivíduo. O trabalho do diretor francês nada tem de pioneiro, mas se apresenta tão profundamente impregnado das marcas que conduziram o pensamento e a criação de seu país que não deixa de chamar atenção pela maneira como reaviva alguns dos seus lugares mais interessantes. A principal questão é a constatação sobre a liberdade como uma utopia cujas fronteiras uma vez ultrapassadas não oferecem quaisquer oportunidades de sobrevivência ao sujeito. Isto é, o que à primeira vista parece coincidir com certo fatalismo proposital do homem (e não podemos deixar de lado tal hipó...

O mundo de Eugenio Montale

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Por César Antonio Molina A vida de Eugenio Montale foi uma aventura tranquila, sem sobressaltos, presa em si própria e só pouquíssimas vezes marcada em sua silenciosa busca pelo alheamento pelas conflagrações exteriores. O poeta italiano é um sujeito indiferente à profissão, à homenagem e até mesmo aos leitores. Seu isolamento é quase total e nele, como em quase nenhum outro escritor italiano de seu tempo, filia sua razão essencial e única de ser poeta. Em Montale há uma clara consciência de renúncia à vida exterior em favor da vida interior. “A arte é a forma de vida de quem verdadeiramente não vive: uma compensação ou um substituto”, escreveu numa carta. Mas, não é o próprio poeta (ele se refere ao artista no geral) quem deve “renunciar à vida”, mas é a própria vida “que se encarrega dessa fuga”. E isso acontece precisamente por ele ser mais consciente da vida que os demais. Os outros a vivem, o poeta ajuda a configurá-la possivelmente através da insistência na...

Contos da Aldeia, de Alberto Braga

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Por Pedro Belo Clara    Trazemos, nesta ocasião, à memória dos nossos estimados leitores, mas principalmente ao seu conhecimento, uma obra que tem permanecido oculta das grandes multidões por décadas sem conta – esquecimento de que o seu autor compartilha, também ele bastante fustigado pelos efeitos amnésicos do tempo. Alberto Leal Barradas Monteiro Braga nasceu na Foz do Douro, Porto, em 1851, e aí viria a falecer sessenta anos depois, em 1911, tuberculoso. Apesar do anonimato vivido nos anos mais recentes (e que largos anos esses), foi um jornalista, cronista, contista e dramaturgo conceituado no seu tempo. Inicialmente secretário do já extinto Instituto Comercial Português, notabilizar-se-ia com a assinatura de crónicas diversas, tanto em jornais portugueses como brasileiros, e em muitas ocasiões sob pseudónimo – a saber: Diogo Mateus. Chegou a dirigir o suplemento A semana de Lisboa , que durou apenas dois anos (1893 – 1895), onde foi igualment...

Boletim Letras 360º #332

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Este Boletim fecha o mês de junho e o primeiro semestre de 2019. É uma data quase cabalística se formos considerar as duas coincidências. Por isso, nesta edição, acrescentamos outro elemento de valia. Queremos ajudar nosso leitor na construção de suas leituras para o segundo semestre do ano. Por isso, esteja atento às recomendações na seção Dicas de leitura, que apresenta seis destaques das publicações que chegaram às livrarias brasileiras nesses seis primeiros meses. Toda editora quer um Joseph Conrad para chamar de seu. Chega às livrarias outra edição de Coração das trevas Segunda-feira, 24 de junho Um pé de milho , que reúne crônicas de Rubem Braga publicadas em vários jornais e revistas entre 1933 e 1947 é próximo título nas reedições da Global Editora. Alguns dos textos aqui reunidos como “Passeio à Infância” e “Em Cachoeiro”, retratam a infância de Rubem Braga, enquanto que outros, como “História do Corrupião”, “Receita de casa” e a obra-prima ...

Este livro eu não termino nunca e todo dia o inicio

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Por Beatriz Martins tenho este livro que não consigo e não posso e ao menos se eu ainda quisesse, ainda assim, eu não vou terminar de lê-lo. este livro, cujo lugar é a bancada da minha estante, similar a uma mesa ou um perde-tudo-aí-em-cima, nunca vai pras prateleiras. ele nunca descansa. está sempre ao alcance de uma estirada de braço. vez-em-quando é ele quem me chama. precisa me falar algo, urgente, vai ao banheiro depois ou melhor, me leva, só não me respinga d’água, não liga a quem achar estranho tal maneirice. às vezes se parece a uma tradução de coisas inverbalizáveis. às vezes se parece legitimamente a um extraterrestre extrafísico extra-alguma-coisa de vontades próprias e desconhecidas. não gosta se atropelo suas palavras. demasiadamente se irrita se o leio devagar demais a ponto de minha mente ir lentamente a um outro lugar – lá foi ela e se assentou numa miudeza. um dia me disse algo tão profundo, mas duma profundeza tamanha o era que me obrigou a levantar da ca...