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Utz, de Bruce Chatwin

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Por Pedro Fernandes Utz é um romance que se insere na rica tradição de estudo da personagem. Um pesquisador interessado pelo Renascimento do Norte visita a Tchecoslováquia em 1967 com a incumbência de escrever um artigo sobre a paixão do imperador Rodolfo II por colecionar objetos exóticos. O trabalho resulta num fracasso. E este se distingue, por sua vez, como o que se narra no romance. Mas, o leitor sossegue que não estará outra vez diante do escritor em crise, tampouco da narrativa que se deixa mostrar em sua intimidade. O outro caminho encontrado por esse pesquisador é ainda mais interessante porque parece servir ao seu interesse original: a personagem encontrada permite-lhe o relato sobre um colecionador compulsivo e por ele uma rica viagem pelo imaginário da Europa Central, sobretudo por entre a tradição da porcelana sem, contudo, deixar de evidenciar os imperativos das sucessivas tentativas de poder que cercearam essa parte do velho continente. Quer dizer, o r...

Seberg contra todos, de Benedict Andrews

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Por Pablo Augusto-Silva Não sei se o crítico de cinema de nossa época considerará  Seberg contra todos ¹ (2020) um grande filme, menos ainda quanto à atuação da atriz protagonista, a americana Kristen Stewart (1990-), porque li algumas críticas afirmando que, até hoje, ela só fez filmes que ainda não exigiram muito de seu muito talento.   Mas resolvi compartilhar contigo o que penso sobre a obra porque minha intuição diz que é um daqueles filmes com potencial de ser agraciado pela justiça do deus tempo, que se consagram com o passar dos anos, além de discordar das opiniões negativas do trabalho dela; neste filme é possível ver uma artista séria, processando sua maturidade cênica e dando o melhor de si na construção da personagem. Eis a sinopse oficial: "Paris, 1968. A atriz Jean Seberg (Kristen Stewart) está no auge de sua popularidade, graças ao sucesso de vários filmes rodados na França. Ao voltar para os EUA, ela logo se envolve com o ativista de direitos c...

O amor, saída para o tempo

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 P or Tiago D. Oliveira Só quando terminei a leitura percebi os protestos vindos das panelas em vários prédios ao meu redor. Voltei para o livro, ainda sobre a mesa, e entendi – está tudo ali. Assim, entre a literatura e a realidade, comecei a digerir os versos de O nome do mapa e outros mitos de um tempo chamado aflição , novo livro de Clarissa Macedo, que ainda me levou para deambulações que me desconectaram permitindo-me imaginar como seria se tudo fosse diferente.  Depois de polarizar, calmamente, preenchi a mão direita contra o peito, guardei-me em uma respiração mais profunda – faz anos também que o cheiro do peixe invade as paredes, o catre, os sonhos, /[a minha oração . (“Dança”) – para uma aflição mapeada, desmitificada e combatida com a voz da poeta empunhada – eu continuo: persisto,/ de anzol gasto,/ no exercício de dar de comer à mãe, às filhas, às irmãs ;(“Dança”) – e entendo que a voz dessa mulher, que é filha, irmã e leitora de seu espaço/ tempo, é o...

Sobre Tolstói e Machado: duas concepções da natureza

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Por Davi Lopes Villaça Em seu livro Tolstói ou Dostoiévski , George Steiner aponta uma série de semelhanças entre as narrativas de Tolstói e as epopeias de Homero, buscando demonstrar o estilo épico do escritor russo. O crítico reflete sobre a relação entre autores e personagens, que se reflete em Homero na própria relação entre deuses e homens: “O criador está onisciente e presente em toda parte, mas ao mesmo tempo é desprendido, impassível e incansavelmente objetivo em sua visão. O Zeus homérico dirige a batalha da firmeza de sua montanha, segurando os pratos da balança do destino, mas sem intervir. Ou, ainda, intervindo, somente para restaurar o equilíbrio, para garantir a mutabilidade da vida humana contra a ajuda milagrosa as excessivas conquistas do heroísmo. Assim como no distanciamento do deus, na visão clara de Homero e Tolstói há crueldade e compaixão. Eles enxergavam com esses olhos vazios, ardentes e diretos, que nos observam através das fendas dos capac...

Boletim Letras 360º #372

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DO EDITOR 1. No Twitter @Letrasinverso lembramos, durante a semana, sobre duas coisas. Primeiro, falemos sobre a necessidade de, quem puder, ajudar as pequenas livrarias, livreiros, editoras independentes durante o longo período que atravessamos. Uma estratégia é variar as compras de livros do mês, colocando na lista de imediatos aqueles livros de editoras independentes que por vezes ficam para depois e comprá-los ou diretamente na editora ou na livraria adotada. E variar isso, mês após mês. 2. Várias editoras e livrarias independentes têm ampliado suas presenças na web sempre com novidades que facilitam o acesso aos livros: e-books para download gratuito, antecipação de pré-vendas, frete grátis, promoções etc. São estratégias de divulgação do trabalho desenvolvido por elas. Se o leitor não consegue apoiar financeiramente adquirindo o livro pode ajudar, comentando, curtindo, compartilhando os materiais divulgados. Pense que isso serve para ampliar os limites de atenção e at...

João Cabral de Melo Neto em Barcelona

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Por Ernesto Hernández Busto No verão de 1947, o poeta brasileiro João Cabral de Melo Neto chegou a Barcelona para servir como vice-cônsul de seu país. Nesse mesmo ano, ele se tornou amigo do pintor Joan Miró e, nos meses seguintes, se relaciona com vários representantes do grupo de vanguarda catalão que, no ano seguinte, em setembro, se uniria à revista Dau al Set (Modest Cuixart, Antoni Tapiès, Joan Brossa Joan-Josep Tharrats, Joan Ponç). Até essa data, Cabral já havia publicado três de seus livros de poesia – Pedra do sono (1942), Os três mal-amados (1943) e, especialmente, O engenheiro (1945) – consumando o trânsito entre suas primeiras preocupações surrealistas e uma posterior revolução formal da linguagem poética brasileira, onde poderá incorporar as mais radicais conquistas estéticas do século XX. Apenas durante os primeiros anos em Barcelona, ​​ele publicará duas outras obras fundamentais: Psicologia da composição com a fábula de Anfião e Antíodo (1947) e o ex...