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Marvin, de Anne Fontaine

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Por Pedro Fernandes A sinopse oficial de Marvin não menciona ser uma adaptação da obra de Édouard Louis; nem os créditos finais ou de abertura da película. Mas, resulta impossível negar as relações entre O fim de Eddy e Marvin , ainda que o romance nos coloque diante de outro rumo para a vida da personagem e se revista de uma objetividade mais acentuada acerca dos acontecimentos relatados. Quando se anunciou o novo filme de Anne Fontaine dizia-se que a história de um ator, dramaturgo e escritor que transformou a miséria, a violência e a vergonha de seu passado em campo de experimentação discursiva era a partir da obra de Édouard Louis; um ano depois, o próprio escritor veio a público dizer que não tinha nada a ver com o filme. A partir disso, tudo o que se disse foi especulação. Uma das cenas finais da obra de Anne Fontaine apresenta o agora Martin Clement acolhido pela apoteose de sua peça para o teatro encenada ao lado de Isabelle Huppert numa entrevista utilizand...

Gregório de Matos: preso e morto por crime de poesia

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Por Joaquim Emídio A literatura em língua portuguesa ganhou em Novembro de 2014 um livro de Ana Miranda intitulado Musa praguejadora. A vida de Gregório de Matos . Encontrei o livro no início de 2020 numa livraria de Fortaleza, onde não ia há quase 20 anos, e tive oportunidade de ler as suas 555 páginas demoradamente, durante duas semanas, rendido à escrita magistral e admirável de Ana Miranda. Não sei se há por aí livro que rivalize com Musa praguejadora , biografia romanceada que conta a vida de Gregório de Matos, e é um retrato admirável da História de Portugal e do Brasil do século XVII, retrato de mulheres da época que foram amadas e rejeitadas até ao tutano, da mesma forma apaixonada e violenta como era o espírito e a natureza de Gregório de Matos; história de guerras físicas e verbais que recordam, pelo prazer da leitura, páginas de Camilo, Aquilino, Eça, Ricardo Jorge e, mais lá para o tempo de Gregório de Matos, o Padre José Agostinho de Macedo. Não me estou ...

A recusa das utopias

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Por Davi Lopes Villaça Joan Miró. Mulher e cachorro diante da lua (1936). Aldous Huxley e George Orwell escreveram os mais célebres romances distópicos do século passado, buscando expor, na imagem de sociedades futuras, as tendências de seu próprio presente. Em 1984 , Orwell apresentou uma realidade miserável, administrada por um regime totalitário no qual o leitor de 1949 podia reconhecer traços dos recém-derrotados regimes fascistas e do stalinismo ainda vigente; vale lembrar: para Orwell, seu livro refletia também algumas inclinações de potências ditas liberais e democráticas, como Estados Unidos, França e Inglaterra, com seu nacionalismo e autoritarismo crescentes. No romance, as pessoas passam fome, trabalham como escravas e são continuamente vigiadas, mesmo durante o sono. A liberdade é quase nula e   qualquer atitude suspeita ou desviante daquela esperada pelo Partido é punida com a morte. Já em Admirável mundo novo (1932) Huxley imaginou um futuro dourado, verd...

Boletim Letras 360º #383

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DO EDITOR 1. Receio que, por estes dias de necessário isolamento social o que mais temos feito é arrumar a casa. Aqui no Letras também. Foi dada continuidade de alguns trabalhos para melhoria deste ambiente virtual. O trabalho de revisão dos textos, por exemplo, é serviço contínuo, mas, foi uma tarefa ampliada desde há alguns anos, quando o blog passou pelas grandes reformas que resultaram na sua fase atual. 2. Ainda existe algo próximo a oitenta textos para voltar online; mas, só agora, nesse período, treze que estavam em revisão foram finalizados e voltaram ao arquivo visível para os leitores. Lento trabalho que um dia, é o que se espera, conseguirá ser alcançado. 3. Nesta semana foram realizados ainda outros ajustes visuais: vários elementos de página foram modificados ― e o interesse é sempre o de garantir o conforto para a estadia do leitor no blog, que este não seja apenas seu porto de passagem. 4. Abaixo estão as notícias divulgadas durante a semana na pág...

Para tempos de isolamento: Naoko Ogigami

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Por Paula Luersen cena de Megane , de Naoko Ogigami. Depois de mais de oitenta dias de reclusão, vivendo em um país que não apresenta a menor perspectiva de retração da COVID-19, em que o respeito pelos mortos precisa ser afirmado frente à assustadora indiferença de grande parte da população, é difícil saber a que tipo de arte dedicar o nosso tempo. Pois a necessidade de arte não chega a se colocar como dúvida: em tempos de estupidez e descaso gerais, precisamos da arte para nos manter lúcidos e engajados com o mundo. As escolhas, contudo, acabam tomando uma importância fundamental para que a nossa sensibilidade, já tão ferida, não seja atingida em cheio a ponto de nos deprimir. Considerando esse cenário, encontrei nos filmes de Naoko Ogigami, assistidos durante a quarentena, nada menos que tranquilidade. Após o primeiro filme, tive de procurar pelos outros, tamanha a habilidade da roteirista e diretora japonesa de me manter interessada no que tem a dizer. As histór...

José Saramago, ler para mover-se

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Por Pedro Fernandes José Saramago, 1990. Foto: Juan Guamy. Alguém dado a ler a obra de José Saramago logo perceberá a viagem como um topus recorrente. Cito para a ocasião dois momentos dos mais significativos: o primeiro, de A jangada de pedra e o segundo de Todos os nomes . Esses dois romances estão inseridos em ocasiões distintas da sua criação literária. No primeiro, o tema é também a forma do romance: por obra de um acaso geográfico, a Península Ibérica parte-se da Europa e inicia um itinerário à procura de um ponto ideal no mapa. Tal itinerário será responsável pelo encontro de personagens vindas de lugares distintos da Península; são elas também acometidas por acasos, e uma vez juntas seguirão sobre a extensa barca de terra um itinerário muito particular. No outro romance, um funcionário público com o nome de Sr. José (qualquer semelhança com o do poema de Carlos Drummond de Andrade não é inocente), escriturário na Conservatória Geral do Registo Civil, uma i...