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Vou-me embora para Porto Pim

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Por Tiago D. Oliveira Lembro-me do primeiro contato com os versos de Fernando Moreira Salles. O livro era o Ser longe (2003), havia um espaço desmedido que não consegui inteiramente deter, ficou um tronco adentrando o quarto, empurrando a janela. Curioso é que quando acordei nesta manhã a mesma imagem desenhada ganhou carne e me levou novamente ao chamado de um verso que cavou em mim uma “Memória”, também título daquele poema, lembrar / é ser longe . Abri a janela mais e mais a cada página passada e deixei-me ir. Carrego em minhas mãos o Diário de Porto Pim e outros poemas  editado em 2020 pela Iluminuras com a sensibilidade de quem acompanha o sol em seu deitar depois de mais um dia cheio de trabalho. A delicadeza da capa, feita pelo Eder Cardoso, dialoga perfeitamente com a atmosfera dos poemas diante de um desencanto com o mundo que caminha em seu destino para maturar o próprio caminhar. É como se o poeta entendesse   que os versos são a lâmina abrindo a mata para o ...

Entre Croce e Sainte-Beuve: Carpeaux e os caminhos da crítica

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Por Guilherme Mazzafera No que constitui uma de suas primeiras reflexões em terras brasileiras sobre o ofício da crítica literária, Otto Maria Carpeaux procura qualificar dois termos-chave de seu vocabulário crítico, expressos no título do ensaio: “Situação e presença: algumas reflexões sobre a crítica literária”. 1  Ao propor uma reavaliação radical dos conceitos históricos postulado por Charles Sainte-Beuve e Benedetto Croce, Carpeaux estabelece uma oposição entre tais abordagens: “Sainte-Beuve parte do homem e Croce parte da obra, e parece que estes dois métodos levam a triunfos e a derrotas igualmente opostos.” Sainte-Beuve seria incontestável no que se refere ao passado literário, impregnando sua recepção até o presente vivido por Carpeaux. Por outro lado, seria surdo às manifestações da atualidade, pós-1830, ignorando autores como Stendhal, Balzac, Hugo, Flaubert, Musset e Nerval. Croce, por outro lado, embora tenha sido por muito tempo “o juiz e a consciência da literatura c...

Boletim Letras 360º #408

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    DO EDITOR   1. Saudações, leitores! A seguir, encontram as notícias que fizeram a semana em nossa página no Facebook. Esta invenção denominada Boletim Letras 360.º foi criada há 405 semanas, quando os algoritmos da rede social mais frequentada da casa passou a esconder (como faz cada vez mais abruptamente nos dias de hoje) nossas posts.   2. Já agora começamos a demonstrar os sinais para o pequeno recesso do final de ano. Os boletins ficarão mais curtos, sem as seções de costume e as publicações aqui no blog ganharão menor ritmo. É o período para pensarmos o novo ano e conseguirmos algum descanso que seja. 3. Mas as atividades nas redes sociais continuam. Em breve, algumas novidades no nosso Instagram. Fiquem atentos! Obrigado pela companhia. Boas leituras! Katherine Mansfield. Cultuada contista ganha nova edição no Brasil com prosa seleta.   LANÇAMENTOS   Antologia reúne os mais típicos contos de Katherine Mansfield .   Katherine Mansfield é consi...

A renúncia como obra de arte

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Por Alejandro Badillo Ilustração: Joey Guidone.   Para o escritor, deixar uma página em branco é uma tragédia. A hiperprodutividade deste século privilegia a progressão e a finalização. A desistência parece um estado de espírito em extinção, algo vergonhoso. Isso foi expresso, talvez intuitivamente, por Herman Melville em seu conto “Bartleby, o escrivão”. Na história, o funcionário recém-contratado leva a recusa, o não-fazer, até o último limite. No jovem capitalismo estadunidense ― não podemos esquecer que o título do conto inclui como subtítulo “Uma história de Wall Street” ― era revolucionário e perigoso não se inserir no aparelho produtivo. Parar o ciclo de produção e consumo capitalista não pela destruição de máquinas, como os luditas fizeram no século XIX, mas pela inação parece um cenário próximo aos nossos tempos, especialmente após o surgimento da Covid-19 e a desaceleração da economia mundial por vários meses.   Na narrativa, abortar a possibilidade de concluir uma h...

Os nomes de Clarice Lispector

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Por Antonio Maura Clarice Lispector. Acervo Casa de Rui Barbosa.   Nos últimos anos, multiplicaram-se as publicações ― livros, artigos, teses de doutorado ― sobre a obra de Clarice Lispector. A escritora brasileira tem três biografias, cada uma delas aprofundando suas origens, sua personagem, a relação entre seus livros e sua trajetória de vida, e as anedotas contadas sobre ela por seus amigos, familiares e conhecidos. Os leitores espanhóis interessados ​​na vida da escritora também podem consultar o livro Ladrona de rosas , de Laura Freixas, que sintetiza de forma inteligente as três biografias e faz comentários sensatos sobre sua personalidade, a forma como abordou sua feminilidade e sua obra.   Quando se trata de obras críticas, a variedade é tamanha que é difícil classificá-las. Desde os primeiros estudos existencialistas ou da chamada “escrita feminina”, tradição inaugurada pela escritora Hélène Cixous, aos do misticismo hebraico, cristão e até zen, das análises psicanalí...

Johnny Panic e a bíblia dos sonhos, de Sylvia Plath

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    Por Pedro Fernandes Sylvia Plath. Foto: Gordon Lameyer A reunião de textos de Sylvia Plath feita por Ted Hughes, poeta e seu companheiro, apareceu no final da década de 1970 em língua inglesa. A primeira edição era composta por uma parte dos materiais finalizados e à espera de ganhar o público. Depois, a descoberta de um vasto espólio adquirido pela Universidade de Indiana, ampliou a antologia; aos treze dos dezessete contos do arquivo original somaram-se mais nove da meia centena de textos que perfazem os primeiros esforços criativos da escritora até os anos 1960. O restante da edição se completa com crônicas marcadas por acentuado tom ficcional e anotações de mesmo valor colhidas dos muitos cadernos que hospedava extensa variedade de exercícios escriturais.   Isso significa dizer que extensa parte da prosa ficcional da autora de A redoma de vidro permanece disponível apenas aos leitores pesquisadores capazes de desenvolver um contato mais aproximado com o universo ...