Romance com ficção
Por Thiago Teixeira
![]() |
| Patrick Deville. Arquivo Radio France (Reprodução) |
Na guarda da capa vemos a fotografia de um homem jovem com a pele queimada de sol diante da varanda de uma cabana rústica. Todo de branco, não sabemos se em uniforme militar ou médico, mas certamente colonial, ele nos desperta uma reminiscência. Onde vimos uma imagem parecida? E então nos lembramos do raro registro do Rimbaud adulto, quando, já tendo rompido com a literatura, meteu-se no tráfico de armas em África, no que se tornou paradigma da figura do escritor que abandona a arte por uma vida aventurosa.
O nome do jovem rapaz é Alexandre Yersin, o renomado cientista que protagoniza o romance biográfico Peste e cólera, de Patrick Deville. O autor, como o biografado, é um homem de viagens e viu em Yersin uma figura central do século passado, descobridor do bacilo da peste bubônica, encarnando a ciência e a vida prática. Munido de documentação e seguindo as pegadas do biografado, o romancista reconstitui parte do breve século XX e explora um contexto em que a França, no espírito colonial, liderava os avanços médicos e científicos e espalhava a fé e o império, tendo como um de seus brasões o nome de Pasteur e dos pasteurianos, de cujo grupo Yersin fez parte.
Romance curto, de poucos e breves capítulos, vamos seguindo pelas páginas os caminhos do cientista-viajante e suas descobertas. Elas não nascem da leitura de tratados, da especulação filosófica ou da teoria, mas do contato com os homens, da experiência científica, da análise por meio de microscópios e cobaias, dono de um “pensamento pragmático e experimental”.
Deville quer dar a devida importância a quem enfrentou cientificamente uma histórica peste fatal, descrita desde Tucídides em A guerra do Peloponeso, por um Boccaccio no Decamerão, uma peste que chegou a ser um dos fatos mais mortíferos na Idade Média. Um feito e tanto, mas a que não se dá a devida lembrança, talvez pela modéstia do descobridor, que, por não gostar dos holofotes, ainda foi ofuscado por questões políticas e geopolíticas, além da sabida e costumeira injustiça dos acadêmicos suecos do Nobel. Passaria em branco em nosso século, se não encontrasse quem lhe narrasse e canonizasse a vida.
O estilo do livro é bem-marcado: frases curtas, diretas, concretas e com constante presença de enumerações. Chega a ser mesmo um estilo paratático e, em alguns momentos, dá-nos exemplos do que se costuma chamar de frases taquigráficas. A associação dessas frases com a enumeração e os pequenos blocos de capítulos gera um ritmo veloz e acumulativo, reforçado pela presença de fatos banais e cotidianos de um escritor afeito a minúcias. O resultado é uma narração panorâmica, superficial, breve e intensa.
É que o estilo encarna a dificuldade para se chegar ao sujeito que está sendo biografado. Não chegamos à psicologia do protagonista, não podemos analisá-lo detidamente, todo ele, Yersin, é apenas indícios, uma sequência de ações e fatos que se vão acumulando e a partir dos quais não é esboçada nenhuma unidade. O investigador parece não ter ido além de juntar as pegadas do cientista, feito com elas um inventário de rastros e registros, não indo muito além, não construindo unidade com todo esse material bruto; material que, quando organizado, soa algumas vezes apenas como uma organizada lista de fatos.

Aparentemente, Deville quis nos apresentar uma personagem sem psicologia — e talvez seja isso o que ele quis dizer com a expressão com que caracterizou a obra: um romance sem ficção — e apresenta-nos uma personagem arredia, cuja vida, afastada no tempo e tão móvel, não pode ser completamente capturada, uma personagem para quem “A vida não vale a pena sem movimento”. A angústia ou espanto do biógrafo em busca de seu biografado se traduz na sintaxe fria e enumerativa, quase documental, de quem apanha os rastros de um crime, mas não atina com a solução.
Com isso, não nos deparamos apenas com um Yersin que, como um Rimbaud, deixou-nos pouco da sua vida; deparamo-nos também com as angústias do próprio biógrafo, em uma sutil metalinguagem, ou metanarrativa, em que, por meio de rasgos narrativos, a figura do biógrafo também se deixa ver. Essa aparição, aliás, é digna de nota: o biógrafo começa surgindo comedidamente, quase imperceptivelmente, quando acrescenta dados históricos ao narrado, na intenção de alocar a cena no espaço e no tempo, quase pedagogicamente. É assim que autor não se limita a dizer que na sala de espera de um aeroporto há um grupo de fugitivos, faz questão de nos explicar que as tropas alemãs estão às portas de Paris — o biógrafo se intromete no registro do romancista para explicar que a cena se passa no período da Segunda Guerra.
Ele aparece também nos paralelismos usados para compor Yersin, comparando-o a Rimbaud, Livingstone, Conrad, na costumeira cisma de enciclopedicamente citar autores. Sentimos a sua obsessão em destacar do protagonista a imagem do viajante aventureiro, até mesmo o seu sentimento de injustiça ao destacar muitas vezes que Yersin não ganhou o Nobel, mesmo sendo algumas vezes indicado.
A presença do biógrafo se torna cada vez mais intensa, à medida que a narração vai avançando no tempo e o biografado vai persistindo em escapar, a ponto de o narrador mesmo explicitar-se sem pejo, intitulando-se o fantasma do futuro. Agora o próprio Yersin, lá no passado, passa a perceber a presença do futuro biógrafo. É quando o biógrafo aparece corporalmente na narrativa, e o vemos visitando os lugares para onde fora Yersin, vemo-lo mexendo em arquivos, lendo as notícias da época. E isso vai aumentando — e, pelo visto, o romance sem ficção torna-se um romance com muita ficção —, até que biografado e biógrafo tocam a mão um do outro num mesmo trinco: a simbiose entre o pesquisador e seu objeto de pesquisa ocorre quando compartilham o mesmo espaço:
“O fantasma do futuro, o homem da caderneta que segue Yersin como sua sombra e também desembarca de Nha Trang com os pés gelados, acompanha Yersin em seus passeios. Na rua Plumet, porque realmente faz muito frio, os dois empurram a porta do Select, um bistrô perdido no tempo em que a decoração deve ser a mesma desde os anos 20. Pedem cafés”.
Pedem cafés ao mesmo tempo: a completa união entre realidade e ficção, entre presente e passado, entre narrador e personagem.
Se Yersin foi um viajante, Deville também o foi, ambos em uma busca: a do primeiro, a busca pela cura por meio da ciência; a do segundo, a busca pelo outro por meio da literatura. Curioso que ela, a literatura, aparece no romance para ser tratada como algo menor diante de um mundo a ser explorado — a velha imagem de Rimbaud jogando fora os seus livros —, mas ao mesmo tempo ela, a literatura, é no final das contas o que está em jogo desde o início do livro, o que está sendo, desde o início, elogiado. É que o biógrafo escolheu a literatura para realizar quixotesca busca pela vida de um homem do século anterior ao seu, uma busca nada fácil perante as dificuldades de se enxertar carne ao tempo:
“O cálculo é simples: se cada um entre nós escrevesse apenas sobre dez vidas ao longo da sua, nenhuma vida seria esquecida. Nenhuma seria apagada. Cada uma chegaria à posteridade, e assim se faria justiça”.
A literatura, este contar outras vidas, é nada menos que justiça, uma luta contra o esquecimento: “a luta do homem contra o poder é a luta da memória contra o esquecimento”, escrevera Kundera certa vez. Mas se temos a justificativa do trabalho de Deville, cabe-nos perguntar a respeito das ferramentas: por que Deville gasta tanta energia com os detalhes, citando vários nomes, comparando Yersin com outros, ligando esse indivíduo a toda uma série de informações e contextos? Por que o anseio de explicar tudo, de listar tanto, de elencar e enumerar, avisando-nos sobre tantas coisas?
A resposta é dada pelo próprio narrador, para quem uma vida é um ponto conectado em algo maior: “É a corrente que deve ser descrita, e não o elo”.
Escrever sobre uma vida é escrever sobre toda a realidade em que aquela vida está inserida, como um elo de uma corrente. Peste e cólera é também a biografia de uma época.
______
Peste e cólera

Comentários