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Anotações sobre “Dois ensaios”, de Daniel Sada: um percurso da cultura brasileira recente

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  Por Marcelo Moraes Caetano Daniel Sada. Foto: Pascual Borzelli Iglesias   Parto de um diálogo com os Dois ensaios breves de Daniel Sada, publicados no Caderno de leituras n. 106, com seleção, tradução e notas de Gabriel Bueno da Costa. Os ensaios foram originariamente publicados com os títulos Assim escrevo , em 2010, e O conto e suas fórmulas , em 1998.   Para começar, nas “fórmulas” que Daniel Sada cita, vejo que há, hoje, também a fórmula “Syd Field”, que de certa forma Nelson Rodrigues e Rubem Fonseca já usavam instintivamente (talvez) em parte de suas obras.     Consiste em um acontecimento chocante, uma normalidade “estranha”, um incidente que leva gradativamente ou repentinamente ao impossível, a aproximação desse impossível, outro(s) incidente(s) que leva(m) a um impossível “mais” impossível, a vivência árdua desses impossíveis sobrepostos e... uma solução (im)possível, que pode ser o retorno à normalidade “estranha” ou à est...

Boletim Letras 360º #424

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    DO EDITOR   1. Saudações, caro leitor! Estas foram as notícias apresentadas durante a semana na página do blog Letras in.verso e re.verso no Facebook e o conteúdo das demais seções de leitura criadas em momento posterior à existência deste Boletim. Reitero os agradecimentos pela companhia do nosso trabalho. Espero que você esteja, dentro do possível são e seguro. Boas leituras! Yoko Ogawa. Foto: Hashino Yukinori. Premiado livro da escritora japonesa ganha edição no Brasil. LANÇAMENTOS   O livro de Yoko Ogawa finalista do International Book Prize 2020 e do National Book Awards 2019 é publicado no Brasil pela Estação Liberdade .   Em A polícia da memória , publicado originalmente em 1994, o leitor é conduzido ao submundo das memórias perdidas. Em tom de ficção cientifica, uma ilha governada por policiais que buscam vestígios de lembranças. Na ilha, os objetos, casas, e famílias inteiras somem sem deixar vestígios. Sem que as pessoas sequer se atentem, e notem...

Viagem à montanha mágica

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Por E. J. Rodríguez Thomas Mann. Foto: Man Ray.   A pior coisa que pode acontecer ao tentar explicar como interpretar uma determinada obra literária para aqueles que não a leram é que dê o infeliz caso segundo o qual todo o significado dessa obra depende de uma virada final do enredo. Evidentemente que não vou descrever essa reviravolta final aqui, para não estragar a experiência de ninguém. Mesmo assim, há muito a dizer sobre A montanha mágica , a magnum opus de Thomas Mann, que colocou o escritor alemão no caminho para o Prêmio Nobel de Literatura, embora o galardão tenha sido atribuído principalmente por outros de seus grandes trabalhos, como Os Buddenbrook .   A primeira coisa que devemos ter em mente é que não é um romance adequado para quem espera uma trama dinâmica, complexa e cheia de reviravoltas surpreendentes. A montanha mágica não oferece ao leitor um domínio de emoções nem provoca grandes intrigas. A sinopse do enredo, para uma obra tão volumosa, é esmagadoramen...

Quéreas & Calírroe, de Cáriton de Afrodísias

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    Por Pedro Fernandes     Teu casamento acaba noivo conforme às preces ― Safo     A publicação de uma forma textual de designação incerta situada a partir do século I d. C. em grande parte na zona periférica da Grécia romana costuma ser tratada com o elo entre as primeiras formas antigas de narração e as que se seguiram até o aparecimento do romance. Este cânone é bastante limitado e os motivos disso são os mais variados; o lugar marginal de escrita e circulação dos textos é um deles e falamos também sobre objetos de certo apelo popular, contrapostos, portanto, às expressões da epopeia e da tragédia, dominantes desde o período arcaico e clássico.   Adriane da Silva Duarte, tradutora brasileira de Quéreas & Calírroe ,   em “Dez textos para conhecer o romance antigo” estabelece a possibilidade de agrupar os textos atribuídos ao lugar de gênese da forma romanesca em pelo menos três categorias: uma formada por narrativas de amor e aventura ou d...

O Montezuma de Oswald Spengler

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Por Anke Birkenmaier Montezuma. Pallazo Pitti, Florença (Detalhe / Reprodução) No final da Primeira Guerra Mundial, a mais devastadora para o continente europeu desde a chegada da peste negra no século XIV, o filósofo alemão Oswald Spengler se fez mundialmente famoso pela publicação de sua obra A decadência do Ocidente (1918-1922), na qual profetizou o iminente ocaso da civilização ocidental. Spengler era praticamente desconhecido até então: doutorou-se em filosofia em 1904 com uma tese sobre Heráclito e, depois, fez-se professor de colégio, aposentando-se prematuramente graças a uma modesta herança. Ao longo de seus anos de juventude, havia escrito fragmentos de obras de teatro e de romances históricos sobre os heróis clássicos do passado, sem jamais publicá-los. A decadência do Ocidente foi um golpe magistral, apresentando uma nova visão de mundo em um estilo polêmico e elegante. Escrito entre 1911 e 1914, capturava o zeitgeist do momento, ao distanciar-se de uma Europa decaída e ad...

A resposta da menina má a Vargas Llosa

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Por José Lázaro Mario Vargas Llosa. Foto: Oscar del Pozo.   Durante a preparação do meu livro Vías paralelas: Vargas Llosa y Savater. Un ensayo dialogado (Ed. Triacastela, 2020) mantive uma correspondência com o romancista peruano que foi essencial para poder escrevê-lo. E ao revisar a enorme documentação existente, descobri para minha surpresa que ele havia escrito e publicado um livro em inglês: A Writer's Reality (Syracuse University Press, 1991), frequentemente citado por seus comentaristas anglo-saxões e pouco conhecido pelos leitores de língua espanhola. Quando perguntado por que não havia sido publicado no seu idioma, ele respondeu que nenhum editor havia se interessado e aceitou de bom grado a proposta de fazê-lo e enviou à minha editora. É agora um primeiro livro de Vargas Llosa traduzido para o espanhol.   Algo semelhante aconteceu com Diálogos no Peru , obra compilada por Jorge Coaguila, da qual teve cinco edições peruanas e nenhuma em Espanha.   Os três livro...