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Witold Gombrowicz

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Por Enrique Vila-Matas Witold Gombrowicz. Tandil, 1958.   Antes de tudo, devo esclarecer a maneira ridícula como surgiu meu fascínio pela literatura de Gombrowicz. Surgiu muito antes de ler sua obra. Nasceu exatamente do contato com uma fotografia que acompanhava a entrevista que lhe fizeram no primeiro número da revista espanhola Quimera . Gombrowicz posava com um boina, muito altivo no alto do que parecia ser uma carruagem, em Tandil, Argentina. Ele tinha o que eu entendia que deveria ter, um rosto arrogante de uma pessoa inteligente. Ainda não sabia que ele havia escrito: “Quanto mais inteligente se é, mais tolo.”   Eu ainda não sabia disso ou de muitas outras coisas, mas me pareceu intuir que na entrevista Gombrowicz dizia coisas geniais ou complicadas. As frases complicadas acabaram parecendo-me ainda melhores do que as geniais. Quero ser parecido com ele, pensei imediatamente. Não queria ser como Juan Benet ou Sánchez Ferlosio. Queria ser um escritor não-espanhol e, se ...

Boletim Letras 360º #547

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Vicente Aleixandre. Foto: Gianni Ferrari LANÇAMENTOS   Pela primeira vez no Brasil um livro do Nobel de Literatura Vicente Aleixandre, poeta espanhol que marcou o século XX .   Em A destruição ou o amor , Aleixandre atingiu a maturidade total do seu estilo poético, com uma escrita complexa e original marcada pelo surrealismo. Publicado na Espanha em 1935, o livro recebeu o Prêmio Nacional de Poesia e é o principal título da primeira fase do autor, que é um dos expoentes da chamada Geração de 27 e ganhador do Nobel de Literatura em 1977. A destruição ou o amor nasceu aparentando uma insatisfação de Aleixandre com certas limitações do estilo surrealista — ele simplesmente assimila o estilo em uma visão expandida que alguns chamaram de neorromântica, pois em seu panteísmo místico o poeta abraça o próprio mundo em amor que consome. O autor move-se com grandiosidade nesse cosmos, sem Deus e sem homem civilizado, cumprindo o seu destino trágico através do amor como destruição. O l...

De Afrodite a Vênus: reimaginando o mito da divindade feminina

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Por Giovanni Villavicencio   Ó mãe dos filhos de Enéas; volúpia de homens e deuses, [...] a ti quero de sócia na escrita desses versos, que sobre a natureza das coisas tento compor   — Lucrécio* Vênus deitada numa concha. Afresco de Pompeia.   Ao nos aprofundarmos na literatura greco-romana, a primeira coisa que descobrimos é a importância dada às deusas no interior dessas sociedades. Essa cosmovisão foi posteriormente rejeitada pelo cristianismo, pois embora a figura de uma divindade feminina tenha sido preservada, ela perdeu sua condição de deusa para ocupar um lugar secundário como a mãe de Cristo. Hoje gostaria de refletir sobre as continuidades e rupturas do mito da divindade feminina na antiguidade clássica, abordando o caso da deusa grega Afrodite e sua equivalente romana, Vênus, através de uma série de “reimaginações” de textos clássicos. Embora ambas as tradições vissem essa divindade como a deusa do amor, cada uma deu a ela traços específicos que se escondem s...

Mário Cesariny: o último dos surrealistas

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Por Miguel Ángel Flores Mário Cesariny, 1963. Foto: Eduardo Gageiro   À pergunta de qual foi a figura mais excêntrica, a mais controversa, a mais incômoda da poesia portuguesa do século XX, sem dúvida a resposta será: Mário Cesariny. O poeta, na última fase de sua vida, suprimiu o sobrenome paterno. A ele se deve a fundação do primeiro grupo surrealista em seu país. Era um homem que gostava de causar escândalos, de reações inesperadas, pouco afeito às cortesias com o próximo e que rejeitava elogios com um gesto azedo. Construiu sua lenda e de agora o seu mito. Numa atmosfera de sacristia e pudor cristãos, mostrava sem hesitações as suas preferências sexuais, o que lhe valeu a hostilidade do mundo oficial e o assédio da polícia política, a PIDE, que não perdeu oportunidade de o assediar, chegando mesmo a enviar-lhe um ofício em que foi avisado que estava proibido de sair à rua por ser considerado sujeito de maus costumes. O poeta classificou esse documento como um ato surrealista. Q...

Jerzy Skolimowski e o calvário exemplar: crítica a “Eo”

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Por Jorge Ayla Blanco   Em Eo (Polônia-Itália, 2022) — intenso opus 18 do lendário polonês de 84 vigorosos anos Jerzy Skolimowski ( Barreira , 1966; Ato final , 1970; O grito , 1978), com roteiro dele e de Ewa Piaskowska —, o autoconsciente burro de circo Eo (interpretado por cinco quadrúpedes diferentes) recebe apenas carícias e beijos de sua devotada proprietária acrobata Kasandra (Sandra Drzymalska) quando é arrancado desses braços e presumivelmente libertado por ativistas contra a tortura de animais em espetáculos, mas se trata de um alarde hipócrita que deixa desamparado o choroso burrico, devolvido à condição de escravo predestinado como besta de carga, iniciando uma série de vicissitudes e deslocamentos forçados que condenam o infeliz Eo às mais sofridas ou exultantes aventuras efêmeras, sua amistosa conivência com o régio cavalo branco de um estábulo, fugas geográficas, seu esmagamento com paus mortais, sua triste reabilitação ou sua migração para a Itália, traçando um ca...

O verão de Rimbaud: a fuga frustrada para Paris em plena guerra franco-prussiana

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Por Jaime Cedillo   O verão de 1870 foi mais monótono do que nunca na cidade francesa de Charleville-Mézières. A família de Arthur Rimbaud havia planejado passar algumas semanas no campo, mas a Guerra Franco-Prussiana acabara de estourar. Quando Napoleão III esgotava as suas últimas horas à frente do Segundo Império e a Terceira República estava prestes a ser proclamada, a única coisa que, por vezes, livrava o juvenil poeta do tédio eram os passeios pelas paisagens das Ardenas, região montanhosa repleta de bosques e campos na fronteira com a Bélgica.   Gostava de se perder nas margens do rio Meuse e imaginar os versos que dariam forma aos seus primeiros poemas, que começavam a ser celebrados e reconhecidos na sua escola. Sylvain Tesson, vencedor do Prêmio Goncourt de ficção breve em 2009, reivindica a genialidade do enigmático poeta em Un été avec Rimbaud . 1 Além de consignar episódios cruciais de sua vida, ouvir sua personalidade conturbada, esclarecer o contexto em que so...