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Seis poemas/canções do Shi Jing, ou Livro das Odes¹

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Por Pedro Belo Clara (Seleção, versões e notas)*     O BARCO DE CIPRESTE ( Canções dos Estados — guó feng )   Feito de madeira de cipreste Flutua e segue à deriva E tal como esse barco Sigo arremessada, volteada Náufraga duma secreta angústia Imune até Aos relaxados encantos do vinho   Nem meu coração um espelho é Para afastar esta mágoa Nem em meus irmãos Mais novo e mais velho Posso pôr minha confiança Falando das minhas aflições Somente provoco a sua ira   Meu coração uma pedra não é Que se possa pôr de parte Meu coração um tapete não é Que se possa enrolar e guardar Exilo-me com dignidade e firmeza Não ofereço motivos de censura Ou culpa   De coração triste, dorida e pesarosa Assediada sou por homens triviais As preocupações e as mágoas que conheço são variadas Os insultos ainda maiores Na quietude da noite deito-me e vou cismando Despertando, ergo-me e em meu peito bato   Porque têm sempre o sol e a lua De se apagar e morrer? O lamento pega-se ao...

Boletim Letras 360º #575

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Virginia Woolf. Coleção Kirkpatrick, Universidade de St Andrews, St Andrews, Escócia. LANÇAMENTOS   Uma completa seleção de ensaios de Virginia Woolf feita e traduzida por Leonardo Fróes .   Umas das maiores ficcionistas do século XX, Virginia Woolf foi também ensaísta prolífica e inovadora, tendo escrito profissionalmente resenhas e artigos para periódicos, como o Times Literary Supplement , durante toda sua vida. Tal como na prosa de ficção, também nos ensaios ela ultrapassa os limites dos gêneros literários, propondo uma forma de pensar e de escrever mais aberta e menos categórica, que não se conformava aos padrões vigentes, de tradição fortemente masculina: “um livro de mulher não é escrito como seria se o autor fosse homem”. Os ensaios reunidos neste volume — com seleção, tradução, apresentação e notas de Leonardo Fróes — foram escritos entre 1905 a 1940 e cobrem os principais temas de sua vasta produção, com destaque para os ensaios literários e os biográficos, ambos maj...

A memória de Borges

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Por Alejandro Zambra Dois amigos incansáveis passam a última noite de 1970 traduzindo Shakespeare. Os amigos se chamam Borges e Bioy Casares. Não são exatamente mestre e discípulo, mas de alguma maneira o velho Borges inventou Bioy. Ou, melhor dizendo, é Bioy, com suma cortesia, que se deixou inventar, com a condição de manter alguns favoráveis sinais distintivos: ao lado de Borges será sempre jovem; ao lado de Borges será sempre longo, porque escreve romances, os romances que Borges aceitou não escrever para que Bioy os escrevesse.   Naquela noite, a de 31 de dezembro de 1970, após jantar peru com purê, os amigos incansáveis trancam-se a traduzir Shakespeare. “Com Borges dormimos um cadinho, versificando em espanhol as bruxas de Macbeth”, escreve Bioy em seu diário, e a imagem reaparece de forma invariável: em 10 de janeiro diz que trabalharam “cabeceando entre hendecassílabo e hendecassílabo”, e em 13, que traduziram “entre cabeceios”, e em 18 é Borges quem aceita que trabalhem ...

Alguém ainda quer levar o autor para a cama?

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Por João Victor Uzer Bertha Wegmann   Na aula de sociologia, a aluna discutindo O Espírito Protestante de Max Weber, chamou o autor pelo primeiro nome. A professora questionou: “Que intimidade é essa com o autor?”, ao que a aluna respondeu: “Somos íntimos sim, até levei ele para cama ontem à noite”. A aluna referia-se ao fato de ter passado a noite deitada em sua cama, com a luz de cabeceira acesa, estudando o livro. Essa é uma anedota boba, mas que, de forma humorada, mostra a relação entre livro e leitor.   O ato de ler é naturalizado pelo senso comum e é tomado como algo orgânico, mas as formas de ler, a relação entre leitor e livro modificou-se consideravelmente com o tempo. A começar pelo fato de que a leitura é adotada simplesmente como recreação, quando também se trata de um exercício físico e mental. Conforme argumenta o filósofo Antonio Gramsci: “Deve-se convencer muita gente de que o estudo é também um trabalho, e muito cansativo, com um tirocínio particular próprio...

Em “Dias perfeitos”, Wenders é mais Wenders que nunca

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Por Ernesto Diezmartínez Durante a primavera de 1983, o cineasta alemão Wim Wenders visitou o Japão para realizar um documentário sobre Tóquio, ou melhor, sobre uma Tóquio inexistente, aquela retratada no cinema de Yasujiro Ozu (1903-1963), “um paraíso que outrora foi realidade”, como o próprio Wenders disse numa entrevista recente. O documentário que se chamou Tokyo-Ga , foi filmado em 1983, mas editado até 1984 — Wenders dirigia sua obra-prima, Paris, Texas (1984) — e estreou finalmente em 1985 em Um Certo Olhar, mostra paralela à seleção oficial do Festival de Cannes.   Wenders e seu então jovem fotógrafo, o futuro três vezes indicado ao Oscar Edward Lachman, chegaram ao Japão no 20º aniversário da morte de Ozu e vagaram por Tóquio por várias semanas, capturando momentos, ações e cenários completamente aleatórios: os barulhentos e lotados salões de pachinko , um “estádio” tranquilo onde os japoneses praticavam suas tacadas de golfe, o cuidadoso processo de fabricação dos pratos...

Coelho maldito, de Bora Chung

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Por Sérgio Linard Bora Chung. Foto: Hye-young.   Talvez seja desnecessário reafirmar o fato de que grande parte do que se produz na literatura sul-coreana merece nossa detida atenção. Obviamente que como todos os materiais culturais que recebem farta ampliação de investimentos e de divulgações, a saturação, a produção de “enlatados” e a afirmação de ditames meramente declaratórios acabam sendo valas comuns em que os excessos acabam caindo. Este não é, sobremaneira, o caso de Coelho maldito . O livro de contos, publicado originalmente em 2017, chega ao Brasil trazendo, pela primeira vez, a autora para os leitores deste lado do Atlântico. Destaco, desde já, ser este um caso de leitura bastante recomendada, seja por sua qualidade de condução narrativa seja por sua abordagem de temáticas com primorosas ousadia e coragem já comuns — é verdade — em muitas produções literárias orientais.   Normalmente, a elaboração de contos exige, por parte do autor, um poder de concisão e de const...