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“Todos nós desconhecidos” acompanha o espectador ante o assédio da realidade

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Por Alonso Díaz de la Vega Duas reações imediatas a um certo tipo de cinema contemporâneo começam a se repetir. Eu gostaria de chamar esse fenômeno de síndrome Aftersun . Quando aquele longa-metragem, o primeiro de Charlotte Wells, foi lançado, os cinéfilos mais severos o odiaram, mas o público em geral o recebeu com imenso apreço. Para alguns, o filme representou uma forma de terapia; para os outros também. Ambos os lados focaram na representação, no tema do pai idealizado, e daí surgiu uma luta irreconciliável baseada na fobia ou na necessidade do cinema como cura.   Houve também uma terceira via: a de quem ficou desconcertado com uma estreia interessante mas que quis agradar a todos com base em emoções intensas, referências cultas e um estilo ambiguamente minimalista, ou seja, um pouco rígido, esparso, embora sempre dominado pelo velocidade e pela comoção. Confesso que comecei por aqui mas depois flertei com o lado radical. A cinefilia mais fanática, que muitas vezes me tenta, e...

Ca-ca-so

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Por Pedro Fernandes Cacaso. Foto: Alcyr Cavalcanti É conhecida a descrição de Cacaso oferecida por Roberto Schwarz que o designa como alguém de estampa rigorosamente 68: “cabeludo, óculos de John Lennon, sandálias, paletó vestido em cima da camisa de meia, sacola de couro. Na pessoa dele entretanto esses apetrechos da rebeldia vinham impregnados de outra conotação mais remota. Sendo um cavalheiro de masculinidade ostensiva, Cacaso usava a sandália com meia soquete branca, exatamente como era obrigatório no jardim de infância. A sua bolsa a tiracolo fazia pensar numa lancheira, o cabelo comprido lembrava a idade dos cachinhos, os óculos de vovó pareciam de brinquedo, e o paletó, que emprestava um decoro meio duvidoso ao conjunto, também.”   Esse retrato verbal é razoavelmente fácil de comprovar na era da imagem. Com ele, Roberto Schwarz quis destrinçar não apenas a figura de Cacaso mas certas linhas da sua poesia, algo entre a rebeldia comum aos jovens daquela geração reconhecida c...

Satisfazer, morrer: notas sobre Baudelaire e Pasolini

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Por Eduardo Galeno Jacques-André  Boiffard, Gros orteil, sujet masculine, 30 ans, 1929. Centre Pompidou. Quando Baudelaire pregou, no século XIX, pela manutenção da ambiguidade que impera no seu enquadramento poético; quando, por outro lado, no século seguinte, Pasolini encarna em Salò o le 120 giornate di Sodoma (1975) a substância característica e insistente nos afetos pós-industriais; ambos não fazem mais do que uma única e mesma coisa: o relato da dupla (in)consciência existente entre o frenesi da festa e o cálculo da morte.   ***   É o ano de 1857. As flores do mal é publicada pela primeira vez. Aos 36 anos, Baudelaire dá o primeiro grande passo para a constituição das poéticas modernas (ou modernistas). Destituído daquele complexo romântico da Alemanha – que, por lógica e definição, era uma espécie de querela ao constructo da nova Europa –, os tópicos baudelairianos insistiram em ver e em denotar, obsessivamente, a essência do Mal. Assim, essa poesia maldita incli...

As Evas e as Marias da Amazônia de Milton Hatoum em “Relato de um certo Oriente”

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Por Henrique Ruy S. Santos Milton Hatoum. Foto: Olga Vlahou   Milton Hatoum nasceu em 1952, na cidade de Manaus, Amazonas. É autor, até o momento, de seis romances, um livro de contos, várias traduções e produções de cunho acadêmico, oriundas de sua atuação como professor de literatura em universidades brasileiras e estrangeiras. Chama a atenção, em sua produção escrita, a afeição por questões relacionadas à sua ascendência libanesa. De fato, como o próprio escritor declara em entrevista, ele sempre esteve imerso em uma atmosfera culturalmente versátil, em que o português e o árabe disputavam o posto de língua materna:   “Antes de mais nada, a noção de pátria está relacionada com a língua e também com a infância. O que mais marca na vida de um escritor, talvez seja a paisagem da infância e a língua que ele fala. Eu me lembro - a propósito do dilema: falar árabe ou falar português — de que minha mãe dizia que eu deveria falar português, porque a língua é a pátria.”   Uma...

Boletim Letras 360º #577

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    DO EDITOR   Olá, leitores! Nesta semana vocês começaram a conhecer os novos autores que publicarão no Letras a partir desse ano; saíram os textos de estreia de Vinícius de Silva e Souza e de Guilherme de Paula Domingos. Estejam atentos que virão outros nomes na semana seguinte.   Os estreantes foram os selecionados na chamada divulgada no início de 2024. Mas, se você tem interesse em publicar seu texto no blog, sabia que isso pode acontecer sem que seja um colunista? Conheça os interesses editoriais desta página, como organizar e enviar o seu texto, por aqui .   Esta edição do Boletim Letras 360º é dedicada integralmente à literatura feita por mulheres e reflete a recente reabertura desse território artístico para elas. Que assim continue, porque muito ainda falta para se aterrar do grande fosso que divide homens e mulheres. Da parte deste projeto, é um pequeno gesto para o 8 de Março deste ano. Um excelente final de semana! Deborah Levy. Foto: Colin McPhe...

Dalton por Dalton

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Por Marcelo Jungle   Terminar a leitura da Antologia Pessoal (Record, 2023. 448 p.) de Dalton Trevisan inevitavelmente nos leva a pensar sobre como o curso da vida dos escritores segue a obra.   Como se sabe, mesmo que já se tenha lido uma história, uma nova compreensão sempre poderá existir quando a relemos. A coletânea em questão é “pessoal” como só poderia ser, pois os contos foram escolhidos pelo próprio autor e devemos agradecer por isso aos ventos da longevidade. Assim, esse novo passo se mostra entusiasmante por motivações específicas: a escolha e consequente importância para o próprio autor e a cronologia que nos proporciona uma visão de sua evolução criativa. Para além, portanto, da função introdutória das antologias, mesmo os leitores experientes em Dalton e suas conquistas terão aqui uma boa oportunidade de seguir os movimentos que foram marcando sua carreira. O que não é pouco, para quem detesta seguidores.   No prefácio/ ensaio de Augusto Massi, que leva o ...