As troianas, de Sêneca

Por Afonso Junior




Eurípides encenou As troianas (Troades) em 415 a. C. refletindo sobre acontecimentos da Guerra do Peloponeso (431-404 a.C.), em especial do massacre ateniense da rebelde ilha de Melos (416 a. C.): todos os homens foram mortos e todas as mulheres e crianças escravizadas. 

Na era neroniana, coberta de sangue, quatro séculos mais tarde, a guerra era o eixo fundamental da Roma Imperial (a conquista da Gália por César, por exemplo, sempre foi vista como um genocídio), e a escravidão seguia sendo um pilar do sistema; contra os maus tratos com os escravizados, Sêneca mesmo advogou em suas cartas (por exemplo, Epístolas 47 e 95). 

Neste tempo todo, outras obras sobre o tema da queda de Troia surgiram e com certeza moldaram o imaginário de Sêneca: a Andrómaca Cativa de Énio e Astíanax de Ácio, desaparecidas, além do impacto das obras de Virgílio e Ovídio. O resultado é uma sensibilidade propriamente romana, onde a dor se expressa fisicamente, a humilhação é exercida com violência e a crueza é servida sem véus. 

Tanto na peça de Eurípides quanto na de Sêneca, há um afastamento da unidade dramática tradicional e estão em jogo o futuro de dois jovens troianos: a filha da rainha destronada Hécuba, Políxena, e o pequeno Astíanax, filho de Andrômaca e Heitor, grande defensor de Troia. Mas, na primeira, temos protagonismo também de Cassandra, a profetiza de Apolo, e de Helena, a esposa raptada de Menelau, além da figura majestosa de Hécuba, que tudo perdeu. Esta referência direta à guerra, em Eurípides, ajuda a criar unidade, já que é a causa de toda a ruína. Apesar de tudo, prevalecem argumentos, como os de Hécuba, acusando Helena. 

Já a tragédia romana implode a unidade dramática tradicional. Na peça de Sêneca, dois blocos ficam muito evidentes: Os atos II e IV tratam de Políxena, que os gregos desejam sacrificar no túmulo de Aquiles; o ato III, trata de Andrômaca tentando proteger seu filho de Ulisses, que vem com a missão de levá-lo para ser atirado da única torre que restou em Troia. 

Chama a atenção a variedade de formas de expressão: Hécuba dialoga com o coro ao lamentar as mortes de Heitor e Príamo; duas lutas de argumentos entre Agamêmnon e Pirro e entre Ulisses a Andrômaca; longas descrições do mensageiro descrevendo as mortes dos príncipes. Como afirma Zélia Cardoso, Hécuba, por exemplo, demonstra seu caráter pelo seu discurso: “não apenas o que ela diz, mas como diz o que tem a dizer” (Sêneca, 2015 p. 114). 

Este tipo de ruptura deve ter influenciado Shakespeare e toda a estética dele derivada, porque supõe que o espectador consegue criar sua própria unidade a partir do múltiplo (enquanto Aristóteles via o muito mais coeso Édipo de Sófocles como exemplo). Se, no plano filosófico, uma ordem do cosmos é advogada, no mundo fenomênico onde imperam os vícios, o modo de vida do ferro impera: o caos parece expressar dúvidas sobre este animal perfeito, o universo. 

A peça de Eurípides, apesar da intensidade dos sentimentos, nos traz a ordem cósmica através da fala de Atena e Poseidon no seu início; eles revelam que os gregos serão punidos por seus crimes (também há um julgamento de Helena, em que esta parece convencer ao marido abandonado, mas que, de qualquer modo reforça o tema do julgamento). 

A peça de Sêneca, além de muito mais visual — todas as movimentações e cenários são trazidos na palavra, como ressalta Zélia Cardoso (2005) —, nos deixa perplexos com o absurdo dos sacrifícios humanos e os pontos de vista contraditórios. Apesar disso, temos comoventes falas, como a de Hécuba no começo da peça (v. 1-4): 

Todo aquele que confia no poder real e, poderoso, 
reina num grande palácio e não teme os deuses volúveis 
mas rende o espírito crédulo à prosperidade,
 me veja a mim e a ti, Tróia [...] 
(trad. Duarte). 

Além disso, existe um debate sobre que ideologia a peça coloca em cena: seriam os fantasmas existentes ou meros artifícios do poder e projeções do luto?; seria a morte uma libertação ou um nada completo? Também aqui parece haver um amontoado de percepções e discursos que competem, sem uma definição. Pelo menos, esta é a percepção primeira, ainda que Zélia Cardoso (2005) busque apontar uma coerência tanto na “aparição forjada” de Aquiles, quanto no oráculo que encobre crimes de guerra. Com certeza, o desejo perverso do poder é exposto e criticado pelos personagens. Mas o respeito de Andrômaca pelas cinzas do marido, por exemplo, que acaba condenando o filho, traz uma religiosidade profunda a este mundo de cinismo brutal. 

A posição de Sêneca quanto a morte não é clara: parece oscilar entre uma posição estoica (a alma dos bons pode viver até o fim do ciclo cósmico, seu retorno eterno) e uma mais epicurista, em que nada resta após a morte do corpo. De qualquer forma, pensar sobre a morte ajuda o filósofo a viver de forma correta: “Tu não podes escapar a estes males, mas podes aprender a desprezá-los” (Epístola 107). 

Seria um erro buscar rápido demais o conteúdo filosófico dos diálogos e cartas do autor na sua produção dramática; parece que, lidando com outra herança e utilizando outra linguagem, o assunto tradicional das peças toma a frente, ainda que alguns pontos possam ser relacionados ao estoicismo. Sua Medeia, por exemplo, parece acabar vitoriosa voando no seu carro divino — apesar da estranha fala de Jasão que encerra a peça: “[...] vai testemunhar, por onde passares, que não existem deuses” (v. 1027, trad. Sousa, 2013).

De todas as peças do autor, que sempre mostram seres sobre-humanos em sua ira ou paixão, As Troianas é a que mais angústia causa no leitor, me parece, porque vemos a vida de uma criança ser decidida. Por um momento, acreditamos que é possível a salvação. Se a vingança e o desejo, mesmo quando transbordam, nos parecem humanos (em personagens como Atreu e Fedra), o cálculo político destes homens vencedores — Agamêmnon, Rei de Micenas, comandante dos gregos; Pirro, filho de Aquiles; Calcas, o adivinho, e Ulisses, mestre das artimanhas — é monstruoso na sua frieza, nojento e paradoxal.  

O garoto amadurece rápido e salta voluntariamente para evitar dar aos inimigos o prazer de seu medo. Como afirma Ricardo Duarte no posfácio de sua tradução: “A torre de que salta [Astíanax] é a mesma em que no passado se sentava ao colo de Príamo [seu avô] a assistir aos combates vitoriosos do pai na planície em baixo (v. 1068-1074).” 

O corpo dos personagens é sempre enfatizado. Diz Andrômaca: 

É certo que morres pequeno, 
mas já és temível [...]
Porque te prendes às minhas vestes 
e apertas as mãos da tua mãe, defesa vã? 
(v. 790- 793, trad. Duarte). 

Pirro, insaciável, brutal e sanguinário, exigindo a morte da virgem, é a versão de seu pai Aquiles sem a cultura da canção deste — quem sabe um novo Heitor nasça. A princesa Políxena (aqui, sem falas) também enfrentou Pirro com um olhar feroz pensando que seu “casamento” com o fantasma de Aquiles é melhor que a vida das mulheres cativas, entregues aos seus senhores. Agamêmnon, sob a chuva de fogo de Pirro, desistiu de defender a justiça com medo de ter sua honra questionada. 

A guerra é suja e sangrenta. A versão de Sêneca comove e aterroriza. O topos dos derrotados da guerra é sempre comovente e trágico por excelência (e o da mulher, claro, que tende a ser vítima do rapto e do estupro); e relaciona-se com nosso mundo atual, de refugiados, trabalho escravo e imigrantes presos. Este universo macabro e tenso abre nossa percepção para o que os mitos heroicos escondem. 


______
As troianas em Tragédias: A loucura de Hércules; As troianas; As fenícias
Sêneca
Zélia de Almeida Cardoso (Trad.)
WMF Martins Fontes, 2015.


Referências:

Cardoso, Zélia de Almeida. Estudos sobre as tragédias de Sêneca. São Paulo: Alameda, 2005.
Sêneca. Medeia. Tradução do Latim, introdução e notas de Ana Alexandra Alves de Sousa. Coimbra: Imprensa da Universidade de Coimbra, 2011. 
Sêneca. Troianas. Tradução, posfácio e notas de Ricardo Duarte. Lisboa: Centro de Estudos Clássicos da Universidade de Lisboa, 2014. 
Sêneca. Tragédias. Tradução e introdução de Ricardo Duarte. Lisboa: Edições 70, 2021, vol. 1.
Sêneca. Tragédias. Tradução e introdução de Ricardo Duarte. Lisboa: Edições 70. 2022, vol. 2. 
Sêneca. Tragédias: A loucura de Hércules; As troianas; As fenícias. Tradução do Latim, introdução e notas de Zélia de Almeida Cardoso. São Paulo: WMF Martins Fontes, 2015. 



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