O bordel e a fazenda
Por Henrique Ruy S. Santos
![]() |
| José Donoso. Foto: Arquivo da revista Santiago (Reprodução) |
Partindo de uma leitura que força um pouco certas conexões literárias e extraliterárias, o título O lugar sem limites, do segundo romance do chileno José Donoso, poderia muito bem se referir à própria concepção do Boom latino-americano como fenômeno literário. Uma categoria que já nasce a partir de (e para servir a) interesses mercadológicos e que apenas subsidiariamente serve a fins literários, geralmente com imprecisões semânticas e de fronteiras mal delimitadas. Um roteiro pelo qual o viajante leitor transita sem saber se o próximo passo (a próxima obra) guarda algo de familiar com o passo que o precedeu e assim por diante. E é curioso pensar que o próprio Donoso teve um lugar periférico nesse processo, mas foi quem se dedicou a entendê-lo retrospectivamente e de maneira particular em seu Historia personal del Boom. Não pretendo, aqui, fazer uma radiografia daquele momento, nem mesmo entender o lugar do escritor chileno nele, mas a leitura deste seu romance inevitavelmente levanta essas questões.
Agora indo adiante sem forçar a barra, o lugar sem limites do título é El Olivo, vila do interior chileno (mas que poderia ser de qualquer país da América Latina, guardadas as devidas particularidades) onde se passa esta obra do escritor. O lugarejo é um pedaço de terra subjugado aos mandos e desmandos de Alejo Cruz, senador, fazendeiro, e dono de quase tudo que se vê por aquelas bandas. Don Alejo é esculpido por Donoso como um patriarca que mascara seus interesses políticos e financeiros com uma benevolência que transita entre o interesse sincero e o populismo forjado. Por trás da proteção e do auxílio que presta às trabalhadoras do bordel local, manifesta-se o interesse típico dos donos de terras. Por outro lado, por trás da animosidade para com Pancho Vega, trabalhador e arruaceiro-mor da vila, vislumbra-se algo de uma preocupação paternal. Na composição do personagem, há algo do Pedro Páramo de Juan Rulfo, mas mais do Artemio Cruz de Carlos Fuentes (por sinal dono da casa onde Donoso passou três meses escrevendo este romance), principalmente no aspecto trágico de seu arrivismo, no fracasso de seus projetos.
O interesse de Donoso pelas formas de vida e organização social possíveis de surgir em um contexto de quase anomia, no qual o único liame dos indivíduos com instituições se dá (se é que se dá) pelos caprichos e interesses de um mandatário local, esse interesse específico é o do romancista, do fabulador, isto é, do olhar mais voltado para dramas humanos e menos para explicações sociológicas totalizantes. A configuração espacial da narrativa e, mais especificamente, a atenção que a obra dedica a cada espaço e seus ocupantes dão uma boa medida da empreitada romanesca de Donoso. El Olivo é, acima de tudo, uma fazenda e um bordel: a fazenda de Don Alejo e o bordel de Manuela, duas das principais personagens do livro. É nesses dois espaços que o romance se concentra, sendo o bordel o lugar onde se passa boa parte da ação, e a fazenda o lugar que exerce uma presença muito mais sentida do que verdadeiramente mostrada na obra.
Um dos pontos altos do livro — e um traço estrutural da obra — é a forma como Donoso de certa forma brinca com os preconceitos do leitor ao embaralhar ou inverter determinadas expectativas. De maneira que, se o deputado Don Alejo e sua fazenda são, respectivamente, os centros humano e geográfico de onde irradiam o poder e o domínio sobre El Olivo, é ao bordel e suas trabalhadoras que a narrativa dedica um olhar mais atento. Esse mundo não desconhece aquele velho movimento que transita entre a ordem e a desordem, entretanto, como toda obra bem elaborada, há sempre um embaralhamento dessas noções e uma ambiguidade que subverte pré-concepcões. O puteiro do romance, afinal, é o mundo do trabalho ordenado, no qual cada mulher e menina exerce suas funções conforme lhas delega Manuela, mulher trans que toma conta do lugar. O caos, a desordem e a libertinagem são introduzidos ali como elementos alheios com uma marcação de gênero nitidamente masculina. É Pancho Vega quem introjeta, como elemento externo, a arruaça e, acima de tudo, a violência no universo ordenado das mulheres.

A fazenda de Don Alejo, por outro lado, é o lugar do domínio material sobre a vida, lugar onde se concentram dinheiro e posses, mas onde o trabalho não se concretiza, apenas se comanda. Num mundo no qual não há limites nem fronteiras definidas, o domínio e a opressão não têm sede fixa, mas incidem sobre todos os espaços. Nessa lógica do embaralhamento, o velho problema do patrimonialismo, muitas vezes afobadamente apontado como a causa de todos os males nos países dependentes, é explorado literariamente por Donoso como um mal que aprisiona desejos e sonhos de figuras oprimidas em jaulas arquitetadas por ganâncias e cobiças alheias. Japonesita, filha da primeira dona do bordel de El Olivo, caracterizada como uma menina perspicaz, engenhosa e cheia de projetos, sonha com o dia em que a eletricidade chegará ao povoado. O objeto no qual concentra suas expectativas para o futuro é um toca-discos elétrico Wurlitzer. Sua sorte, entretanto, depende, como a de todos, dos caprichos e da capacidade de articulação política de Don Alejo, que destroça os sonhos da moça ao informar-lhe do fracasso do projeto.
“Quando por fim abriu a porta e o ar entrou com a baforada de estrelas e voltou a fechá-la, a Wurlitzer se estilhaçou atrás dos olhos apertados da Japonesita. Ela e a vila inteira ficaram nas trevas. O que importava que tudo viesse abaixo, dava no mesmo, contanto que ela não precisasse se mover nem se mudar. Não. Ficaria aqui rodeada por essa escuridão onde nada que não fosse uma morte imperceptível pudesse acontecer, rodeada das coisas de sempre. A eletricidade e a Wurlitzer não passaram de miragens que, durante um momento, por sorte muito curto, a induziram a acreditar que outra coisa era possível. Agora não. Não restava nenhuma esperança que pudesse doer nela, eliminando também o medo. Tudo iria continuar assim como agora, como antes, como sempre. Voltou para a mesa e se sentou na cadeira aquecida pela manta de don Alejo. Inclinou-se sobre o braseiro.” (p. 57)
Se os sonhos e os projetos pessoais são arregimentados à lógica do dinheiro e do jogo político de influências, o que sobra para personagens como Pancho Vega é o extravasamento via violência. Anima Pancho a ânsia do homem impotente em uma realidade de desvalidos, na qual ele próprio é só mais um miserável. A objetificação de Manuela, a sede de possuir seu corpo até torná-la coisa é uma forma de tentar conquistar para si seu quinhão de poder e domínio, ao mesmo tempo que é uma forma de se vingar do mundo.
“Pancho, de repente, ficou calado olhando para a Manuela. Para isso que dança ali no centro, enrugado, enlouquecido, com a respiração arrítmica, todo côncavos, ocos, sombras alquebradas, isso que vai morrer apesar das exclamações que lança, isso incrivelmente asqueroso e que incrivelmente é festa: isso está dançando para ele, ele sabe que deseja tocá-lo e acariciá-lo, deseja que essas contorções não se deem só ali no centro, mas contra sua pele, e Pancho se deixa olhar e acariciar de longe... o velho maricas que dança para ele e ele se deixa dançar e que já não ri, pois é como se ele, também, ansiasse. Que Octavio não saiba. Não perceba. Que ninguém perceba. Que não o vejam desejando ser tocado e atingido pelas contorções e pelas mãos histéricas da Manuela que não o tocam, desejando sim, mas daqui da cadeira onde sentado ninguém vê o que acontece com ele embaixo da mesa, mas que não pode ser, não pode ser e toma uma mão adormecida da Lucy e a põe ali, onde arde.” (p. 121)
Na construção dos dramas. Donoso nunca perde de vista as diversas implicações atreladas aos marcadores sociais de gênero de suas personagens sem, entretanto, soar panfletário ou didático, como muita da literatura contemporânea que se propõe a tratar de temáticas similares. Escrevendo em 1966, talvez Donoso não estivesse de todo alheio (pelo contrário) ao que as feministas da chamada Segunda Onda já vinham dizendo desde pelo menos o início da década por meio de slogans como “o pessoal é político”. Todavia não deixa de ser surpreendente a sensibilidade do escritor chileno, que não cede ao sentimentalismo barato nem ao maniqueísmo que muitas vezes afeta literaturas engajadas.
O lugar sem limites é um romance que lança luz sobre mazelas que nos são muito familiares, seja enquanto brasileiros, seja enquanto indivíduos na periferia do capitalismo. Mas também é um romance que lança um facho de luz pelo caminho que a prosa latino-americana veio a seguir posteriormente. Talvez sua herdeira contemporânea mais direta seja a mexicana Fernanda Melchor com seu Temporada de furacões (que tive oportunidade de resenhar neste blog), que incorpora as lições do precursor enxertando sua dose particular de experimentalismo. Ecos indiretos se sentem em nossos best-sellers Torto arado e Tudo é rio, que bebem muito mais em outras fontes, mas que, ainda assim, guardam certo parentesco distante. Seja pelo aproveitamento literário de temáticas “engajadas”, seja pela condução narrativa de excelência, com este pequeno romance da década de 1960 (e outras de suas obras), Donoso pode não ter sido ponta de lança do Boom, mas deu todas as coordenadas possíveis para a literatura do continente.
Ligações a esta post:
______
O lugar sem limites
José Donoso
Mundaréu, 2025
136 p.

Comentários