Meu passado nazista, de André de Leones
Por Henrique Ruy S. Santos
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| André de Leones. Foto: Roseli Vaz |
Há um ditado que faz parte do vocabulário político, principalmente, de usuários da internet, que diz algo mais ou menos assim: “se um nazista se senta à mesa com 10 pessoas e ninguém se levanta, então há 11 nazistas”. Trata-se de um pensamento que coloca em questão conceitos como o de tolerância ou, indo além, a própria possibilidade de cumplicidade com aquilo que muitos esperam que seja considerado intolerável.
André de Leones, em Meu passado nazista, parece partir dessa reflexão, mas o faz invertendo os polos: o que acontece quando 10 nazistas se sentam à mesa e a 11ª pessoa não levanta? Ou, pensando em termos de Brasil: o que fazer de um país que foi tomado de assalto pelo fascismo em anos recentes e no qual todos nós, invariavelmente, sentamos à mesa com fascistas, às vezes dentro de casa?
O protagonista de Leones neste romance é Leandro Helfferich, professor e escritor que durante boa parte do livro mora na pequena cidade de Silvânia, estado de Goiás, com a tia e o avô. A particularidade desse arranjo familiar é que Konrad Helfferich, o avô de Leandro, é um ex-oficial orgulhoso da SS, o esquadrão nazista. Leandro é ainda melhor amigo de Cristian, cujo pai é uma influente personalidade local que, Leandro recorda, costumava fazer a saudação nazista do topo da escada de sua casa quando os amigos ainda eram crianças. Fechando a trinca de personagens principais, Leonora é a namorada de Cristian e personagem cujo caso de adultério provoca eventos quase catastróficos no enredo.
Mas esse resumo é apenas a ponta do iceberg de um romance que abarca cerca de três décadas, circula por várias localidades do Brasil e lida não só com a questão do passado nazista do protagonista, mas também com a filosofia heideggeriana, a poesia de Ezra Pound e até o estilo de jogo de Maradona. E daí emerge um traço fundamental de composição deste livro, que é uma espécie de gozo com e pela literatura e que se manifesta por meio de uma ansiedade da escrita. Mas não se trata de uma ansiedade que quer chegar logo ao fim do relato. Pelo contrário, trata-se de uma inquietação que, por não querer deixar nada de fora, tem dificuldades até mesmo para começar a dizer o que quer dizer.
“Meu avô foi um nazista e eu arrebentei a cabeça dele a marteladas, sic semper nazis, mas não é disso que quero falar agora. Não. Ainda não. Pois há muito mais sobre o que falar, coisas importantes e desimportantes, desimportantes em sua maioria (aviso desde já), coisas por mim vivenciadas, testemunhadas, especuladas, imaginadas, reimaginadas, tudo misturado e amontoado, e a minha única preocupação é chegar inteiro à última palavra da última frase deste que (obviamente) é o registro derradeiro ou, no momento (não sejamos (muito) dramáticos), o único registro possível. Ou seja: também penso no final, é importante pensar no final, vislumbrar o ponto de chegada ou, na pior das hipóteses, fingir que sei para onde estou indo. Bom, ao menos sei onde estou agora (sempre um bom começo) (onde estou?) (não importa), e não é que eu queira descrever ou delinear um círculo, não, não se trata (exatamente) disso (um círculo), mas, sim, de um esforço de espiralamento, sendo o aqui e o agora apenas pontos (sempre fugidios) (as paredes atravessáveis do quarto) de referência, um lugar (onde?) (não importa) e um momento (o ‘presente’) aos quais volver para retomar o fôlego entre um passeio e outro, entre uma espiralada e outra, se e quando possível e/ou factível, mas — e quanto a isto? E quanto a este início? ‘Os inícios são sempre irreconhecíveis’, versejou Montale.” (p. 9)
Tudo isso é premeditado, é claro. O poeta José Paulo Paes, ao comentar o Tristram Shandy, romance clássico do século XVIII escrito por Laurence Sterne, mencionava um certo “horror à linha reta” e um “amor ao labirinto” que marcava o estilo do livro. No caso deste romance de Leones, esse “horror” ao relato retilíneo é estimulado pelo que Leandro, assumindo as vezes de narrador, chama de “ânsia de fabulação”. Essa ânsia, além de suplantar a possibilidade de um registro fiel aos fatos (tendo em mente, é claro, o universo ficcional), leva a esse estilo “travado”, circunloquial, cheio de parênteses e repetições.
Mas leva também a uma manifestação composicional do que é o principal mote do livro e que diz respeito a esse sentimento difuso de culpa ou dívida com um passado sombrio (para usar um eufemismo) com o qual é preciso lidar e que é preciso entender e combater, ainda que no plano da fabulação ou mesmo da especulação filosófica. Na maioria das vezes, entretanto, a postura combativa cede à paranoia estéril. O mote sic semper nazis repetido por Leandro em sua fantasia parricida direcionada ao avô nazista é esse escape pela via da fabulação.
“Nazistas. Nazistas em Goiás. Nazistas em toda parte. Nazistas na escola, nazistas na fila do banco, nazistas sentados às mesas dos botecos, nazistas no puteiro, comendo as putas (que também são nazistas) (nem todas, pelo amor de). Nazistas engolindo hóstias. Nazistas querendo matar as namoradas (nazistas) e os fodedores (nazistas) das namoradas (nazistas). (Eleonora não é nazista.) Meu avô: nazista. Margarete e Magda? Nazistonas. Carol: nazistinha. Beth: gaúcha nazista. Diógenes? Não saberia dizer, mas (aposto) nazista. Nazistas brotando do chão. Agricultores nazistas, freiras nazistas, padres nazistas. A soja daqui é nazista. Plantio, colheita: práticas nazistas. Tratores nazistas. Agrimensores nazistas. Veterinários nazistas. Peões nazistas. Pastores e fiéis: nazistas. Kardecistas nazistas (kardezistas). Pombos nazistas nos telhados, arrulhando nazismos e transmitindo doenças nazistas.” (p. 45)
Se você é brasileiro e, na sua ficha criminal, não tem registrado o delito de ter acampado na frente de um quartel do Exército, isto é, se você não tem, entre suas práticas de cunho místico ou religioso, o hábito de se ajoelhar e pedir a vinda de melhores tempos a pneus, isto é, se você tem o mínimo bom-senso, é difícil ler esse surto paranoico do narrador e não enxergar a si mesmo em algum momento dos últimos 10 anos.
A inquietude da escrita e a aparente errância temática se direcionam a esse sentimento de cerco e de enraizamento do mal na própria formação da sociedade. “Literatura é teratologia”, disse Cărtărescu, máxima que Leones usa como epígrafe. As longas digressões acerca da filosofia heideggeriana e da poesia de Ezra Pound (“É, eu não posso ver um velho fascista”, diz Leandro) e até mesmo as inserções, na narrativa principal, de contos escritos pelo personagem principal formam uma miscelânea que é ao mesmo tempo representação de uma mente inquieta e diagnóstico de um país ou mesmo de uma época.
Entre essas inserções narrativas, três se destacam. O conto “KONZENTRATIONSLAGER” narra os episódios crescentemente grotescos que envolvem um grupo de ricaços que paga pela experiência de um parque temático nazista que reproduz, com atores contratados e estrutura realista, a rotina de campos de concentração no qual os pagantes da “atração” podem incorporar os papéis de oficiais da Schutzstaffel. A narrativa vai alcançando níveis cada vez maiores de degradação, e só não é apropriado dizer que as coisas saem do controle porque Leones entende que qualquer simulacro fascistoide (a estetização da política transformada em espetáculo) já é, de partida, uma experiência abjeta e condenável.
A segunda narrativa inserida no escopo maior da obra é o que Leandro chama de um “troço narrado pelo cu de uma bolsominion que fez aquela tal de ozonioterapia retal”. A terceira, um conto narrado pelas vozes na cabeça de Adélio Bispo, responsável pelo atentado a faca contra Jair Bolsonaro em 2018. Leones mantém o exímio talento que possui para o esdrúxulo e não tem medo do exagero nem da extravagância. O escritor goiano é, nesse sentido, uma espécie de anti-Graciliano Ramos. Enquanto o autor de Vidas secas e S. Bernardo prezava o corte seco e as construções frasais mínimas, com Leones a impressão que se tem é que seu processo é o do acúmulo, em que não há ideia descartável. É literatura que não tem medo de dizer demais.
O resultado é um jorro, uma jactância verbal despudorada, um gêiser discursivo libertino que mói, mastiga e incorpora referências para construir um painel caótico que não pode ser outra coisa senão boa literatura.
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Meu passado nazista
André de Leones
André de Leones
Record, 2025
364 p.
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