Guerra civil e revolução no cinema de Ken Loach

Por Michel Goulart da Silva




No dia 17 de julho de 1936, ocorreu o levante militar liderado pelo General Francisco Franco, dando início à Guerra Civil na Espanha. Esse processo teve no filme Terra e liberdade (1995), premiados em Cannes, uma de suas melhores interpretações produzidas para o cinema. O diretor Ken Loach se baseou principalmente em relatos de pessoas que viveram o processo, como o escritor britânico George Orwell, em sua Homenagem à Catalunha

Loach produziu, assim, uma obra épica emocionante, fazendo um debate entre tática e estratégia na luta política que se mostra relevante ainda na atualidade. O filme mostra desde a empolgação de vitórias em batalhas contra o franquismo até a tristeza de ver as traições das direções e a morte de numerosos combatentes da Revolução Espanhola.

O centro da história narrada no filme é David Carr, membro do partido comunista inglês, que, ao se voluntariar para lutar na guerra civil, acaba sendo integrado a uma milícia comandada pelo POUM, partido que manteve diálogo com a corrente trotskista. Esse fato coloca uma série de problemas para David, tanto políticos como pessoais. No âmbito da disputa política, o stalinismo pretendia acalmar os ânimos das massas em nome das relações diplomáticas que Moscou procurava estabelecer com governos da Europa. No processo revolucionário espanhol, defendia como estratégia a construção de um Estado a ser governado junto a setores republicanos da burguesia. O governo da frente popular é o principal exemplo de concretização dessa estratégia.

Os personagens do filme são colocados diante de dilemas pessoais e políticos. Exemplo disso é um dos personagens que, tendo deixado seu país e família para lutar pela revolução, tem a notícia de que sua esposa o está traindo. O próprio protagonista se vê diante do dilema de continuar a acreditar nas notícias falsas divulgadas pelo stalinismo ou encarar a luta na mesma trincheira da mulher com quem desenvolve um relacionamento em meio à guerra. Coloca-se uma contradição em suas vidas, de se devem se prender ao passado ou buscar construir um futuro novo. 

Ken Loach, refletindo sobre o conjunto de sua cinematografia, afirma que “os personagens que tentamos retratar são cheios de contradições, fracassos e defeitos. É a fragilidade da humanidade que é dramática, não a perfeição estereotipada” (p. 12).

Em Terra e liberdade descreve-se como os dirigentes dos partidos que intervinham no processo revolucionários enfraqueceram o que de mais dinâmico havia na revolução: a auto-organização dos trabalhadores. Essa era a força do processo, dentro das milícias, dos sindicatos e das demais organizações de trabalhadores. Os operários e os camponeses lutavam porque estavam ganhos para um projeto revolucionário, defendendo a coletivização das terras e o poder das suas organizações, como se procura mostrar no filme. Lutavam por sua vida e por seu futuro.

Quando o governo de frente popular assumiu as rédeas do processo, procurando controlar os embriões de organismo de duplo poder, toda a dinâmica da revolução se perdeu na governabilidade das instituições e na diplomacia de Estado. No filme, isso é mostrado em uma das sequências finais, com o desmantelamento da milícia em que atua Carr e que havia conquistado tantas vitórias para a revolução. 

Esse processo de burocratização transformou a revolução em um evento vazio de seu mais profundo conteúdo político, devendo seu desenlace responder às vontades de um pequeno grupo formado pelos socialistas, pelos stalinistas do Partido Comunista e pelos setores republicanos da burguesia, que tinham mais interesse em conquistar prestígio pessoal do que dirigir um processo de transformação social real da sociedade. Ken Loach afirmou que “o livro de Orwell e o filme que fizemos não combinam com os social-democratas, que atacaram a esquerda revolucionária, e certamente não combinam com os stalinistas, porque eles também atacaram a esquerda e assassinaram seus líderes” (p. 93).

O filme explicita os sentimentos e os conflitos que fizeram parte dos soldados da guerra civil. Esses combatentes são pessoas que não apenas lutam por um objetivo político, mas que também se envolvem emotivamente com aquele processo ou mesmo com as pessoas com quem compartilham a trincheira. O senso de coletividade não se limite ao âmbito da política, mas também atravessa a esfera da subjetividade. Eles são movidos pela vontade e pelo sentimento de ver um mundo melhor.

Terra e liberdade mostra como perdeu-se uma revolução, destruída em pouco tempo pelo fascismo, acabando com o pouco que havia restado de liberdade e, de certa forma, com o sonho pelo qual lutaram os valorosos combatentes daquela geração de revolucionários.


Referências

LOACH, Ken. Desafiar el relato de los poderosos. Buenos Aires: Paidós, 2014.


* Michel Goulart da Silva é doutor em história pela Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC) e técnico-administrativo no Instituto Federal Catarinense (IFC).

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