Luigi Pirandello e o papel ontológico do artista

Por Juliano Pedro Siqueira 


A vida, ou se vive ou se escreve.

— Luigi Pirandello


Luigi Pirandello. Foto: Bettmann




A novela A tragédia de um personagem (1911) é um protótipo do que viria a ser o “teatro no teatro” ou metateatro. Segundo Carpeaux, Pirandello opta pelo estilo diferente da encenação convencional, focando no caráter ficcional das personagens, na imaginação e na ironia amarga. A sua abordagem assenta-se em dois terrenos paradoxais, sendo a tensão permanente entre a realidade e a ilusão. Personagens que de forma imagética exercem autonomia nas ações desenvolvidas na construção narrativa.

Certa feita, o autor afirmou ter um velho hábito — para não dizer estranho e incomum — de estabelecer audiências com personagens candidatas a participarem das suas futuras obras. A maioria apresentam as suas razões de defesa, mostrando-se as suas reais pretensões e resistências. Nos primeiros parágrafos da Tragédia de um personagem, nota-se que o autor encontra dificuldades em penetrar em camadas mais profundas da personalidade dos concorrentes. O que nos permite pensar que Pirandello coloca em confronto o artista com a sua própria arte. 

Até que ponto um artista detém a verdade absoluta sobre a sua própria criação? As personagens reivindicam autonomia moral, explicando que não são meros figurantes, inertes e reféns apenas da criatividade do autor. Antes, apresentam-se como criaturas livres, críticas, sentimentais e, não porque, dotadas de ambiguidades; em que vícios e virtudes transitam na mesma trama: seja de forma sublime ou trágica.

Muito similar aos questionamentos suscitados por Hermann Broch em A morte de Virgílio; em meio a sua frustrante  tentativa de exilar, o autor problematiza a relação tênue entre o artista e a sua arte. Representado pelo poeta latino Virgílio, que sucumbindo à enfermidade deseja destruir a sua obra maior (Eneida). Os romanos não seriam dignos da sua grandeza ou o autor vivia uma intensa insatisfação com a sua própria construção artística? De certo modo, Pirandello está tomado pelas mesmas inquietações que assombraram Broch, porém, no autor italiano se mesclam entre humor negro e a ironia, questionando até que ponto existe a superioridade artística em relação à própria arte.

Luigi Pirandello estabelece uma crítica textual ambiciosa, trabalhando o problema da criatividade artística no âmbito ontológico. Nas suas tramas, independente do desfecho que terão, o autor italiano molda suas personagens numa dimensão eterna. Elas entram e saem de uma obra à outra, de um autor a outro; sempre transitando em múltiplas encenações, permitindo-nas uma essencialidade perene.

Essa relação se estreita ainda mais quando o autor das audiências depara-se com o Dr. Fileno. Uma personagem intrusa, que após ser lançada fora de uma obra inacabada, reivindica as suas qualidades e virtudes, exigindo participar numa obra à sua altura. Após expor suas habilidades e métodos filosóficos sofisticados, o autor das entrevistas também a rejeita. O intrigante desta personagem excêntrica é justamente os argumentos que ela utiliza para reforçar seu caráter essencial e perene. Dr. Fileno julga-se superior, pois, acima dos mortais que nascem do ventre de uma mulher, a personagem — por conta da sua vocação para o eterno — pode, inclusive, zombar da morte. São imortais! Até o escritor, que nada mais é que um instrumento natural da criação, há de perecer; menos a personagem e sua grandeza sublime.

A imortalidade ora defendida pelo Dr. Fileno está associada a atemporalidade em que ela consegue desempenhar dentro de uma obra. E quando este nível de maturação ocorre, a quem devemos o seu triunfo? A vivacidade da personagem, que devido a sua profundidade e complexidade existencial, consegue atravessar a própria competência do autor, que ao contrário dele, está submetido as limitações impostas pelo tempo. Mas se por um lado a personagem ganha o status eterno pela capacidade ilimitada de atuação, então qual seria a relevância do autor que deu vida e acabamento às suas criaturas?

Seria contraditório pensarmos em Raskólnikov sem Dostoiévski; em Eugène de Rastignac sem Balzac ou Sancho Panza sem Cervantes. Se tais criaturas transcenderam camadas temporais, ganhando vida não apenas na literatura, mas adaptações para o cinema, o teatro e documentários, não pode ser apenas obra individual e isolada da personagem. O autor, senhor da sua arte, também deve gozar da mesma perenidade e estatura eterna. Autor e suas personagens estão intimamente indissociáveis, e mesmo que se tente eliminar um em detrimento do outro, seria um esforço vão.

Imagina se Max Brod tivesse queimado os manuscritos de Kafka? Muitas das suas personagens teriam virado cinzas; sua vida seria extinta ainda em forma de papel. Virgílio morreu! Mas sua Eneida entrou para a eternidade junto ao seu nome. E graças a essa relação mútua, ambos puderam contemplar gerações e mais gerações de mortais ao longo da história. A interpretação que proponho de Pirandello, é que o autor estabelece um exercício dialético para revelar a relação ontológica do autor e a sua personagem; do criador e sua criatura. E que ambos estão fadados ao mesmo destino: eterno ou efêmero. Um não sobrevive sem o outro! Não existe glória individual. A cumplicidade e a existência tanto do autor e sua personagem se estabelecerão num elo profundo.

Ao final da novela, visando valer-se do autor apenas para ocupar as páginas de uma grande obra, o egocêntrico Dr. Fileno é por última vez confrontado pelo autor. Após manter a sua decisão em recusá-lo na sua próxima obra, o autor recomenda à personagem que ela utilize as habilidades que tanto se vangloriava para dar um outro sentido à sua existência. Porque, definitivamente, na visão do autor, não pode existir glória solitária.


Referências:

PIRANDELLO, Luigi. 40 novelas de Luigi Pirandello. Tradução de Maurício Santana Dias. São Paulo: Companhia das Letras, 2007.
CARPEAUX, Otto Maria. História da Literatura Ocidental. 3 ed. Brasília: Editora do Senado Federal, 2019,  vol IV.



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