Onde a palavra erra: leitura do “Livro de erros”, de Maria Lúcia Dal Farra
Por Eliane Santa Brígida
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| Maria Lúcia Dal Farra. Foto: Portal da UFS |
“A marca suja da vida”¹, não o arrumado, o produzido, filtrado, o milimetricamente, racionalmente editado, manipulado, mas o que escapa. E escapa porque é potente em si e está alheio ao controle, é vivo, extrapola. E por escapar ao pretenso controle o chamamos erro, não reconhecendo que essa força, que resiste aos nossos cálculos, é a própria vida pulsando para além do humano, e dando a este a sua medida, confrontando-o com sua falência, e convocando-lhe a um novo pensar; renovando, no próprio humano, a sua capacidade inventiva, sua potência vital. O erro é motor de mudança, é potencial inventivo, convoca a uma nova perspectiva, nos impulsiona, quando nos tira do lugar confortável — como a poesia de Maria Lúcia Dal Farra².
A poetisa inicia seu Livro de erros erigindo um pórtico, onde se coloca avisando aos seus leitores: o que o espera do outro lado é essa poesia maldita, desinquietante, que cai sobre o leitor não com a benção de um banho de luz ou com a delicadeza do “orvalho”, mas como “uma chuva de agulhas”. Uma poesia destinada a um leitor que anseia pelo trabalho de recriação — aos outros leitores há muitas outras “escolhas disponíveis”, gentilmente enumeradas pela poetisa, que se posta à entrada do livro também convidando os que desejam o jogo de leitura e ação, os que anseiam pela leitura que os tire do lugar estabelecido e os faça pensar. A estes, Dal Farra oferta poemas em reconhecimento ao pulsar da vida que não se deixa domar ou enquadrar, e eclode em novos caminhos, visões renovadas, surpresas, desilusões.
A exemplo dessa proposta de leitura ativa, Livro de erros começa com poemas ecfrásticos, descrevendo, apreciando, lendo, obras de artes diversas. Vejamos um deles:
JARDINS DA UNIVERSIDADE DE COIMBRA
(Leitura da tela de Achille-Émile O. Friesz — 1879/1949)
Vista das ramagens coloniais que quase a encobrem
(de África ou de América)
Aparenta ser ela um convento esparramado
com uma torre quase a meio.
Podia ser um asilo
podia ser um retiro.
Suas altas janelas se fecham ou se abrem (para o tempo)
num relevo formalizado em equilíbrio que (entretanto)
desenha picos.
O jardim é (a sua maneira)
A topografia natural dos prédios espalhados —
ao mesmo tempo
que os contém.
Há um pequeno caminho que se curva
diante do enigma que virá.
Pois que (embora passeassem de mãos das
à sombra desses salgueiros)
Inês e Pedro não mais se escondem sorrateiros.
São agora o marco da fundação
Desse saber ancestral sobre
o Amor —
que (aliás)
mais fácil
se aprende
sob os choupais de Coimbra. (Dal Farra, 2024, p. 20)
O convite à ação está mais que declarado. O poema é uma “leitura da tela de Achille-Émile O. Friesz” e lá vai o leitor que queria talvez apenas deitar-se em uma rede a ler, abalar-se em busca da dita tela com o risco de perder-se no caminho. A visão da tela não é necessária à apreciação do poema, pode-se imaginar, a partir da leitura, as ramagens vindas de África ou América, talvez se saiba como se parece um convento ou um asilo, tudo o que precisamos ver está presente no poema, mas existe uma provocação ao declarar-se que os versos emanam da leitura de uma tela específica.

A partir disso, o eu lírico observa a composição entre a natureza trazida de fora pela violência colonial, deliberadamente evocada, quase a esconder os prédios símbolo do saber de Portugal, como que questionando que saber é esse que aniquila o seu outro em África e América? O jardim, composto por essas naturezas exógenas, é visto no poema como um lugar em que há um (des)equilíbrio tenso, que expõe seus desníveis e imprecisões, ressaltada pela linguagem da incerteza: “quase a encobrem”, “quase à meio”, “Podia ser um asilo”, “podia ser um retiro”, um “equilíbrio que (entretanto) desenha picos”.
Apesar do poema versar sobre uma visão da Universidade — um símbolo de saber racional, obtido por meio de método, que busca certezas, propagando o contrário da prática de um convento, procura a verdade do homem não pela fé, mas através da comprovação científica — essa universidade, no entanto, encontra-se quase encoberta por um jardim.
Um jardim, embora seja natureza, é natureza desterrada, a qual procura-se controlar, sendo essas características próprias do que é efetivamente um jardim: um exemplo de elementos da natureza retirados de seus locais originais e orquestrados artificialmente pelo homem. Assim, um jardim articula duas forças, a do saber humano, e a da natureza por ele manipulado. Porém, sendo artifício humano, logo é passível de falhas, e esse jardim do poema (da tela?) parece não ser contido e ameaça encobrir o símbolo da razão: suas ramagens quase encobrem as altas janelas, quase cerram o símbolo dos olhos que eventualmente são abertos ou fechados sobre o tempo. A imprecisão da jardinagem a revelar o homem, alheio ao que não pode controlar, erigindo monumentos à sua sabedoria.
Natureza e artifício ao mesmo tempo, o jardim circunda, quase a esconder, uma universidade fundada em uma cidade onde já havia florescido um amor que por ardis humanos foi soterrado, e, apesar disso, floresceu em tema cultural eternamente relembrado. Em sua leitura, o eu lírico segue o pequeno caminho o que leva à figura de um casal que passeia à sombra da vegetação, e vislumbra Pedro e Inês que não mais se escondem, e são reconhecidos como fundadores de um saber, no espaço dedicado aos saberes humanos, não um saber novo mais um saber ancestral, um saber dos antecessores: o Amor. Será esse o enigma? Que justo nos jardins da Universidade de Coimbra, o amor seja aprendido com mais facilidade que em outras paragens? Que uma paixão capaz de desafiar as regras sociais inspire a cultura humana a voltar-se à indagação do desconhecido e à vontade de saber?
Portanto, “Jardins da Universidade de Coimbra” é um exemplo dos diversos poemas desta obra de Dal Farra que leem obras de arte e também vidas que se destacam o que socialmente se considera erros; nesse caso, personagens que pareciam ao léu, vivendo errantes, mas que se mostraram guiadas pela latência da própria vida, que tem potencial de revelar-se em arte. Vidas que irradiavam luz, como descreve o poema dedicado ao artista errante e perseguido Pier Paolo Pasolini; e liberdade, nos versos a seguir, dedicados a Florbela Espanca, que, como os que têm “alma: sente e ama!”³, e, portanto, não pôde ser contida pelos grilhões dos que não suportam o livre arbítrio do errante em comunhão com o ser selvagem, seguindo “insolente”, desrespeitoso, sem medo, por caminhos escuros, correndo “sem claustros, sem átrios, sem compromissos tácitos”:
VERSOS LIVRES PARA FLORBELA
Num jardim de convento
Um mastim rima
(célere, ameaçador)
cativo do verso que (invisível)
o faz avançar
(possesso)
sobre nossa saudosa Sóror.
Mas o animal desatrela-se
(como ela)
das tiranas regras
e toma um curso obscuro:
corre desatado sobre a estéril neve
sem claustros, sem átrios, sem compromissos tácitos —
ele mesmo mestre da sua própria sina.
É meio-dia agora
e o cão definitivo
(insolente)
desvia-se (como Bela)
— por livre arbítrio —
da autoridade eclesiástica constituída.
Desse modo, o leitor de Livro de erros irá mergulhar em um manancial de referências. O livro conversa, sem cerimônia, com poetas, pintores e músicos, e, no entanto, não se constrange de chamar para seus versos, as baratas, que o eu lírico desaprendeu a desamar e passou a degustar com Clarice; ou a Morte, a quem objeta, conscientemente, ajuda, decretando: “Quero errar à vontade” como um “cometa em rota de atrito”.
Trata-se de poesia que desensina, onde a palavra erra: dos poetas ao leito de morte da mãe, passando pela beleza translúcida das compotas da vida íntima. Ode à liberdade de viver, observando que as linhas da vida são desiguais. Exibe a vida mundana, onde mesmo os santos padres, exemplos de retidão (?), seguindo as pegadas do Cristo no deserto, nelas mesmas tropeçam e caem dunas abaixo. Vida, cujo palco é “improvisado”, como é um museu para deslocadas relíquias antigas; que, no entanto, permite e convida à atualização de novas leituras e novos significados.
Ao mesmo tempo em que conjura aos astros que encandeie para sempre a nossa vista do entendimento do que é poesia, declarando-se consciente da ação do leitor, a poeta também anseia pelo não planejado, a ser desperto pela leitura de seus versos. Que novos significados os leitores encontrarão? Dal Farra lega sua palavra, mascada, sangrada, “(vazia e aliciante)”, para que tu, leitor, “possas inflar nela a tua invenção”.
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Livro de erros
Maria Lúcia Dal Farra
Iluminuras, 2024
148 p.
Notas:
1 Fragmento do poema “Nova poética”, de Manuel Bandeira, dá abertura ao Pórtico do Livro de Erros de Dal Farra.
2 Maria Lúcia Dal Farra é paulista de Botucatu, patrona de cadeira na Academia Botucatuense de Letras, vive no Nordeste há mais de trinta anos. É uma das maiores especialistas e críticas literárias na obra da poetisa portuguesa Florbela Espanca. Coordenou o Dicionário de Florbela Espanca e publicou diversos livros e ensaios fundamentais sobre o erotismo e o feminino na obra da autora. É mestre e doutora pela USP, livre-docente pela Unicamp e titular pela UFS. Também Lecionou em Berkeley (Califórnia, USA) e fez parte da equipe pioneira de Antonio Candido que fundou o Instituto de Estudos da Linguagem e o Depto. de Teoria Literária da Unicamp. Poetisa, crítica literária, ganhadora do 54º Prêmio Jabuti.
3 Verso do pema “O que alguém disse”, do Livro de Sóror Saudade.


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