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Mostrando postagens com o rótulo Cervantes

Uma feminazi no Quixote

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Por Yolanda Gándara  Gustave Doré. Ilustração para Dom Quixote . Cervantes apresenta em Dom Quixote um papel feminino muito diferente dos estereótipos até então dominantes na literatura; primeiro, pelo evidente confronto entre realidade e idealismo que permeia toda a obra e seus personagens, cujo paradigma feminino é Dulcinéia; segundo, porque, embora nem todos os seus personagens femininos sejam transgressores, eles ganham voz própria, em alguns casos por meio de um discurso verdadeiramente subversivo para a época — e até mesmo para o nosso tempo — como no caso da pastora Marcela. A história da “diabólica Marcela” é contada nos capítulos XII, XIII e XIV da primeira parte do livro. Nessa história, intercalada como uma novela pastoril, Cervantes nos apresenta uma donzela belíssima que vive em liberdade, cercada por pretendentes ávidos, e que defende seus princípios e objetivos sem precisar de proteção ou qualquer outro favor de qualquer homem. Começamos por ser apresentados a versã...

Interpretando Dom Quixote

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Por Juan Montes Quixote leitor de novelas de cavalaria. Juan Salvador Carmona, José del Castilho. Biblioteca Nacional da Espanha. Quando o fidalgo que passa a se chamar Dom Quixote de La Mancha deixa sua aldeia em busca de aventuras, fama e glória, transformado em um cavaleiro andante, ele se encontra clinicamente louco ou se trata de uma alma livre, um rebelde radical que busca abandonar sua existência monótona e cinzenta para viver outra vida, uma vida fictícia melhor, mais emocionante, completa e feliz do que a vida real?   Uma leitura cuidadosa do Dom Quixote sugere que a segunda possibilidade tem mais um toque de verdade do que a primeira.   Cervantes repetidamente chama Dom Quixote de louco e declara reiteradas vezes seu desejo de enterrar de uma vez por todas o crédito e a fama dos livros de cavalaria com as disparatadas histórias de seu cavaleiro. Mas as entrelinhas deixam dúvidas sobre as verdadeiras intenções do novelista, esse grande comediante e bufão que zombava d...

Três maneiras de ler o Quixote

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Por Daniel Gascón Dom Quixote visita uma gráfica em Barcelona. Desenho de Luis Paret y Alcázar.    É possível que uma das condenações dos clássicos seja que nunca os deixamos descansar, até porque também não nos deixam descansar: um clássico é, como dizia Italo Calvino, um livro que nunca se termina de ler, e um livro que sempre nos diz coisas sobre o presente. A segunda parte de Dom Quixote , a que faz da obra o primeiro e inesgotável romance moderno, cumpre essa condição mais claramente do que outros livros. A lista poderia ser muito mais extensa; mencionarei apenas três exemplos.   No capítulo LIII, após sua experiência como governador da Ilha Barataria, Sancho Pança conhece Ricote, um mouro natural de sua aldeia. Um édito de setembro de 1609 havia decretado a expulsão dos mouros, completando a sinistra tarefa que os Reis Católicos haviam iniciado ao expulsar os judeus em 1492. Ricote, disfarçado, vai com alguns peregrinos alemães e quer recuperar o dinheiro que...

Cervantes ou da sabedoria¹

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Por Ramón Xirau ² Dom Quixote. Ilustração de Júlio Pomar.   Quando, poucos dias antes de sua morte, Cervantes dedica Los trabajos de Persiles y Sigismunda a don Pedro Fernández de Castro, escreve: “Ontem me deram a Extrema-unção, e hoje escrevo esta. O tempo é curto, a ânsia cresce, as esperanças minguam, e com tudo isso, levo a vida a partir do desejo que tenho de viver, e [não] gostaria de pôr-lhe fim até beijar os pés de vossa Excelência [...]. Mas se está decretado que tenho de perdê-la, cumpra-se a vontade dos céus, e ao menos saiba vossa Excelência deste meu desejo.” No prólogo ao Persiles , Cervantes conta, com humor melancólico e anuência resignada, como ia cavalgando lentamente em seu rocim “passolargo”. Encontra-se com um estudante que, ao reconhecê-lo, enche-o de elogios. Responde Cervantes: “Este é um erro que cometeram muitos aficionados ignorantes. Eu, senhor, sou Cervantes, mas não o júbilo das musas, nem nenhuma das demais patetices que disseste. Vossa mercê recobr...

Reimaginando Dom Quixote

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Dom Quixote em penitência. Ilustração de William T. Wiley. São raros os livros que alcançam o lugar de merecerem a atenção para projetos editoriais de valor inestimável. Dom Quixote , de Miguel de Cervantes, é um desses. Recentemente, a tradução em língua inglesa de Edith Grossman alcançou destaque no seleto catálogo da Arion Press — casa que publica três ou quatro livros por ano sempre em tiragem limitada e combinando textos clássicos com artistas contemporâneas.   A editora foi criada em 1974 e até agora publicou quase noventa livros, incluindo trabalhos de artistas como John Baldessari, Jasper Johns, Alex Katz, Robert Motherwell e Kiki Smith. A nova edição da obra mais importante da língua espanhola que levou mais de dois anos para sua composição é integralmente ilustrada por William T. Wiley. Como outros projetos do tipo, é de tirar o fôlego de qualquer um leitor apaixonado por livros. Edith Grossman é uma das mais reconhecidas tradutoras de obras da literatura de língua ...

Cervantes e a violência de gênero

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Por Geney Betrán Ilustração de Vânia Mignone.   O estuprador conta a história: “subi sem esbarrar ninguém até o próprio aposento onde ela estava dormindo a sesta sobre um estrado negro. Era formosa ao extremo, e o silêncio, a solidão, a ocasião despertaram em mim um desejo mais atrevido que honesto, e sem pensar com sensatez fechei a porta às minhas costas, e me aproximando dela, acordei-a, e segurando-a firmemente [...] eu a possuí contra sua vontade e à força, pura e simplesmente.”¹ A mulher engravidou. Para esconder seu estado, deixou sua terra em direção ao sul, como uma peregrina. Deu à luz uma menina numa pousada em Toledo. Deixou a criança nas mãos de seus anfitriões, prometendo buscá-la depois de dois anos. Mas nunca o fez; a morte a impediu. Quinze anos, um mês e quatro dias se passaram. O nome da garota é Costanza. Aos 15 anos ela é a mulher mais bonita de acordo com quantos homens a viram. De nenhum, entretanto, ela aceita seus requebros de amor. “É dura como um mármore ...

Outra mulher na vida de Cervantes

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Por Jesús Ruiz Mantilla Ilustração de Vania Mignone para Novelas exemplares  de Cervantes (Cosac Naify, 2015) No interminável jogo de disfarces e miragens que é a vida de Miguel de Cervantes, Andaluzia aparece como um poço onde há muito o que escavar. Foi na prisão de Sevilha onde ficou por alguns meses por um excesso de confiança num usurário que começou a imaginar o Quixote . Parou pelo sul quando decidiu deixar sua família em Esquivias, município na província de Toledo, para buscar a vida numa metrópole mais excitante que aquele povoado rural, onde chegou em busca de dinheiro e mais alegria. Foi um mago das letras, mas também dos números. É o que aponta Jordi Gracia na mais sólida biografia aparecida entre as novas incursões sobre a vida de Cervantes. As duas aptidões eram seu prazer, sua realização e sua sobrevivência. Foi comissário e arrecadador real no interior da Espanha. E o que encontrava nas diferentes viagens ao longo de toda Andaluzia servia de in...

Inconformismo quixotesco

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Por Rafael Kafka Dom Quixote. Julio Pomar. O que há de cômico em Dom Quixote há de absurdo na existência: ela não se basta e não nos basta. Por isso, precisamos dar arte, da literatura mais especificamente, que por fazer da linguagem arte, da nossa fiel companheira até em momentos mais banais de nosso viver um objeto de prazer, torna-se um panorama favorável de sensações transcendentais. Dom Quixote é o típico sujeito que literalmente fica doido de tanto de ler. Mas Cervantes em seu romance – vamos chamá-lo assim – não defende a não leitura, como dia mais se faz hoje em dia. Pelo contrário: em um mundo onde cada vez mais a arbitrariedade do discurso se evidenciava, como bem mostrou Foucault em seu breve comentário sobre a personagem quixotesca – o autor desenvolveu uma personagem que procura romper a ordem das coisas, sublimando a existência em algo grandioso e perfeito. Podemos dizer que em Dom Quixote vemos uma atitude similar à um de cinzento Antoine Roquentin: a ná...

Como eram Cervantes e Shakespeare

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Por Antonio Espinoza Miguel de Cervantes visto no falso retrato de Juan de Járuigui. Como eram fisicamente os dois grandes gênios da literatura universal Miguel de Cervantes Saavedra e William Shakespeare? É tanta a abundância de retratos de um e outro que há quatro séculos da morte de ambas as personagens deveríamos saber com plena certeza como eram em vida. Mas não é bem assim: suas fisionomias continuam um mistério. A única coisa certa mesmo é um testemunho pontual deixado por Cervantes sobre sua aparência física, enquanto o quadro que supostamente expressaria em detalhes a dita aparência e que supostamente haveria sido executado em vida do escritor, é falso. Pior ainda, os muitos quadros realizados depois de sua morte, além de serem obras muito medíocres, oferecem imagens tão dispares e tão forçadas de Cervantes que dificilmente podemos escolher alguma como a mais próxima da realidade. No caso de Shakespeare, não é diferente, pois vários dos retratos do dramaturgo...