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A leitura como bem social e como amplitude de olhar

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  Por Rafael Kafka Em dezembro, comecei a escrever um ensaio que será publicado em breve sobre o poeta beat Allen Ginsberg. Para tanto, tive de ler um pouco sobre a geração beatnik norte-americana e ler os poemas de Ginsberg que há tempos eu tentava e não conseguia ler. Quando li On The Road em 2008, achei esse livro de escrita fácil, porém intensa, um livro interessante para fazer uma pessoa gostar de leitura pelo conteúdo repleto de viagens geográficas e existenciais e um vocabulário bastante acessível. Não é de surpreender então a dificuldade que tive ao pegar Uivo e outros poemas de Ginsberg e me deparar com um nível de escrita bem profundo, difícil e complexo. Tanto que tive de reiniciar o livro umas três vezes nos últimos anos para poder finalmente concluí-lo para a elaboração do citado ensaio. Após concluir a leitura dos poemas, passei a ler sobre a vida de Ginsberg e dos outros grandes poetas beats. O comportamento deles é bem interessante e me lembra, mes...

Ódio, amizade, namoro, amor, casamento, de Alice Munro

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Por Pedro Fernandes Este livro foi publicado no Brasil em 2003 e foi o primeiro título da escritora canadense a chegar por aqui. Deve, na época, assim como outros livros que vieram depois, ter passado despercebido pela grande maioria da crítica e em parte dos leitores comuns. Dez anos depois, o contexto de reedição dessa antologia de textos é diferente: Alice Munro foi premiada com o mais alto galardão que pode receber um escritor, o Prêmio Nobel de Literatura, sendo a primeira escritora exclusivamente de narrativas curtas a receber a honraria. E numa situação inusitada, diga-se: poucos meses antes do anúncio, ela própria havia dito que declinava da longa carreira de manipulação com as letras. Se o Prêmio irá colocar novas centelhas a ponto de se renovar a imaginação e o interesse pela escrita não sabemos; se não, é preciso dizer que há muito que se ler para ter uma visão mais ou menos acabada sobre obra e a escritora que tem um domínio sobre a objetividade linguística e...

Os caminhos de Isaías ou três voltas sobre o mesmo parafuso (Parte I)

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Por Alfredo Monte            Bem aventurados os tempos que podem ler no céu estrelado o mapa dos caminhos que lhes estão abertos e que têm de seguir! George Lukács, A teoria do romance Antes de entrar, olhei ainda o céu muito negro, muito estrelado, esquecido de que a nossa humanidade já não sabe ler nos astros os destinos e os acontecimentos.   Lima Barreto, Recordações do escrivão Isaías Caminha Preâmbulo No sexto capítulo de Recordações do escrivão Isaías Caminha , o narrador interrompe o fio da sua história passada para comentar sua situação no presente da narrativa e refletir sobre o livro que escreve e que o incomoda. No final do capítulo anterior explodira sua revolta pelas decepções sucessivas no Rio de Janeiro, a última das quais foi ser apontado como suspeito de um roubo ocorrido no hotel onde se hospedara. Defendendo-se na entrevista com o delegado, Isaías, mulato, alegara ser estudante e aquele expressara, então, sua des...

Para Donizete Galvão

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Por Pedro Fernandes Eu sempre me pergunto, sem nenhum senso de eternidade, para onde vão todas as palavras que trocamos nessa esfera virtual depois que daqui formos embora. Será possível que, séculos depois, ainda encontrarão vestígio nosso na web ? E as correspondências, ora extensas ora rápidas, que trocamos via e-mail, Facebook e outros meios, como ficarão? Sucumbirão ao fosso do esquecimento porque essas correspondências são lacradas com códigos que só nós sabemos para acessá-los? Não serão feitas, então, mais edições com trocas de correspondências? Nem, se especulará sobre os contatos feitos em vida com outros distantes de nós? Enfim, seremos apenas casca de bytes do que está explicito e nada mais? Numa busca sem muita insistência catei um e-mail que escrevi no dia 11 de julho de 2012, cf. aparece datado, enviado as 15h30 convidando o poeta Donizete Galvão a redigir um ensaio sobre a obra poética de Dora Ferreira da Silva, o nome homenageado pelo caderno-revista 7face...

A Papoila e o Monge, de José Tolentino Mendonça (Parte III)

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Por  Pedro Belo Clara Nesta terceira e última parte do artigo de análise à obra em questão, elaborar-se-á a abordagem aos remanescentes volumes que a compõem. Embora estes ocupem quatro distintos lugares num total de seis possíveis, a sua aparentemente simples elaboração e o reduzido número de haikus que os perfazem permitem um visionar dos mesmos de forma mais directa, eficaz e concisa. O primeiro do grupo, terceiro no total dos volumes, ostenta a epígrafe “Guia para perder-se nos montes”. Composto por dezassete haikus , encerra um conjunto de reflexões (carácter, como o leitor se recorda, transversal aos anteriores capítulos da obra) e de retractos capazes de imortalizar momentos dignos de memória, embora sejam detentores de uma beleza que nem sempre aparenta ser conseguida na sua total plenitude. Contudo, que o leitor não cometa o mais comum dos erros ao abordar este volume em particular: uma interpretação desviada. Pois o título do mesmo sugere algo completamente d...

Quatro tópicos sobre a relação entre Stefan Zweig e Joseph Roth

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Stefan Zweig e Joseph Roth 1. Súditos do império perdido. Nascido no seio de uma família judaica, Zweig foi um apaixonado exemplar pela grande cultura e pela liberdade. A amizade com Joseph Roth começou em 1930 em Brody (Galícia); este era um jornalista que forjava, na ocasião, uma carreira de escritor. Mais que as letras, os que os uniu foi a admiração mútua e a nostalgia do Império Austro-húngaro, símbolo para ambos da Europa multicultural e unida, a pátria de pensamento e sentimento. A Primeira Guerra Mundial os fizeram despertar daquele sonho de paz e equilíbrio; o terror nazista contra os judeus os levaram para o exílio. 2. Autores geniais. Zweig e Roth foram criadores extraordinários. Do primeiro são célebres suas coleções psicológicas e as novelas – Novela de xadrez ou Coração impaciente , por exemplo. Do segundo destacam-se Jó – romance de um homem simples (Companhia das Letras) Marcha de Radetzky (recém editado no Brasil pela Editora Mundaréu). Zweig foi um mes...