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Os trabalhos e os dias na poesia de Donizete Galvão

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Por Alfredo Monte “De fato a linhagem agora é de ferro:  nunca, de dia, se livrarão da fadiga e da agonia, nem à noite, extenuando-se: os deuses darão duros tormentos. Todavia, para eles aos males juntar-se-ão benesses...” (Hesíodo, Trabalhos e Dias, versos 176-9, trad. Christian Werner) “Poderia ser este o lugar. Este o tempo de repouso. Mas a roda dentada nunca para...” (Donizete Galvão) Entre os trinta e seis poemas reunidos em Ofícios do tempo (ed. Positivo), dois podem ser considerados nucleares, inclusive por sua concisão e perfeição: “Memória do paraíso / não tenho não. / Lembro-me da dor. / Da vergonha. / Do desgosto. / Da gota de suor/ pingando do rosto.” (“depois da queda”); “Nu / bailo / numa / navalha // Sem / nada / que me valha / só / me prende / um fio / de esperança” (“equilíbrio”). Ao destacá-los, corre-se o risco de sublinhar o lado mais abstrato, mais “condição humana”, relegando a segundo plano uma das linhas de força da p...

Monteiro Lobato e o racismo

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Por Cesar Kiraly Antes de tudo, penso que devo dizer que o contextualismo é sempre bastante falso. A regra de sua prática é a relativização. Ou, o que é bastante pior, o exercício do amálgama. Talvez pior do que o contextualismo seja o relativismo, mas o quadro se torna ainda mais apavorante quando os dois estão juntos. Mas por quê? Porque a união do contextualismo com o relativismo dá início à prática pública da falsificação de objetos verdadeiros. Modo pelo qual os valores parecem verdade, mas duram muito pouco. São valores bem mais baratos, quando comparados com os verdadeiros, exigem muito menos, e fornecem, no que concerne a vida coletiva, muito, mas muito menos ainda. Mas se digo isso, devo ter alguma intenção. Sim, afirmar que um enunciado moral é falso independentemente do contexto ou da relatividade. E, da mesma forma, que um enunciado moral é verdadeiro, sob os mesmos rigores. Por certo, que existem fenômenos mais confusos, da mesma forma, como existem modos da f...

Serpentina, de Mário Zambujal

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Por Pedro Belo Clara Temos hoje diante do olhar o derradeiro trabalho de uma das figuras mais multifacetadas, bem dispostas e queridas do público português: Mário Zambujal. Lançado no passado mês de Outubro, trata-se de um produto fiel a tudo quanto o autor cultiva em suas produções. Dir-se-á, portanto, que este novo prolongamento do  percurso literário dobrou, com efectivo sucesso, mais uma esquina do sinuoso caminho de expressão artística, trilho esse que ostenta, como bem se entende, uma índole evolutiva. Não será possível falar de Mário Zambujal sem nos referirmos ao grande êxito de estreia, Crónica dos Bons Malandros , o tal trabalho que só se completou, conforme a confissão do autor, quando “mudou” a sua família de casa e promoveu uma garrafa de whisky ao estatuto de “fiel conselheira”, granjeando assim a quietude e a concentração necessárias ao cumprimento de tamanha tarefa. O esforço foi sobejamente compensado, sabe-mo-lo hoje, pois mais de trinta anos volvi...

Boletim Letras 360º #99

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José Saramago pelas lentes de Daniel Mordzinski. A fotografia integra exposição no Brasil. Mais informações sobre ao longo deste boletim.  Editamos algumas postagens em nossa página no Facebook para dizer do nosso retorno. Aqui, reproduzimos, não ipsis literis , mas a mensagem principal delas.   Enfim (ou será já?) 2015! E renovamos aqui nosso propósito com este espaço virtual: congregar leitores e amantes da leitura em torno de temas da literatura e das artes. O que fato somos é um blog sobre literatura, artes e comportamento. Desde já agradecemos a todos que nos acompanham. E nos esforçaremos para trazer conteúdo de qualidade e interesse dos amigos.  Mas, que nos aguarda em 2015? Bem, para a ocasião temos três anúncios, dois deles revelados nas nossas redes sociais: (1) no Instagram do blog @Letrasinverso iremos tentar cumprir com a meta de um livro por dia. Calma, é só a foto de um livro por dia! Iniciaremos na segunda-feira e durante as primeiras semanas...

O clã Honório Cota na obra de Autran Dourado: “Ópera dos mortos”, “Lucas Procópio”, “Um cavalheiro de antigamente”

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Por Alfredo Monte Percurso pela obra Ópera dos mortos   Ópera dos mortos foi o livro com o qual Autran Dourado (1926-2012) consolidou seu universo peculiar de ficção, Duas Pontes (cidade imaginária do sul de Minas, quase na divisa com São Paulo).¹ Esse romance de 1967 alterna duas técnicas narrativas principais: um tom “coral” (um recurso de que Autran será useiro e vezeiro nas obras posteriores), um narrador que absorve o ponto de vista da cidade, muito presente nos dois capítulos iniciais, no capítulo do meio (o 5º) e no capítulo final, que começa de forma típica: “De repente a gente voltava ao sobrado. Atravessamos finalmente a ponte, o sobrado abria as portas para nós”; a alternância de discursos indiretos livres (aquele em que o narrador em terceira pessoa se funde de tal forma ao ponto de vista da personagem que não se sabe o que é de um ou de outro, e que sem chegar ao fluxo contínuo que é o stream of consciousness (imitação do processo associativo que é o nosso pensamento...

A visita

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por Rodrigo Della Santina Rumores puseram-se joelhos no chão e, palmas no asfalto, gatinharam até mim. Não dei de início muito ouvido — achei que seria mais uma história sem graça. No fim das contas não foi. Não foi também assustadora. (Inquietante talvez?), (anímica?). Deixe pra lá. O leitor que lhe dê um molde. Aconteceu no ano de mil novecentos e sessenta e seis, eu acho. Max Brod (aquele) se sentava em sua cama preparando a hora do sono. Tinha posto as costas no travesseiro e O Processo nas pernas, derramadas de comprido sobre o lençol. Lia mais uma vez o décimo capítulo, as últimas páginas, quando a luz do quarto piscou. Não se deu conta desse indício primário da ciência do sobrenatural; virou mais uma página e torceu o pescoço para a esquerda. A luz agora desceu suas pálpebras até o meio e tornou a abri-las rapidamente. Max notou seu cansaço, sua luta com algo que a forçava a arriar-se. Ficou alguns segundos em silêncio, olhando para o teto, para a lâmpada, e voltou...