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Submissão, de Michel Houellebecq

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Por Carlos Zanón No início parece as trombetas de Jericó. Mas no final são só violinos desafinados tocando ao pé do ouvido. Discussão midiática, livro, entrevista, tocata e fuga: um bom suflê . Para alguns, ao ponto. Para outros, demasiadamente amargo. Banal, polêmico, fútil, lúcido ou valente. E de uma forma ou de outra  todos falam e muitos compram. Descobrem que dentro do suflê há um livro e dentro do livro um autor com mais ingredientes de escritor do que aparenta. Houellebecq é como escreve. Você ama ou odeia. Sem seu talento, faro e essa artesanal e personalíssima maneira de urdir sua mecânica intelectual de tese, ficção, autobiografia, piada, sexo mecanizado, suicídio roudinesco e niilismo hedonista, Houellebecq não haveria aguentado nem o primeiro round do combate. Mas segue. Marcando o passo. Gerando debate porque, na sua maneira de expor o feio e não ceder à tentação literária de criar beleza do lixo, nos enfrenta com algo mais doloroso que a nossa p...

Boletim Letras 360º #114

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A semana finda com os leitores escrevendo para nos dizer que já receberam os livros que foram sorteados durante o Mês da Poesia (oito no total) enquanto realizamos mais um sorteio (um Kit “Dois irmãos”, a HQ e o romance) que já foi despachado e abrimos a participação em outra atividade do tipo; para marcar os 20 anos da publicação de Ensaio sobre a cegueira vamos sortear um leitor que ganhará também um Kit (o romance e o filme). Enfim, seguimos mobilizando pessoas em torno da leitura e do livro. Nessa movimentação toda restou espaço para divulgar uma série de notícias interessantes sobre o universo literário que você confere logo abaixo: Segunda-feira, 20/04 >>> Brasil: Novo título de Italo Calvino Os leitores do escritor já acompanham há algum tempo o tratamento que a Companhia das Letras dedica à sua obra. Nos últimos anos nos aproximamos de títulos como Coleção de areia , Eremita em Paris , Fábulas italianas , Palomar , Todas as cosmicômicas . E agora Mu...

O perigo das ideias prontas

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Por Rafael Kafka  Um dia, eu estava em um ônibus voltando para casa conversando com uma colega de trabalho. Não lembro ao certo o tema de nosso embate de ideias, mas lembro que girava em torno do comportamento de homens e mulheres, um tópico bastante comum para eu me meter em pequenas querelas.  Em dado momento, a pessoa se vira para mim e diz que não respeito sua opinião. Respondo em defesa que apenas ouvi sua visão e a questionei com a minha, ao que ela retruca que isso é justamente não respeitar a visão do outro! A cena em si parece banal, mas se repete bastante em minha vida. É muito comum eu ouvir pessoas dizerem que eu quero ser, sozinho, o dono da verdade; que eu quero questionar tudo e por qualquer motivo quero entrar em um debate filosófico. O que talvez seja verdade. Mas sinceramente, não vejo grande problema nisso. Claro que nem sempre estamos dispostos a discutir temas banais de forma profunda, contudo a resposta de que o outro não respeita nosso pon...

Cervantes e Shakespeare não morreram num mesmo dia

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O Dia Internacional do Livro é comemorado no dia 23 de abril porque nesse dia, em 1616, morreram os dois maiores escritores da literatura universal: Miguel de Cervantes e William Shakespeare. Mas essa coincidência é tão errônea como a maioria das teorias sobre os paralelismos entre as suas vidas e obras. Muitos especialistas ao longo da história têm comparado e encontrado semelhanças entre Dom Quixote e Hamlet ou  Rei Lear , entre Sancho e Falstaff, na duvidosa mescla de gêneros que os dois gênios se utilizaram ou simplesmente em sua contemporaneidade de vida e de morte. Mas, na verdade, as semelhanças entre eles são escassas. Muito escassas. O erro mais difundido é, certamente, o da data de morte dos dois autores. Toda a web  está repleta dele, de ponta a ponta. E, claro, a própria razão para a data celebrada no dia 23 de abril reforça o tom verídico da mentira. Sempre foi sustentado que os dois morreram num 23 de abril, em 1616, mas, nem um nem outro morr...

A caixa, uma poética da vida e da obra de Günter Grass

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Por Alfredo Monte Em 1998, maravilhado com a riqueza mirabolante da narrativa de Um campo vasto (1995), como acontecera tantas vezes na leitura do  recém-falecido Günter Grass ( O tambor , 1959; Anos de cão , 1963; O linguado , 1977; A ratazana , 1986), eu terminava uma  resenha, para a “A Tribuna” de Santos, afirmando peremptoriamente: «justiça seja feita e que Grass seja o próximo Nobel»; desejo pessoal metamorfoseado em vaticínio: no ano seguinte, ele foi anunciado como vencedor do prêmio, devido à «enorme tarefa de rever a história contemporânea lembrando os despojados e esquecidos, as vítimas e os perdedores, e as mentiras que as pessoas querem esquecer porque um dia acreditaram nelas». Na década seguinte, Nas peles da cebola (2006) representou uma reviravolta na reputação do escritor alemão. Ali se revelava alguém que, afinal (tardiamente, decerto), não queria se esquecer da mentira em que um dia acreditara: quando jovem, pertencera aos quadros da h...

O bicho de Franz Kafka

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Em 22 de novembro de 1912 Max Brod, o amigo íntimo que desobedeceu a ordem de Franz Kafka de queimar todos os seus manuscritos quando morresse, escreveu a Felice Bauer, a noiva do escritor. Tentou explicar que o autor passava por uma má época e que seus pais não eram conscientes de que para um ser excepcional “são necessárias condições igualmente excepcionais para que sua delicada espiritualidade não se apague”. Esse ser excepcional, frágil, tremendamente nervoso, básica e fundamentalmente obcecado pela escrita redigiu entre 17 de novembro e 7 de dezembro de 1912 uma das obras-mestras da literatura de todos os tempos. Publicou anos depois, em 1915. Assim, o ano corrente assinala a passagem de um século de vida daquela singular história que se inicia quando o caixeiro viajante Gregor Samsa, “depois de despertar de um sonho intranquilo”, descobriu que havia se transformado “num monstruoso bicho”.  A Companhia das Letras, que edita há alguns a obra no Brasil, aprovei...