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Notas sobre o filme Que horas ela volta? de Anna Muylaert

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Por Rafael Kafka Nas obras de Clarice Lispector, a criança assume um papel muitas vezes demoníaco. Ofélia de A legião estrangeira e Sofia de Desastres de Sofia são os exemplos mais claros que me veem à mente agora: elas surgem como elementos perturbadores, como seres que veem além das aparências, do tacitamente aceito como absoluto. As crianças com seu olhar ingênuo, não preso ao convencional, acabam tendo consciência de frinchas, de brechas na existência cotidiana dos adultos, os quais desarmados diante dessa invasão se sentem nus, envergonhados. É um olhar desse tipo que iremos acompanhar em Que horas ela volta?  de Anna Muylaert. Deparamo-nos aqui com uma tradicional família de classe média, a qual é vista por muitos como o ideal para manter a sociedade brasileira e mundial andando nos trilhos. Não importa se essa família é composta por um senhor mais velho que é um artista frustrado que mantém uma espécie de socialite com ar arrogante e preocupada demais com as ...

Assim na terra, de Luiz Sérgio Metz

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Por Pedro Fernandes Luiz Sérgio Metz. Arquivo da família (por Anahy e Pedro Metz) Uma visita a alguns dados biográficos sobre Luiz Sérgio Metz – é sempre necessária quando o autor não é tão conhecido pelo leitor, embora seja um conhecimento quase desprezível para a leitura de Assim na terra , não fosse o modo como esta narrativa está desenvolvida – mostra que foi um autor de pouca obra. Estreou na literatura em 1977 com a publicação de três contos no volume Histórias ordinárias , uma edição com tiragem limitada organizada pela Cooperativa de Escritores Gaúchos; quatro anos depois, O primeiro e o segundo homem , edição também de contos. Em 1986 publicou a biografia do poeta Aureliano de Figueiredo Pinto, e em 2006 (editado postumamente) um relato de viagem a cavalo pelo sul do Rio Grande do Sul. A impressão que ficará de quem inicia a leitura de sua obra por este Assim na terra – livro publicado em 1995, ainda antes da morte do escritor – é que a breve obr...

Thomas Mann e sua inquietante visão do artista: “Tonio Kröger” e “A morte em Veneza”

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Por Alfredo Monte Em Confissões de Felix Krull  (1954), seu derradeiro romance, Thomas Mann faz Schimmelpreester, padrinho do personagem-título, um pintor que “não raro expressava ideias duvidosas sobre a natureza do artista em geral”, dizer: “Assim são as pessoas. Desejam o talento, que em si é uma singularidade. Mas as outras singularidades que a ele se ligam, ou talvez lhe sejam inerentes, não só não as admitem de modo algum, como lhes negam toda e qualquer compreensão”. Portanto, o grande escritor alemão nunca chegou a abandonar as questões que povoam dois textos da juventude, “Tonio Kröger” (1903) e “A morte em Veneza” (1912), clássicos agora relançados pela Companhia das Letras 1 . Em anos encontramos uma inquietante visão da realização artística. Ambos têm em comum também certa solenidade do tom narrativo, distante da alegria jocosa que perpassa O eleito  (1951) e outras obras maiores de Mann ( A montanha mágica , 1924; Carlota em Weimar , 1939; o própri...

A travessia, de Robert Zemeckis

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Por Pedro Fernandes É possível que, tal como o feito de Philippe Petit, num futuro não muito distante, A travessia não seja capaz de levar o espectador a contorcer-se ante a façanha de atravessar o intervalo de pouco mais de 40 metros entre as antigas torres do Word Trade Center a 417 metros do chão. Esse apelo é uma forma de dizer que esta produção figura entre os filmes cujo valor da imagem só é possível de ser alcançado pelo espectador através do cinema 3D.  O filme chega na ocasião quando se passam quarenta anos desse acontecimento inscrito na história recente dos recordes e teve como base para o seu roteiro a biografia desse feito escrita pelo seu próprio autor, Creativity: the perfec crime . Não é a primeira leitura para o cinema; antes, já circulou um documentário e eis aí uma das razões para o fato de esse tom mais realista (no sentido histórico) ser dispensado por Robert Zemeckis. Este feito (o filme), tal como o do artista francês foi no seu tempo, de...

Um teatro às escuras, de Pedro Tamen (Parte 2)

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Por Pedro Belo Clara Entre os avanços e os recuos das figuras centrais à obra, Ele e Ela, as suas súbitas certezas que logo se transformam em dúvidas dobradas e ansiedades frementes, desaguamos numa espécie de clímax que só o é graças a um maior descortinar do mistério instalado. As questões sucedem-se naturalmente, é claro, assim como os poemas, mesmo que a sua aparição só contribua para o adensar da perdição instalada devido ao seu efeito repetitivo: «Como te posso amar se não te vejo»?; «Este escuro é morte?». Uma voz do público, até aqui emudecida, traz um prenúncio de luz: Mas onde está ela, onde está ele, onde está esta gente (…) nisto que não existe (…) ? E então desembocamos no admitir do teatro como um palco de indagações por excelência: «E porque é que todos aqui nos perguntamos? / Porquê tantas perguntas?». Assim como o momento mais escuro da noite é aquele que antecede a aurora, também aqui o instante de maior desnorteio abrirá caminho para o ...

Boletim Letras 360º #139

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Machado de Assis inédito. Pesquisadores localizam novas cartas e esta fotografia inéditas do escritor. Leia mais ao longo desde boletim. Dois avisos aos queridos leitores: (1) partilhem nossa imagem para que alcancemos a meta para o sorteio dos 20 mil ( please! ); (2) nosso aniversário bate na porta e já adiantamos muito serviço na revisão do blog (já notaram algumas alterações no visual?), mas não estaremos prontos até lá. Ainda faltam pelo menos 200 textos para rever! É muita coisa para duas mãos apenas ( sorry! )  Segunda-feira, 12/10 >>> Brasil: Augusto de Campos e o trabalho de reflexão sobre a literatura Guimarães Rosa, Mario Faustino, João Cabral de Melo Neto, Ferreira Gullar, Wlademir Dias-Pino, Gregorio de Matos e Oswald de Andrade. A primeira edição de Poesia, antipoesia e antropofagia , de 1978, reunia as “incursões errático-críticas” de Augusto de Campos sobre poetas que, como ele, revolucionaram a poesia brasileira vigente. Passados ma...