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As lições de Arthur Rimbaud

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Por Neiva Dutra Mais de um século após a sua morte, Arthur Rimbaud é uma figura que dificilmente poderá vir a ser determinada com precisão. Contentemo-nos, portanto, em saudar sua prodigiosa velocidade, sua existência literária que comprovou, em pouco tempo, que a poesia é possível. Depois de Rimbaud, nada novo, nada mais a dizer, nada além de um reinício, a partir da intensa energia e das agitadoras formas do poeta. Se há algo que possa descrever a obra de Arthur Rimbaud é a demonstração de que a linguagem da poesia é uma linguagem da qual participam os significados infinitos da palavra, a figuração e a identidade. Sua obra é puro movimento, trabalhada com uma generosa distribuição de significados e de novos sons. Através do seu discurso, alegre e rápido, passa uma força intensa, que pode ser lida literalmente e em todos os sentidos. Esta superabundância de encontros o poeta desvela em uma afirmativa: Vendem-se corpos sem preço, de qualquer raça, de qualquer mundo, de...

Boletim Letras 360º #161

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A guerra vista por quem estava no front : diários de George Orwell de quando esteve na Guerra Civil em Espanha estão online. Mais detalhes ao longo deste Boletim.  Chamaríamos a semana que agora finda de semana das raridades; quem visitou as postagens diárias aqui no blog cruzou com um texto que aponta para isso e quem nos acompanhou em nosso Facebook cruzou com uma diversidade de novidades do tipo. Os leitores têm a chance de rever uma a uma agora - é por isso que existe este boletim. Segunda-feira, 14/03 >>>  Brasil: Até então inédita por aqui, obra de Kent Haruf ganhará sua primeira tradução Pela Editora Rádio Londres, editora cujo interesse tem sido o de revelar aos brasileiros grandes autores internacionais. Kent Haruf é estadunidense e morreu em 2014; foi indicado aos prêmios National Book Award e Folio Prize, mas nunca foi traduzido no Brasil. A editora comprou os direitos de Plainsong  (1999), o título que o levou aos finalistas do National Book...

Literatura sem final

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Por Guillermo Altares Marguerite Yourcenar, quem revisou integralmente, sempre que pode, sua obra. No célebre começo de seu romance Fim de caso , Graham Greene escreveu: “Uma história não tem nem princípio nem fim: alguém escolhe arbitrariamente o momento da experiência desde olhar para frente ou para trás”. Talvez os romancistas possam eleger o momento narrativo por onde começam seu relato, inclusive aquele com o qual o terminam. Mas, outra coisa muito diferente é quando terminam de escrever uma obra, porque muitos autores sentem que não o fazem nunca. “Borges dizia que o conceito de obra definitiva é apenas fruto da teologia do cansaço”, cita Alberto Manguel, autor de Uma história da leitura e leitor do autor para o escritor argentino quando este perdeu a visão. A relação dos escritores com suas obras é tão intensa como a relação com suas próprias vidas: alguns preferem não olhar para trás, outros não param de fazer isso; alguns são perfeccionistas até o infinito, o...

O horror sem adjetivos de um testemunho inédito de Primo Levi

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Por Guillermo Altares Como acontece com outros grandes escritores que relatam sua experiência como sobreviventes do Holocausto, como Elie Wiesel ou Imre Kertèsz, o valor da obra do italiano Primo Levi vai muito além do literário (embora neste terreno seja imenso). A era dos testemunhos da Shoah está a ponto de acabar; os últimos sobreviventes e também os últimos verdugos vão se apagando pouco a pouco e a memória desaparece com eles. Por isso, obras com a trilogia de Auschwitz* são mais importantes que nunca: só através da leitura dos relatos dos que estiveram aí é possível entender, ainda que remotamente, o horror incompressível do nazismo e do Holocausto. Primo Levi (1919-1987) escreveu também uma série de informes para diferentes instituições ou para prestar testemunho em processos penais contra crimes de guerra nos quais descreve sua passagem pelos campos de concentração; esses textos foram resgatados no volume Assim foi Auschwitz (Companhia das Letras, Federico Car...

Ó, Shakespeare, por quem és? Sobre o único manuscrito do bardo inglês agora online

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Data de 22 de outubro de 1685, a revogação do édito de Nantes por Luís XIV. O ato desencadearia, depois de quase três decênios de supressões de cargos públicos, destruições de templos e conversões forçadas, uma ampliação do círculo de horrores em nome da extinção do protestantismo na França. Viveria razoavelmente em paz quem abjurasse da religião protestante ou dissimulasse seus cultos. Mas, milhares não tomaram essa iniciativa e em nome dos seus dogmas seguiram o arriscado e incerto caminho do exílio; iam sobretudo para Holanda, Suíça, Alemanha e  Inglaterra . Esse extenso grupo não tinha como suficiente o abandono e nem a dissimulação da sua crença em um ambiente de intolerância e tinha o interesse de encontrar um lugar onde pudessem dispor de plena liberdade religiosa. Thomas Morus, pode-se dizer, foi um dos que lutaram à sua maneira para o estabelecimento da convivência entre católicos e protestantes sobretudo no que diz respeito ao lugar do refugiado. As b...

Todo mundo tem direito a um segredo, de Lia Sanders

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Por Pedro Fernandes Desde a ruptura com a narrativa clássica ou o padrão fixo de composição da forma de narração, que os escritores têm, depois de passar por uma febre da imitação da realidade, exercido outro trabalho com a linguagem. Grosseiramente, este texto prefere chamar esse lado de criação. Claro, o termo bebe da decomposição da ideia de que, apenas na lírica, o escritor é um criador. Isto é, cada vez mais o romancista tem buscado fundir a poesia à prosa. Essa observação não diz respeito, evidentemente, a Todo mundo tem direito a um segredo , ao menos no sentido direto com que ela é aqui apresentada, mas é para sublinhar outra questão (e esta, sim, diz respeito ao livro de Lia Sanders): mesmo livre, o ato de criação literária permanece ligado a alguns lugares que, uma vez o escritor não os observe, corre o risco de desandar o tom que faz com que uma narrativa seja vista como bem construída. Não é o caso de Todo mundo tem direito a um segredo se encaixar no rol ...