As sedes de Liana Ferraz
Por Taynan Iris
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| Liana Ferraz. Foto: Martín Zenorini |
Sede de me beber inteira (2022), de Liana Ferraz, é uma coletânea de poemas de textura muito leve e com uma certa simplicidade, mas de muita profundidade pelo teor sensível. É justamente por isso que o leitor, ao se achegar apenas na beirinha do rio dessa poesia, logo se vê envolvido por um reconhecimento de si, como se a palavra se fizesse líquido e, em sua superfície, refletisse aquilo que somos. Isto é, a experiência, por trás desses versos de linguagem minimalista, é um encontro consigo mesmo. É uma poesia que nos interpela; a palavra é utilizada, por essa poeta estreante no mercado literário, de modo a abarcar nossa vivência com o mundo e, sobretudo, com o nosso interior.
Antes mesmo de chegar aos versos, o título da coletânea demonstra isso. A sede enunciada poderia, a princípio, aludir a uma necessidade física. Não se trata, porém, da sede de água; revela-se, na verdade, como uma sede de beber-se por inteiro. É o desejo de querer-se, conhecer-se, degustar-se, provar a si mesmo. Isso se confirma ao folhear seus escritos, tendo em vista que a autora nos entrega uma experiência ímpar: um encontro com o próprio ser e com o que há de desconhecido dentro de nós. Um de seus poemas (sem título) exemplifica esse movimento:
da minha loucura
sempre bebo mais um gole
poço sem fundo
sede infinita (Ferraz, 2022, p. 15)
Trata-se de beber mais um gole de si mesmo a cada verso. É provar mais um pouco de quem se é, sem medo do que se chama de loucura e de modo contínuo, tal como expressa o verso “sempre bebo mais um gole”. A loucura, enunciada logo no verso inicial como pertencente ao eu poético, parece abarcar tudo aquilo que constitui sua interioridade: seus desejos, impulsos, contradições, delírios e modos de existir. Por isso, é comparada a um poço sem fundo.
Como o próprio poema anuncia, trata-se de uma sede infinita: a busca por se conhecer jamais se encerra. A imagem construída é profundamente simbólica, pois aproxima duas realidades marcadas pela ideia de inesgotabilidade. De um lado, o poço sem fundo, que sugere uma interioridade insondável; de outro, a sede infinita, que revela um desejo de conhecer-se igualmente inesgotável. Porque, no fim das contas, somos mesmo um grande oceano. Quanto mais mergulhamos em nós, mais percebemos que ainda há profundezas desconhecidas, mas acho que o mistério nos incita.
Assim, beber a si mesmo é um gesto que não encontra ponto final. Ao contrário da sede do corpo, que se extingue quando em um dado momento trazendo a sensação de estar saciado, a sede de si cresce a cada gole. Eis um dos movimentos mais belos da poesia de Liana Ferraz: quanto mais a voz poética se bebe, mais deseja conhecer-se.
O projeto poético de Liana Ferraz começou no ambiente digital, por meio de publicações no Instagram. Seus textos conquistaram leitores por proporcionarem um contato mais direto e íntimo. Muitos desses poemas compartilhados pela escritora e atriz na rede social ganharam, posteriormente, a materialidade do papel. Há, portanto, um interessante trânsito entre a escrita breve, característica das redes sociais, e a amplitude do livro. A brevidade permanece, mas ganha corpo, permanência e novas possibilidades de leitura. Publicada pela Editora Planeta, a coletânea é dividida nas paixões líquidas da autora: chá, café e vinho. O livro, por assim dizer, tem sabor e temperatura próprios em cada seção.
No tocante à seção “Chá”, encontramos, em sua maioria, poemas breves, de linguagem concisa e poucos versos, verdadeiros poemas diminutos, mas que não se leem em um minuto: é preciso parar a fim de sentir o cheiro da água-poema. Ainda que seja a menor seção da coletânea em quantidade de textos, talvez seja uma das mais densas. Há algo de muito íntimo nessa poesia, como se o próprio chá emprestasse à escrita sua temperatura: quente, presente, delicada e acolhedora. Trata-se de uma poesia que se degusta lentamente.
Os poemas dessa seção voltam-se, sobretudo, para a interioridade. Neles, a voz poética investiga o autoconhecimento, a aceitação de si e as pequenas tragédias da existência, aquelas que nem sempre são vistas, todavia que silenciosamente nos atravessam. O tempo também comparece como um dos fios que costuram esses poemas: o presente, a consciência de sua transitoriedade e a velhice, que surge não como um anúncio da perda, mas como marca de permanência, de quem atravessou a vida e sobreviveu a ela. São poemas que, com poucos versos, conseguem tocar questões profundamente humanas.
Sendo a seção “Café” a parte intermediária do livro, encontramos um conjunto de poemas que parecem reunir tudo aquilo que precisamos coar ao longo da vida. Assim como a bebida que lhe dá nome, esses poemas possuem uma temperatura quente e um sabor forte, concentrando a essência do eu lírico e, ao mesmo tempo, revelando a fragilidade do ser em sua condição passageira. Há, nessa seção, um convite constante à reflexão, despertando quem lê, quem fala e até quem se cala.
Aqui, a voz poética parece nos lembrar de que não basta permanecer nos murmúrios da existência; é preciso encarar o que nos atravessa. O discurso poético alterna entre poemas mais extensos e outros de extrema concisão, transitando por lembranças, nostalgias, tristezas e alegrias que acompanham o percurso da vida. Como o próprio café, essa seção desperta, aquece e, por vezes, deixa um gosto amargo que insiste em permanecer mesmo depois da última página.
Falando um pouco mais da escrita de Liana, faz-se necessário destacar a sagacidade da autora ao se afastar das metáforas mais requintadas em favor de uma linguagem simples e, ainda assim, tocante e sensível. Consciente de si, da escrita e, sobretudo, da força da poesia contemporânea, Liana parece compreender que não é o excesso de palavras que sustenta um poema, mas a precisão com que elas alcançam o leitor.
O que mais me toca, contudo, é a sensibilidade com que a autora conduz uma reflexão sobre o ser mulher e sobre o autoconhecimento. Desviando o endereçamento do discurso entre o amado, ela própria e uma outra mulher que também atravessa as mesmas inquietações, Liana retoma temas semelhantes sob diferentes perspectivas ao longo da seção “Chá”. Os poemas dialogam entre si, repetindo certas imagens e questões, mas sempre a partir de novos ângulos de visão.
Seguimos para pincelar as linhas de força mais proeminentes, o poema “feriado seria / não ser eu por um dia // Na minha janela / vejo lugares onde eu não moro.// Quantas deixei de ser para ser essa que sou?” (Ferraz, 2022, p. 22), abrem-se, então, reflexões potentes. O feriado surge como uma libertação, ou quem sabe como uma folga de si: não habitar a própria pele por um instante, romper com a rotina do eu. Ou seja, há um deslocamento de sentido da palavra feriado, que deixa as amarras do significado denotativo que se coloca apenas para tratar da interrupção das atividades cotidianas, sugerindo aqui uma pausa de si mesma.
Analisando o poema também na sua espacialidade, observamos o espaço em branco entre os dois primeiros versos e os dois seguintes: a voz poética retoma o poema com a imagem da janela, acompanhada da ideia de morar — embora morar, aqui, não signifique simplesmente residir. Interpretamos essa imagem como uma fenda entre o mundo de dentro e o de fora. É justamente dessa abertura que nasce a reflexão. A voz do poema não enxerga apenas o mundo, mas também a si mesma como um edifício de múltiplas janelas: aberturas para lacunas, vidas não escolhidas e outras possibilidades de existência.
A janela faz-se, assim, metáfora de sua própria interioridade, espelhando a complexidade dos muitos eus, como sugere o último verso de um poema: “Quantas deixei de ser para ser essa que sou?” A própria disposição gráfica parece instaurar um efeito de suspensão na leitura, retardando a chegada da pergunta. Em nossa perspectiva, esse recurso prolonga a hesitação da voz poética e intensifica sua inquietação. A pergunta permanece sem resposta dentro do poema e, justamente por isso, passa também a ser nossa. Vamos, pouco a pouco, juntando o quebra-cabeça desse poema partido. Justifica-se, então, que a ideia de feriado, anunciada pelo verbo seria, no pretérito imperfeito, como uma possibilidade de suspensão do próprio eu. Afinal, nossa rotina também é marcada pelas muitas versões de nós mesmos que surgem ao longo da vida. Cada uma delas representa caminhos que ficaram para trás para que a voz poética ocupasse esse lugar, esse ângulo de visão.

No tocante à seção “Vinho”, percebemos um movimento muito característico da escrita de Liana Ferraz: sua poesia é circular. Como observamos, a autora retorna continuamente aos mesmos temas, mas nunca os repete da mesma forma. A cada novo poema, aquilo que já havia sido dito reaparece sob outra perspectiva, como se a voz poética desse mais uma volta em seu torno para compreender melhor as próprias inquietações.
Assim, se na primeira seção predominava uma poesia da descoberta de si e, na segunda, uma escrita voltada para aquilo que a vida exige que seja coado e enfrentado, em “Vinho” traz um tom mais maduro para esses mesmos temas. A identidade, o pertencimento, o amor, o corpo, a maternidade e o feminino retornam por uma voz mais consciente de suas próprias contradições. Não por acaso, a seção se inicia com um convite: “vinho, vem agora e deixa escorrer”. É como se o vinho permitisse à voz poética dizer aquilo que antes pertencia apenas ao silêncio.
Ao longo dos poemas, encontramos uma mulher que continua múltipla. Ela ainda é filha, mãe, amante, personagem de si, mas agora parece olhar para essas muitas versões com um grau maior de aceitação. Em um poema dessa seção reconhece: “Tenho desejos, às vezes pétala, às vezes lâmina, cortam-me os dois” (Ferraz, 2022, p. 181). A delicadeza da pétala e o corte da lâmina convivem no mesmo desejo, revelando que aquilo que nos agrada também pode nos ferir.
Nesse ponto, chamamos atenção para a questão do feminino, esse ser mulher que se desdobra em múltiplas personas, nunca sendo apenas uma. Trata-se de um dos temas mais explorados por Liana e, talvez, um dos aspectos que mais conquistaram o público nas redes sociais, acompanhando a autora também nessa travessia do digital para o papel. A poeta faz de sua poesia uma fonte de água para a sede da mulher: da mãe, da filha, da mulher maltratada no lar, daquela que sente desejo, daquela que se perde em si mesma, da confusa, da determinada. São diferentes faces do feminino que encontram, na palavra poética, um espaço de acolhimento, reconhecimento e reflexão. Como podemos perceber nos versos: “eu me vejo fingida, personagem de mim, impulsionada por um desejo de pertencer, de parecer, de estar mais feliz do que estou, mais disposta, mais alegre” (Ferraz, 2022, p. 79).
Tocando na fragilidade humana e na constante necessidade de adaptação diante das exigências da vida em sociedade, a voz poética revela, sem julgamentos nem vitimizações, o fingir e o encenar das diferentes faces que assumimos cotidianamente. Essa reflexão se aprofunda quando lemos versos como: “Termino o dia com mil rostos, abraços e olhares na memória, e um vazio de falta nessa memória, a personagem que mais queria ter encontrado, eu mesma.” Como em um palco, o sujeito veste personagens para existir diante do outro, mas, ao final do espetáculo cotidiano, percebe que a personagem mais difícil de encontrar é justamente ela mesma.
Como atriz, Liana conhece a força de uma persona e o quanto ela pode moldar a maneira como nos apresentamos ao mundo. Talvez por isso, a imagem da personagem que atravessa o poema ganhe tanta importância: mais do que interpretar um papel, a voz poética parece refletir a dificuldade de sustentar as muitas versões de si e, sobretudo, de reencontrar aquela que permanece por trás de todas elas. Quem sabe respondendo à própria inquietação, a voz poética entoa acerca do “[amor-próprio]” — título do poema — definindo-o à sua maneira: “é quando consigo amar todas as mulheres/ que moram em mim” (Ferraz, 2022, p. 44).
A poeta também se volta para a experiência materna, investigando uma mulher que passa a viver em função do outro e precisa lidar, simultaneamente, com os próprios desejos e com as exigências da maternidade. Em “[o nome da mãe]”, os colchetes que envolvem o título já parecem chamar a atenção para aquilo que, aos poucos, será posto em suspensão: o próprio nome. Eis o texto:
Não se esqueça de que toda mãe tem
um nome.
Já não é fácil.
Já dá um nó na cabeça.
Já não é fácil.
Já dá um nó na cabeça.
Mãe mãezinha cadê a filha com quem ficou com a
criança olha a mamãe mamãe na balada essa
mãe cadê a mãe.
Aperta no coração de vontade de ser a gente e
culpa de querer ser a gente vontade de culpa
ao mesmo tempo muito tsunami.
Escorre leite.
Escorre pele.
Escorre suor.
Escorre lágrima.
A mãe perde o nome.
A mãe é mãe
a mãe perde a mãe.
a mãe perde.
E ganha.
E perde.
E ganha.
E ganha.
E ganha
[...]. (Ferraz, 2022, p. 198)
A escolha formal dialoga com o poema, que quase dispensa a pontuação e faz as palavras correrem umas sobre as outras, produzindo uma sensação de aceleração e sobrecarga, como se os papéis de mãe, mulher e filha se misturassem continuamente. Ao contrário da romantização da maternidade tão frequentemente difundida pela mídia e pelas campanhas publicitárias, a voz poética volta-se para suas múltiplas camadas e ambiguidades. Uma delas é a perda da própria identidade, reforçada pelo verso: “Não se esqueça de que toda mãe tem/ um nome”. O lembrete evocado, à primeira vista tão simples e óbvio, revela-se necessário, pois evidencia como a identidade da mulher pode ser, muitas vezes, reduzida à mãe. A liberdade feminina passa, então, a conviver com as responsabilidades da maternidade e, sobretudo, com a cobrança permanente do cuidado, aspecto que se intensifica na segunda estrofe.
Entre a “vontade de ser a gente” e “a vontade de culpa”, o poema expressa o eu feminino no cruzamento entre duas forças, como se observa na segunda estrofe: de um lado, o desejo de continuar sendo si mesma; de outro, a culpa que acompanha esse desejo. É justamente nesse embate que a voz poética nomeia o conflito como um “tsunami”, imagem que traduz a intensidade e a violência desse turbilhão interior, sem que nos atrevemos a reduzi-la a uma simples hipérbole.
A quarta e quinta estrofes revelam os muitos esforços desse ser-mãe por meio da imagem do escorrer, repetida sucessivamente ao longo dos versos. O verbo evoca a mama, parte do corpo feminino intimamente ligada à maternidade, mas amplia seu sentido ao enumerar o leite, a pele, o suor e as lágrimas. Nessa cadência, o eu poético faz compreender que ser mãe mobiliza o corpo da mulher, sua entrega, seu psicológico e suas emoções. Trata-se de uma experiência marcada por perdas e ganhos que coexistem. Não por acaso, o poema insiste no verbo ganhar. Entretanto, esse ganho não deve ser entendido apenas em um sentido positivo ou idealizado; ele carrega as marcas das renúncias e transformações que constituem a experiência materna.
Além de tudo o que já foi discutido, e que consideramos apenas uma pequena amostra da riqueza desse livro de Liana Ferraz, faz-se necessário destacar outro aspecto bastante singular de sua escrita: a visualidade. Surgida, em grande parte, como instapoema, sua poesia traz consigo marcas do ambiente digital. Como sujeito de seu tempo e usuária das redes sociais, ela vale-se de recursos visuais que passam a integrar a construção do poema. Não se trata apenas de escrever versos, mas também de organizá-los visualmente na página, fazendo da forma um elemento de sentido. É bastante marcante em sua poesia a maneira como brinca com as palavras — seja ao riscá-las para revelar novos sentidos, seja ao atrever-se a embaralhá-las em zigue-zague, seja ao explorar os espaços em branco e a própria disposição gráfica dos versos, como podemos demonstrar com o seguinte poema:

Com uma tipografia que, à primeira vista, pode ser confundida com um rabisco, e com as letras dispostas verticalmente, Liana transforma a própria escrita em imagem, aproximando palavra e desenho. É interessante notar que os verbos sustentar, à esquerda, e suportar, à direita, aparecem equilibrados em torno de um eixo central. A composição lembra uma gangorra, sugerindo um movimento de tensão e equilíbrio entre ações que, embora próximas semanticamente, não são idênticas. No centro da composição, o advérbio de negação reforça essa instabilidade, enquanto um leve risco em [sus] — de sustentar e em [po] — de suportar – faz nascer outras palavras em seu interior: tentar e surtar; como se uma palavra abrigasse outra, produzindo um efeito semelhante ao de uma matrioska. A disposição gráfica, portanto, não apenas acompanha o poema, mas integra sua construção de sentido, reafirmando uma poética que experimenta diferentes formas de dizer. Como se o poema quisesse confessar, nas entrelinhas, sentimentos que ainda não encontraram palavras, mas que, mesmo assim, permanecem contidos — em equilíbrio ou não. A forma visual, portanto, também se torna linguagem.
Por fim, após ler e apreciar essa coletânea, ficamos impressionados com o domínio que Liana Ferraz demonstra sobre a palavra superfície reflexo: uma palavra que não apenas diz, mas devolve ao leitor a imagem de si mesmo. Sede de me beber inteira desperta uma sede que talvez nem soubéssemos existir, uma sede de nós mesmos. E esse talvez seja o maior mérito da obra: fazer-nos querer regressar aos seus poemas, certos de que, a cada nova leitura, continuaremos sentindo uma sede infinita.
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Sede de me beber inteira
Liana Ferraz
Planeta, 2022
Planeta, 2022
256 p.


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