Postagens

Baudelaire, um obcecado pela revisão

Imagem
Detalhe da folha de rosto de uma das provas de As flores do mal . Personagem de distraída modéstia, Charles Baudelaire sabia ser chamado à glória. “Rejeito tudo, o espírito de invenção e inclusive o conhecimento da língua francesa. Rio desses imbecis e sei que este volume, com suas qualidades e seus defeitos, encontrará um lugar na memória do público letrado, ao lado das melhores poesias de Victor Hugo, Théophile Gautier e talvez Byron”, escreveu para sua mãe em julho de 1857, depois de publicar As flores do mal , a antologia poética que revolucionaria as letras francesas.  Se essa história é mais ou menos conhecida de todos, outra também não deixa de ser muito famosa: o poeta francês sempre soube que, antes de se inscrever na posteridade, devia construir uma obra sólida e irreparável. Por isso, passou quase uma década corrigindo suas provas para impressão, reescrevendo uma e outra vez seus 150 poemas com uma persistência quase patológica, a em que todo autêntico perf...

Boletim Letras 360º #164

Imagem
Estas foram as notícias sobre o universo de interesse do blog que circularam durante esta semana na página do Letras in.verso e re.verso no Facebook (você já nos segue?) Viva, mais um First Folio foi encontrado! Mais detalhes sobre essa descoberta o longo deste boletim. Segunda-feira, 04/04 >>> Suécia: Morreu Lars Gustafsson Escritor, poeta, editor,filósofo, professor, tradutor e um grande dramaturgo; o sueco Lars Gustafsson, que chegou a ser um dos favoritos ao prêmio Nobel de Literatura, nasceu em Västerås em 1936. Publicou seu primeiro romance aos vinte e um anos. Foi durante a década de 1970 um dos mais ferozes críticos ao pensamento socialista de seu país. Viveu e trabalhou em Alemanha e Estados Unidos, durante o período em que se dedicou à carreira acadêmica, isso logo quando defendeu seu doutorado em 1978. Reconhecido internacionalmente recebeu prêmios como o John Simon Guggenheim Memorial Foundation Fellowship de poesia (1994), a Medalha Goethe (20...

As lições de O sol é para todos

Imagem
Por Guillermo Altares cena do filme adaptação da obra de Harper Lee, O sol é para todos . Raríssimos escritores passaram para a história da literatura com um só romance. E menos ainda por um só personagem. Harper Lee, a romancista estadunidense, é um caso insólito: publicou um só livro com o qual ganhou o Prêmio Pulitzer,  O sol é para todos . O romance protagonizado por advogado do interior do sul dos Estados Unidos, Atticus Finch, representa os melhores valores da humanidade. Atticus não é uma personagem de papel, nem um arquétipo, é um ser de carne e osso, um viúvo que toma a frente de uma família e ao mesmo tempo lida com a profunda injustiça de segregação racial do Velho Sul. O sol é para todos foi publicado em 1960 e levado ao cinema no ano seguinte por Robert Mulligan com Gregory Peck como protagonista. É narrado em primeira pessoa, pela filha de Atticus, Scout, e relata um episódio de sua infância. Por um lado, é um livro em que algumas crianças des...

O fim de tudo, de Luiz Vilela

Imagem
Por Pedro Fernandes Desde Machado de Assis, é possível distinguir entre os escritores brasileiros, uma vertente do conto só encontrada por aqui. É que em grande parte a narrativa curta se distanciou do elemento poético ou das situações reflexivas comuns em outras literaturas e aproximou-se do trivial e corriqueiro. Isto é, nossa contística afeiçoou-se mais à crônica e figura não como uma narrativa enquadrada numa moldura, um recorte fotográfico, para voltar às relações descritas por Julio Cortázar, mas como um fotograma – o recorte também de molde da fotografia, mas interessado em não desprezar o movimento contínuo que se nota, por exemplo, na novela ou no romance. É claro que, determinadas maneiras clássicas de assunção da narrativa curta, tem raízes profundas entre nós, sobretudo, se olharmos a partir dos exercícios construídos por uma Clarice Lispector; mas, mesmo a escritora de Laços de família , se isolarmos a diversa quantidade de simbologias, propositalmente umas – ou...

Viver, beber e escrever

Imagem
Por Ulises Culebro O poeta John Berryman seguia uma estrita dieta constituída de um litro diário de uísque enquanto escrevia na década de 1960 seus poemas de The dream songs . Em seus anos em Cuba, Hemingway chegava a beber 16 daiquiris numa sentada, um recorde só superado pelos 18 uísques que parecem ter levado à tumba Dylan Thomas. Some-se (ou melhor, subtraia-se) os licores em questão nalgumas dessas ocasiões e as longas conversas que também as acompanham e só assim terão uma ideia aproximada das proezas desses titãs da bebida. Em Viagem ao redor da garrafa , Olivia Laing se dedicou a seguir o rastro de seis dos muitos escritores estadunidenses marcados pela bebida; dos oito prêmios Nobel de Literatura (homens) que teve os Estados Unidos, cinco eram alcoólatras. Ajudada pelos lugares onde viveram e beberam John Cheever, F. Scott Fitzgerald, Hemingway, Raymond Carver, Tennessee Williams e John Berryman, a autora traça um mapa topográfico do alcoolismo na literatura...

Imre Kertész, lembrar para não permitir o renascimento do horror

Imagem
Por Guillermo Altares Imre Kertész, sobrevivente de Auschwitz, morreu numa quinta-feira, 31 de março de 2016, em sua cidade natal, Budapeste. Sua obra, sobretudo seu romance Sem destino , que levou treze anos para escrevê-lo e publicou em 1975, oferece tanto do ponto de vista literário como memorialístico uma janela única para observar um acontecimento que define o século XX: o Holocausto. Kertész era um menino de 15 anos quando foi deportado em 1944 pela polícia húngara para o campo de extermínio alemão de Auschwitz, na Polônia. Quando voltou para a Hungria, não só encontrou o apartamento de seus pais ocupado por estranhos como se deu conta de que restava só no mundo – toda sua família havia sido engolida pela máquina de assassinar nazista. Essa sensação de solidão ante o horror, de que cada decisão tomada por um adolescente que não havia cumprido a maioridade pode determinar sua vida ou sua morte, está no coração da obra de Kertész e foi um dos elementos favo...