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“O cortiço” como expositor das mazelas e injustiças sociais

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Por Rafael Kafka Cena de  O cortiço . O livro de Aluísio Azevedo foi adaptado por Francisco Ramalho Jr. em 1978. O cortiço , de Aluísio de Azevedo, é a obra mais importante do Naturalismo brasileiro. Não fica difícil de entendermos isso após uma leitura atenta do romance, o qual preza por um ritmo dinâmico e ao mesmo tempo minucioso em seu enredo. Além disso, é um dos primeiros romances brasileiros a usar um foco narrativo que se centra na coletividade de um recinto, denunciando as mazelas sociais do lugar, ligadas à ganância de um homem, João Romão, o qual decide usar o mercado imobiliário voltado para camadas mais baixas para melhorar suas condições econômicas. Uma das críticas sempre feitas ao Naturalismo é o seu aspecto determinista, mostrando como o meio afeta a condição humana tornando-a em algo monstruoso. Todavia, após a leitura de A condição humana , de Hannah Arent, penso de forma um pouco diferente desse juízo de valor e vejo no Naturalismo a primeira fo...

História de quem foge e de quem fica, de Elena Ferrante

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Por Pedro Fernandes A grandiosidade de um escritor encontra-se na capacidade de falar sempre sobre a mesma coisa sem nunca deixar de parecer ao leitor que é a primeira vez que fala sobre. Assim, não resta dúvida de que Elena Ferrante filia-se à grande tradição do romance como a interessada em, no âmbito da literatura italiana, repensar os estatutos sobre a mulher, e no âmbito universal, contribuir para o debate sobre diversos conceitos e lugares inaugurados e sedimentados pelo feminismo.  No terceiro volume que integra a série napolitana – ou no romance cuja estrutura deve ao buildungsroman , tipo em que se expõe de forma pormenorizada o processo de desenvolvimento físico, moral, psicológico, estético, social ou político de um sujeito desde sua tenra idade – os temas são os mesmos de quando começamos acompanhar sobre a vida de Lenu, alterego da romancista, e Lila, o outro de Lenu: as maneiras diversas de encarar a realidade e os desafios por ela impostos, o embate na...

Oscar Wilde, narrador

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Por José Carlos Llop Oscar Wilde em Paris Se Oscar Wilde é autor de um só romance, O retrato de Dorian Gray , também é verdade que há outro romance seu oculto em sua própria personagem. Não me refiro a Teley , essa novela homoerótica, nem a De profundis – que traria certas chaves sobre sua autobiografia ou não e logo seria um dos novos arranjos da narrativa moderna – nem tampouco aos contos, dos quais poderia citar O crime de Lorde Arthur , O fantasma de Canterville ou ainda O retrato de Mr. W.H. Neles não poderíamos rastrear gestos disso que os franceses chamam nouvelle e nós aprendemos a chamar como novela . Refiro-me à narrativa de uma vida, novela (ao invés de romance) da vida, novela escrita pelo próprio Wilde com tintas de sua vida e que foi ficcionada em tantas ocasiões, seja por outros romancistas, seja pelo cinema. A vida de Wilde há aparecido nessa literatura geralmente marcada pelo mistério estético e o drama novelesco de sua personagem principal, dotado ...

Seul suja

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Por Pablo Augusto-Silva Se tivéssemos como missão selecionar um trecho que resumisse o espírito do romance da coreana Bae Su-ah (1965-), Sukiyaki de Domingo  (tradução Hyo-jeong Sung, Estação Liberdade, 2014), seria este diálogo entre uma exótica modelo de pelos púbicos e um jornalista: “Daqui a dez anos? – repetiu a mulher a pergunta, como se tivesse sido pega de surpresa e logo ficou pensativa. – Acho que não estarei fazendo nada. Provavelmente não serei mais modelo de pelos púbicos daqui a dez anos. Eu não gosto de viajar e nem me dou bem com as pessoas. Realmente não sei o que será de mim daqui a dez anos. Não consigo pensar em nada concreto, questionada assim, de modo tão repentino. Mas sei que não quero ficar com a pele flácida. Pelo menos isso é certeza. Fora isso, nunca pensei no assunto. – Não consigo te imaginar com a pele flácida daqui a dez anos. – Ah, pode acontecer. Vou estar com mais de 30 – insistiu a mulher. – Eu conheço várias mul...

Distantes, mas próximos: sete romances que dizem a história da América espanhola

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Por Sergio Ramírez Gabriel García Márquez e Juan Rulfo. Os romances do que poderíamos chamar cânone clássico da literatura de língua espanhola na América têm já uma idade provecta, segundo esse arcaico termo que se usava para sublinhar a idade avançada. Dona Bárbara , que deu a essa literatura uma de suas personagens verdadeiramente arquetípicas, aquelas que saem das páginas de um livro para andar pelo mundo por conta própria, vai já para os noventa anos de sua publicação; e seu autor, o venezuelano Rómulo Gallegos, nos recorda algo já quase esquecido, o dos escritores que equiparava a vida literária com a vida política. Seu caso parece incomum e logo memorável. Era um reformista de coração, que aborrecia a sociedade selvagem, de intensas tintas rurais de seu país, e queria estabelecer o legal que décadas de ditaduras militares haviam convertido em um insulto. Reformar o campo onde reinava a lei do mais forte, substituir o arbítrio pelo pela ordem jurídica, é a tese de...

Boletim Letras 360º #197

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Já se aproxima do nosso recesso de final de ano (brevíssimo, o leitor nem sente). Mas, estes boletins, avisamos, sempre estão mantidos, claro, com dimensão bem menor que a de costume e as redes sociais não deixam também de se movimentar nesse período. Estudamos o período entre o Natal e algumas semanas de janeira, como de praxe, para isso. "Menina com colar" foi pintado em 1929 e é uma das peças que os pesquisadores da obra de Frida Kahlo tinham por perdida. A peça foi leiloada esta semana por 1,81 milhões de dólares. Segunda-feira, 21/11 >>> Portugal: Obra com desenhos e textos inéditos intitulada Eça de Queiroz em Casa — Desenhos e Textos Inéditos , com organização e transcrição Irene Fialho ganha edição Os textos e desenhos são, na sua maioria, inéditos, provenientes de álbuns que estiveram mais de cem anos escondidos do público. Mesmo nos poucos casos em que os textos e as imagens já se encontravam publicados, nunca foram coligidos numa edição que...