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Ernesto Sabato, algum testamento

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Há muitas faces que definem Ernesto Sabato. E duas delas são suficientes para ressaltar sua grandiosidade para a literatura: ser o autor de O túnel (1948), Sobre heróis e tumbas (1961) e Abadon, o exterminador (1974) e o homem atormentado e horrorizado que presidiu a Comissão Nacional sobre o Desaparecimento de Pessoas (CONADEP) em seu país natal. Juan Cruz, ao lembrar sobre o escritor para o jornal El País , disse que “Ernesto Sabato era um homem triste; de tão triste parecia que essa era sua natureza; mais que seu corpo, seu olhar, suas palavras, mais que tudo isso, Sabato era fisicamente triste”. A tristeza estava no lugar de pouco à vontade no mundo. Aliás, como se pode ficar à vontade quando a humanidade é toda barbárie? Descendente de pai italiano e mãe albanesa, Sabato deixou ainda outras obras de grande importância para a literatura latino-americana; além de romancista, foi o autor que escreveu uma extensa e variada obra ensaística na qual tratou sobre seu traba...

Boletim Letras 360º #219

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Acontece hoje na página do Letras no Facebook, de onde foram copiadas as informações que dão forma a este Boletim o sorteio de um exemplar do livro que reúne toda a obra poética mais inéditos de Hilda Hilst. Da poesia , editado pela Companhia das Letras chegou às livrarias nesta semana. Em breve disponibilizaremos um sorteio com a edição que traz todos os contos de Dostoiévski recém-editada pela Editora 34. O sorteio deste livro será realizado entre os membros do grupo do Letras no Facebook e não na página. Ainda sobre promoções, o blog, em parceria com a Editora Rádio Londres sorteia um kit de marcadores. As informações sobre este sorteio, que acontece em maio, estão na página do Letras no Facebook . Truman Capote e Harper Lee. Livro coloca em evidência como a amizade de infância dos dois escritores azedou. Mais detalhes ao longo deste Boletim. Segunda-feira, 24/04 >>> Brasil: Um galardão para a literatura e a ilustração infanto-juvenil Seguindo o mo...

Weldon Kees

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Weldon Kees levava consigo um poeta. O problema é que também levava um cidadão respeitável de Nebraska deveria ser, que tanto temia ser. Era filho de ricos, boy-scout , era igualzinho a Howard Hughes, escrevia, pintava, tocava piano, dirigiu filmes, mas o que o tinha à sua frente via só decoro e opacidade. O poeta que levava consigo se levantava gritando, mas fora só se via um vendedor de seguros. Elizabeth Bishop o levou certa vez a visitar o Ezra Pound no sanatório e este gritou ao vê-lo: “Por que diabos me trazes um vendedor de seguros?” Todos o conheceram, ponta a ponta do país, mas todos se deram conta tarde, muito tarde, quando Kees já havia se esfumado no ar, aos quarenta e um anos no dia 19 de julho de 1955: a polícia de San Francisco encontrou seu Plymouth abandonado, com as chaves na ignição e a porta aberta, ao lado da Golden Gate. Em seu apartamento encontram meias postas para secar dentro do banheiro e o seu gato. Não estavam nem a carteira, nem o relógio, nem o...

Tarântula, de Bob Dylan

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Por Pedro Fernandes Este livro participa de duas constantes muito caras à narrativa contemporânea. Primeiro, é a impossibilidade de realização , ao menos no sentido tradicional segundo o qual narrar é contar uma história e, logo, toda narrativa se desenvolve entre um motivo, um elemento desencadeador, e um fim, que não é necessariamente uma conclusão do relatado; e as infiltrações do discurso poético na prosa que aqui funcionam ora como se uma espécie de refrão para o texto, apenas no sentido de uma marcação entre uma massa textual e outra, ora como o próprio poema em sua estrutura e forma predominante, isto é, a organização em versos e estrofes. Apesar de denominado pelo autor como um romance porque está entre “tudo aquilo que eu não posso cantar e é longo demais para ser um põem”, o leitor não encontrará em Tarântula uma história como começo, meio e fim, ainda que fragmentária como é comum a muitas narrativas desde a descoberta sobre a descontinuidade do discurso ps...

O efeito Buddenbrook

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Por Rafael Ruiz Pleguezuelos Katia e Thomas Mann No mundo empresarial se conhece como efeito Buddenbrook a progressiva decomposição de uma empresa familiar descendida da terceira geração, que leva dos avós (fundadores e verdadeiros artífices do feito) aos filhos (que já introduzem a primeira variável debilitadora com a chegada dos genros e noras) e aos netos, com quem, geralmente, a dita empresa familiar é definitivamente liquidada, se não dilapidada. O termo naturalmente provém dessa delícia que é Os Buddenbrook , romance publicado em 1901 e a melhor obra de Thomas Mann com permissão de A montanha mágica . Os Buddenbrook se constitui por uma observação minuciosa do declínio de uma família burguesa e seu negócio familiar, com um mínimo detalhe tão exaustivo e uma exigência de igual proporção ao leitor que tem pelo menos de deixar de fazer qualquer coisa se realmente se decidir lê-la. É bem conhecido que Os Buddenbrook se encontra inspirado na perda paulatina do poder e...

As viagens transformadoras de Paul Bowles

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Por Emma Rodríguez No começo de O céu que nos protege , sua obra mais célebre, Paul Bowles, deixa claro que a diferença fundamental entre o turista e o viajante reside no tempo: “Enquanto o turista geralmente volta depressa para casa ao fim de algumas semanas ou meses, o viajante, que não pertence a um lugar mais do que a outro, se locomove devagar, ao longo de períodos e anos, de uma parte da terra a outra”, diz o narrador do romance, quem também apresenta outra distinção: o turista “aceita sua própria civilização sem questionar; não é assim com o viajante, que compara o seu país com os outros e rejeita os elementos que não estão a seu gosto”. Nesta breve e certeira argumentação se esboçam não só as características do Bowles viajante mas sua maneira de compreender a existência. “Meu interesse pelas culturas estrangeiras era ávido e obsessivo. Estava convencido de que era benéfico viver entre pessoas cujas motivações não entendia; tão irracional convicção era sem dúvida uma...