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Múltipla escolha, de Alejandro Zambra

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Por Pedro Fernandes Ao falar sobre avaliação que dava acesso à universidade no Chile, o narrador de um dos textos que compõem Múltipla escolha diz que esta era produto de sistema educacional falido; bastava ao estudante “entrar no jogo e adivinhar a pegadinha”. Esta observação recupera a natureza do livro de Alejandro Zambra, uma dentre as experiências literárias mais radicais das criações deste início de século. Este livro é uma encenação da falibilidade da literatura numa era quando à forma e à estrutura não escapam outras alternativas de reinvenção. Marcado pelo discurso fatalista da impossibilidade da narrativa, discurso aliás do qual seguramente o escritor trata de zombar, é uma obra construída como provocação à ordem. Uma ode ao caos e a variabilidade das formas e estruturas estéticas e sociais. O escritor chileno se apropria de uma estrutura não-literária, um certame objetivo muito em voga no seu país até meados do início deste século – no Brasil, esta avaliaçã...

Rodin, de Jacques Doillon

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Por Pedro Fernandes Rodin é uma das figuras mais importantes da arte moderna. De formação clássica e contra esta não ensaiou quaisquer movimentos de rebeldia político-estética, como foi comum a muitos artistas modernistas de seu tempo, preferiu demonstrar a virulência do gênero através da construção de uma obra se tornou revolucionária. Que o escultor francês seja uma referência, uma das mais importantes figuras das artes no entre-séculos XIX e XX, gênio marcado pela sensibilidade inscrita num trabalho que é a um só tempo uma ousada releitura dos temas tradicionais das artes clássicas e uma alegoria celebrativa do corpo ou da genialidade dos homens de seu tempo, ninguém duvidará. Agora, que sua biografia seja dotada dos grandes eventos dramáticos, comuns a quase todos os gênios criadores, é algo a se verificar e, uma das possibilidades, encontra-se no filme de Jacques Doillon. E a questão é, fora as implicações pelo reconhecimento, os arroubos temperamentais e os embat...

Sierguéi Iessiênin, o último poeta da aldeia

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Por Jorge Teillier Uma tarde antes do Natal de 1925 um soturno viajante pedia alojamento no Hotel Angleterre de Leningrado. Durante três dias tranca-se no quarto e cai num estado de embriaguez. Finda por se afogar, não sem deixar escrito com seu próprio sangue um poema que termina dizendo: “Adeus amigo, sem mãos nem palavras / Não faças um sobrolho pensativo. / Se morrer, nesta vida, não é novo, / Tampouco há novidade em estar vivo!”*. Quem se mata aos trinta anos de idade deixando como testamento estas linhas é Sierguéi Iessiênin, considerado juntamente com Maiakóvski e Boris Pasternak o mais importante poeta russo-soviético, sendo os três considerados como destaca Sophie Laffitte “figuras mitológicas contra o fundo apocalíptico da Revolução”. A vida de Iessiênin começa como uma espécie de conto de fadas. Nasceu no centro da Rússia, na aldeia de Konstantinovo, próximo de Riazán. Filho de camponeses, seus pais o haviam destinado a ser professor primário, mas se ...

Cinco livros para conhecer a obra de William Faulkner

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O escritor estadunidense William Faulkner (1897-1962) é um dos autores principais da literatura do século XX. Foi muito mais valorizado como romancista na França que em seu próprio país, fascinação europeia que lhe facilitou a obtenção do Prêmio Nobel de Literatura em 1949. Tentou combater sem sucesso na Primeira Guerra Mundial e buscou se estabelecer como poeta (seu primeiro livro, O fauno de mármore , é de poemas), mas logo se veria absorvido por uma febril atividade como romancista.  Nativo do Mississipi, a monumental obra de Faulkner é sempre caracterizada como regionalista, embora se trate de um regionalismo marcado pela técnica moderna de escrever a James Joyce. Escritor do sul, sua literatura está marcada pelo trânsito dessa sociedade arcaica para uma sociedade moderna e por temas como os embates de classe e raça, o mundo rural, o atraso econômico e a violência. Para dar forma ao seu mundo literário inventou um condado imaginário, Yoknapatawpha. As obras desse...

Boletim Letras 360º #240

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Estamos online com uma nova edição do Boletim Letras 360º, ocasião para revermos quais foram as novidades compartilhadas durante a semana em nossa página no Facebook.  Segunda-feira, 18/09 >>> Brasil: Vem aí a obra de  Liudmila Petruchevskaia A partir de 2018, os leitores brasileiros poderão ter acesso à literatura de Petruchevskaia em português. A Companhia das Letras, informa a Folha, comprou os direitos de Era uma vez uma mulher que matou o filho da vizinha  (título provisório). Uma mulher dá por si a tapar um buraco a meio da noite numa floresta; uma família tranca-se no quarto de forma a combater uma estranha epidemia; um feiticeiro castiga duas belas bailarinas transformando-as numa grotesca performer circense; um coronel é avisado para que não levante o véu da face da sua falecida esposa; e um perturbado pai consegue ressuscitar a filha devorando corações humanos nos seus sonhos. São contos de humor negro, repletos de vi...

Mar morto e milagre dialético

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Por Rafael Kafka Mar morto tem a mesma lógica dialética de "Cadeira", o que talvez explique em algum grau a amizade existente entre Jorge Amado e José Saramago. Nos dois textos narrativos, uma novela e um conto, o processo dialético transcorre sem que as personagens tenham esperança em sua ocorrência, muitas vezes sequer tendo consciência de sua possibilidade. Dulce, a professora de ar frágil do romance amadiano, é a única que talvez perceba alguma outra realidade em potencial que seja diferente da existência de exploração dos pescadores que em seus saveiros vivem em estranha comunhão com o mar. O poder de síntese de Jorge Amado no romance aqui abordado é impressionante. Em pouco mais de 250 páginas de uma edição de bolso, fui capaz de me deparar com uma linguagem repleta de lirismo, sem perder em nenhum momento o viés social capaz de se mostrar na obra romanesca. Assim como em Gabriela, o outro romance de Amado lido por mim até agora, neste Mar... temos diant...