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O eleito, de Thomas Mann

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Por Pedro Fernandes É curioso que O eleito não figure, de imediato, entre as obras mais importantes de Thomas Mann; curioso, mas compreensível para quem escreveu Doutor Fausto , Os Buddenbrook , A montanha mágica ou José e seus irmãos , obras de grande fôlego que juntas atentam contra toda impossibilidade de realização de um só homem. A monumental obra do escritor alemão atesta, aliás, o verdadeiro sentido de um termo hoje tão depreciado quanto o gesto de ser aplaudido de pé depois de um espetáculo – gênio. Há quase duas décadas fora de catálogo no Brasil, a obra é reapresentada e abre-se, assim, outra possibilidade, a de redescoberta, nesse caso diferenciada, que é a de compreendê-la parte importante do amplo universo de um criador exponencial. As razões para tanto são diversas, mas basta que se diga uma delas: neste romance está toda a técnica do escritor e é, portanto, uma oportunidade valiosa para os que ainda estão à beira de percorrer suas maiores invenções. ...

Poesia, mitologia e amor

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Por Candido Pérez Gallego Quando T. S. Eliot morreu em 1965, a poesia inglesa ficou órfã. A fatalidade não foi total porque ainda vivia em Veneza um velho estadunidense chamado Ezra Pound e em Mallorca outro senhor britânico, Robert Graves, que podiam, do interior de sua eterna juventude, impulsionar os ritmos dos criadores vindouros. A lírica seria questão de experiência, memória íntima de toda uma vida, testemunho sedimentado de uma existência e por isso o eco dos Quatro quartetos seria a música mais perigosa para os que queriam expressar suas emoções. Robert Graves era sete anos mais jovem que T. S. Eliot e sua capacidade de criação era fascinante, não se limitando unicamente ao campo poético nem se contentando com essa joia que são os seus Collected poems , mas adentrando-se com puro vigor no romance histórico, como Eu, Claudius, Imperador , para citar apenas um exemplo; no âmbito do ensaio, e agora relembramos Mitos gregos e, certamente, a autobiografia Adeus a iss...

Augusto Monterroso. O mestre da brevidade

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Por Andrés Olascoaga A alguns autores bastam um texto para destacá-lo na história da literatura. No caso do escritor hondurenho Augusto Monterroso, esse texto foi um breve conto que tinha “interpretações tão infinitas como o próprio universo”, repetindo suas próprias palavras. Monterroso apresentou o referido texto, “O dinossauro”, na sua primeira reunião de contos, Obras completas (y otros cuentos) [Obras completas (e outros contos)] , publicada em 1959. Desde então seu trabalho literário, tal como a personagem principal de seu conto, se manteve presente no imaginário coletivo. Mas, seria injusto limitar a vida do escritor a apenas seu mais célebre texto. Afinal, sua história é uma das mais interessantes da literatura latino-americana. Nascido em 21 de dezembro de 1921 em Tegucigalpa, Honduras, Augusto Monterroso Bonilla cresceu mantendo-se distante da pátria onde nasceu e se instalou junto com seus pais na Guatemala. Durante a adolescência, o...

Notas à Borda dos Noventa: aprendendo a escrever menos

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Por Donald Hall Donald Hall, que faleceu em junho de 2018 aos 89, foi um prolífico poeta, ensaísta e editor cujo trabalho teve enorme impacto nas letras americanas. Foi o primeiro editor de poesia do The Paris Review e serviu aos EUA como poeta laureado. A sua Art of Poetry Interview apareceu na edição de Outono de 1991 da publicação referida. Antes de morrer, compilou um último livro de ensaios, A Carnival of Losses: Notes Nearing Ninety [Um Carnaval de Perdas: Notas à Borda dos Noventa], um excerto do qual aparece abaixo. Quando tinha dezesseis anos de idade, eu lia dez livros por semana: E.E. Cummings, William Faulkner, Henry James, Hart Crane, John Steinbeck. Pensava que progredia em literatura ao ler mais e mais rápido – mas ler mais é ler menos. Aprendi a desacelerar. Trinta anos depois, em New Hampshire com Jane, eu ganhava a vida com freelas de escrita o dia todo, então lia livros apenas à noite. Li Declínio e queda do Império Romano e seis imensos volum...

Boletim Letras 360º #316

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Finalizamos outra semana e já agora com uma novidade de primor: o blog sorteia um exemplar de A queda de Gondolin , a mais recente publicação da obra de J. R. R. Tolkien apresentada no Brasil pela HarperCollins Brasil. Para saber como participar basta visitar a post escrita por Guilherme Mazzafera que faz uma excelente apresentação desta obra. Recado anotado, vamos à semana magra de Carnaval. Cem anos de solidão terá primeira adaptação para a televisão Segunda-feira, 4 mar. Como Bukowski se tornou Bukowski Escrever para não enlouquecer  é um livro único na obra do velho Buk. Reunindo cartas redigidas e ilustradas por ele entre 1945 e 1993, não apenas revela as ideias e opiniões do autor sobre literatura e o ato de escrever, mas também oferece ao leitor a chance de conhecer os bastidores da vida do velho Buk contados por ele mesmo – da embriaguez da juventude errante até os anos maduros de fama. Compiladas por Abel Debritto, biógrafo do autor que editou d...

Treze obras da literatura que têm gatos como protagonistas

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Doris Lessing  “Mais do que a coruja, o gato é símbolo e guardião da vida intelectual” Carlos Drummond de Andrade, “Perde o gato”, de Cadeira de balanço É possível, tantos anos depois das primeiras narrativas que trouxeram o gato como protagonista, estabelecer a compreensão de um modelo de prosa, à maneira como se determina outros segmentos na literatura. Parece que o registro mais antigo dos bichanos na narrativa literária remonta ao período grego; nas fábulas de Esopo, o gato é retratado como um animal astuto, capaz de tudo para alcançar seus interesses. O fabulista grego sublinha, assim, a inteligência, a astúcia e a esperteza; se à primeira vista o gato consegue se dar bem, não deixa de cair nas graças daqueles a que persegue, como em “O gato e os ratos” e “O gato médico e as galinhas”. Isto é, tem lugar desde esse período a condição ambivalente que assumirá ao longo das representações literárias. O papel de malvado que se apresenta nas fábulas de Esopo é ...