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O retorno “da menina que queria ser Deus”

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Por Laura Fernández Sylvia Plath (Boston, 1932-Londres, 1963) escreveu como se estivesse pintando, mas também como se encenasse, como se estivesse revivendo, como se pudesse recompor algo partido. O fato de ter escrito seu primeiro poema aos oito anos de idade, logo após a morte de seu pai – uma figura-chave de sua poesia, sempre representada por algo relacionado a abelhas, pois ele era um apaixonado pela apicultura – aponta a esse respeito. O mesmo acontece com A redoma de vidro . Seu único romance é um clássico do feminismo, sim, mas, acima de tudo, da literatura universal e de um niilismo apaixonado, nascido de uma neurose quase mística – ou o quão raro é ser um espectador de sua própria vida quando você não encontra sentido nela. Publicado apenas um mês antes de seu suicídio – tão morbidamente corriqueiro que pode condenar, e pode ter feito isso por muito tempo, tendo o seu trabalho apenas como um apêndice para sua pessoa infeliz e fascinante –, o trabalho retorna, em...

O entardecer de Peter Handke

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Por Miguel Morey “A terra nata está tomada pelos inimigos, desde sempre.” Peter Handke, Am Felsfenster morgens , 1998 1 Entre as características que inevitavelmente se destacam quando Peter Handke é apresentado ao público, ocupa o primeiro lugar sua vocação precoce como escritor, com igual ênfase nos dois aspectos. Assim, ele enfatiza tanto sua juventude incomum quanto a obstinação de sua vocação literária. Sua aparição pública como escritor, ele começa, data de quando tinha dezesseis anos; depois ele fala sobre sua estreia no ano 1966, com manifestações literárias diversas, incluindo um romance ( Die Hornissen ) e uma peça de teatro ( Der Jasager und der Neinsager ), e finda comentando sua intervenção inovadora no Congresso do Grupo 47, realizado naquele ano em Baltimore. O incidente é contado de várias maneiras, ainda que o clichê finde sendo o mesmo, o de um confronto com a velha guarda da literatura alemã e um desafio à literatura politizada e à fi...

Boletim Letras 360º #348

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O Letras in.verso e re.verso publica há 345 semanas as edições deste boletim que reúne as informações copiadas pela página do blog no Facebook: traços do mercado editorial com a literatura no Brasil, curiosidades e outros temas relacionados ao nosso circuito de interesses passam por aqui. Um informativo com notícias, acreditamos, melhores que as continuamente veiculadas noutras redes e nas mídias comuns. Boas leituras! A Editora Estação Liberdade publicará extensa parte da obra de Peter Handke. Segunda-feira, 14 de outubro A Editora Âyiné divulgou a primeira lista com as últimas publicações de 2019 . 1. Blues dos fins dos tempos , de Ian McEwan A humanidade sempre se deixou encantar pelas histórias que anunciavam sua destruição total: os últimos dias, o fim dos tempos, a extinção da vida no planeta. Hoje, a fantasia de um fim violento e coletivo ressurge nos movimentos apocalípticos: pacíficos ou belicosos, muçulmanos ou cristãos, mas todos capazes de influenc...

O engajamento docente

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Por Rafael Kafka Ilustração: Fernando Cobelo O engajamento dentro da filosofia existencialista é algo simples em essência, mas profundo no tocante à tomada de decisão. Por isso mesmo, ele é síntese de temor e tremor, pois somos confrontados com a ideia de condenação à liberdade em uma realidade que não nos deixa ser livres de maneira absoluta. O menor de nossos gestos é uma mudança do mundo, é uma forma de desafiar o concreto da realidade a qual nos circunda para obtermos o que queremos. Penso que O que é a literatura? , de Jean-Paul Sartre, seja uma bela síntese desse engajamento existencial. O escritor engajado é tão somente aquele que encara a realidade a sua frente e decide falar sobre ela, mostrá-la, provocar o seu leitor a também encarar e sentir os fatos exibidos ali. Um escritor que silencia diante da violência é um sujeito que deixa clara sua posição política sobre a violência. O engajamento da obra de arte literária é bem elucidativo inclusive de uma éti...

O supermacho, de Alfred Jarry

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Por Pedro Fernandes O título do romance de Alfred Jerry dificilmente não levará o leitor ao termo utilizado por Nietzsche para designar o que ele compreendia como um modelo ideal de homem capaz de com ele elevar toda a humanidade. O supermacho foi publicado em 1902 e o filósofo alemão havia morrido dois anos antes; logo, as relações não serão gratuitas, se considerarmos o impacto que foram as ideias do autor para o pensamento, além das evidências um tanto óbvias do romance. Para Nietzsche, o super-homem não poderia se unir a outro ser humano que não fosse igualmente superior; o amor é impedimento ao bom senso. Neste homem, de educação eugênica, no sentido de melhoria da condição humana, corpo e alma aprenderiam a obedecer; o super-homem seria, por fim, aquele capaz de se elevar além dos limites estabelecidos pela normalidade. Quem tiver lido o romance do escritor francês, logo poderá recuperar a sentença de André Marcueil, o supermacho, segundo o qual “Fazer amor é ...