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Boletim Letras 360º #418

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  DO EDITOR   1. Saudações, leitor! Antes de irmos para as notícias quero compartilhar uma das novidades pensadas para este ano de 2021 aqui no blog. A novidade foi apresentada na conta do Letras no Twitter na sexta-feira, 19.   2.  Há muito que o Letras publica vez ou outra leituras sobre obras da literatura brasileira fixadas num tempo remoto que nos favorece tratá-las por clássicas.   3. Agora, decidimos que toda última quinta-feira do mês será dedicada a uma dessas obras da literatura brasileira.   4. Citando o que disse minha conta no Twitter no início deste ano: a motivação para tanto é tripla: é preciso balancear o excesso de contemporaneidade; é fundamental construir caminhos por fora da persistência ardilosa do cânone capitalista; é importante ler nossos antepassados a fim de observar o que nos dizem a este presente tresloucado.   5. A sequência de textos começa a ser publicada aqui na próxima quinta-feira, 25 fev. '21, com um clássico que ...

Elizabeth Hardwick: lições de estilo

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Por Antonio Muñoz Molina Elizabeth Hardwick. Foto: Susan Wood.   Notei pela primeira vez o nome Elizabeth Hardwick em um ensaio de David Shields que me impressionou muito, Reality Hunger [Fome de realidade]. Em tom polêmico, e tecendo as páginas do que chamou de “um manifesto”, com todo tipo de citações e fragmentos de livros, reunidos como uma colagem, Shields propôs uma literatura que, para captar mais plenamente o imediatismo da realidade, a variedade e desordem do presente, escapava às formas tradicionais do romance ou das memórias, ou misturava-as sem cerimônia, acrescentando também vestígios do ensaio, do jornal, da crônica do jornal. A “fome de realidade” de um leitor contemporâneo, disse Shields, não pode mais ser satisfeita por gêneros literários estabelecidos, estagnados, fechados em si mesmos, inclinados a uma coerência interna que exclui o aleatório, o fragmentário, o material barato e confuso de nossa experiência mundial.   O livro de Shields me influenciou mais ...

A tirania do amor, de Cristovão Tezza

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  Por Pedro Fernandes   O périplo por um dia daqueles capazes de nos jogar à cara todo o nosso passado e revirar o que acreditávamos ser o curso estável da existência. Esta poderia ser uma síntese sobre A tirania do amor , de Cristovão Tezza. Um meticuloso narrador que se apaga corriqueiramente a fim de permitir a correnteza da consciência de sua personagem principal, esta que também costuma se meter nos fluxos alheios e atribuir vozes próprias, se desenvolve interessado em, à maneira de sua personagem, reconstituir milimetricamente a sucessão de episódios que começa a meio da noite de um dia e escorre para a noite do dia seguinte e encontrar entre eles qual a peça faltante, o dispositivo desencadeador das circunstâncias ou mesmo qual o seu papel para tanto. Enquanto se engalfinha na rotina do que seria apenas um dia a mais no trabalho da repartição, Otávio Espinhosa, o homem dos números, não deixa de oferecer qual a objetividade do seu itinerário mental circunscrito em três t...

Joan Margarit

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“Escrevo para consolar os solitários, que somos todos nós” Joan Margarit. Foto: Adrian Costa   Nascido em Sanaüja em 1938, Joan Margarit não é apenas considerado um dos poetas catalães mais lidos, é também o mais premiado: em 1985 recebeu o Prêmio Carles Riba, em 2008 o Prêmio Nacional de Literatura da Generalitat de Catalunha; no mesmo ano, recebeu o Prêmio Nacional de Poesia e o Prêmio Rosalía de Castro. Em 2013, foi premiado no México com o Prêmio Poetas do Mundo Latino junto com o poeta José Emilio Pacheco. Depois, vieram o Prêmio Pablo Neruda (2017), o Rainha Sofía de Poesia (2019) e o maior galardão das letras espanholas, o Prêmio Cervantes (2019).   Entre os falantes hispânicos não são poucos os que mesmo sem ter lido o poeta alguma vez terão repetido seus famosos versos “A liberdade é uma livraria. / Ir sem documentos. / As canções proibidas. / Uma forma de amor, a liberdade”. Pertencentes ao poema “Liberdade”, esses versos não só ilustram como Margarit é lido, mas co...

Tu mostrarás: a tradução da Bíblia Hebraica por Robert Alter

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Por Tal Goldfajn Detalhe de capa da nova tradução para a Bíblia Hebraica por Robert Alter.   A nova tradução de Robert Alter para a Bíblia Hebraica, o Antigo Testamento, é um belo exemplo de não apenas por que a tradução importa mas também de como a tradução importa. Traduções da Bíblia para o inglês proliferaram no século XX, com cada tradutor (ou grupo de tradutores) tendo geralmente em vista um público denominacional, mas também partilhando de um objetivo comum: prover uma versão sensível às mudanças que o inglês experimentou desde a época do Rei James. O eminente crítico literário e tradutor Robert Alter recentemente completou, após mais de duas décadas de trabalho individual, uma nova tradução da Bíblia Hebraica para o inglês que abrange três volumes (totalizando 3.500 páginas) e inclui um aparato crítico essencial. A nova Bíblia inglesa de Alter é marcada e influenciada pela notável presença de suas predecessoras, em particular a Bíblia King James de 1611, mas também pelas ...

Poeta total

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Por Eduardo Milán Augusto de Campos. Foto: Fernando Lazslo   1. Questão de justiça   A história da poesia latino-americana é também a história da supremacia da língua espanhola sobre a língua portuguesa. Supremacia como isolamento, isolamento como marginalização. Consciente de sua singularidade à força, de sua alteridade caída do céu imperial, a cultura brasileira assumiu sua deriva periférica, seu impureza numa pureza suspeitosamente impura e igualmente mestiça que se encontrava deixada de lado.   Ensimesmada como um caracol consciente de sua alteridade caracol começou a trabalhar seu próprio ruído de mar. Resultado: no século XX, dois dos maiores momentos da cultura latino-americana ― a Semana de Arte Moderna de 1922 e a fundação do movimento da Poesia Concreta em 1956. O primeiro esplendor foi produzido por artistas como Manuel Bandeira, Oswald de Andrade, Tarsila do Amaral, Mario de Andrade, Patrícia Galvão “Pagu”, Carlos Drummond de Andrade, entre os mais important...