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Vidas de romancista

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Por Antonio Muñoz Molina Philip Roth. Foto: Ethan Hill   Nos últimos anos de sua vida, absolvido por decisão própria da urgência de escrever, Philip Roth aprendeu a desfrutar de algo que nunca havia conhecido antes, o simples prazer de não fazer nada. Em sua casa de campo, que havia sido por quase meio século o mosteiro de sua dedicação disciplinar à literatura, ele agora olhava pela janela a paisagem, os pássaros cruzando o céu, ouvindo por muito tempo a chuva ou o vento nas folhas daquelas árvores monumentais da América. Na biografia de Roth, recentemente publicada e recentemente proibida, Blake Bailey tem o prazer de se recriar ao contar esse penúltimo tempo, antes da devastação final da doença, em que o romancista que nunca se concedeu um dia de trégua — nem o mundo o concedeu — aceita a velhice e adquire um pouco de paz de espírito.   O leitor da biografia também aprecia esses momentos de descanso. Contar a vida inteira de Philip Roth deve ter sido quase tão exaustiv...

A ausência, de Peter Handke

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Por Pedro Fernandes Peter Handke. Foto: Franck Ferville   A convencionada literatura de invenção, constituída das alternativas de fuga dos protocolos realistas, alberga uma lista de criadores que, centrados na dinâmica da linguagem e da enunciação, almejam quase sempre justificar seus objetos não como extensões dialogantes com o mundo exterior, mas mundos autênticos. Uma dessas maneiras criativas é a de se apropriar de recursos possíveis noutras expressões que lidam com a mimesis, tais como o teatro e o cinema. No caso do Peter Handke autor de A ausência , romance que se situa entre os últimos da sua primeira fase literária, o que verificamos é o contínuo exercício de adiamento do enredo e o acurado interesse pela imagem, duas técnicas, podemos assim dizer, derivadas dos modos ficcionais dramáticos. O resultado é uma sintaxe narrativa bastante específica voltada não para o interesse de contar uma história mas propor histórias possíveis.   Se comumente se associa um recur...

Dois ensaios de Louise Glück e um comentário

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Por João Arthur Macieira  William Scott. Sem título , 1970. A persistência da poesia estadunidense   Como coloca Gilles Deleuze, há uma espécie de sonho traído na literatura estadunidense. Sua definição é de uma “sociedade dos camaradas” e seu sentido é a produção de uma linha de fuga para fora dos horizontes europeus constituídos até o século XIX. Quando pensamos numa poesia como a de Walt Whitman, principalmente na construção do narrador de Folhas de Relva , isso é bastante evidente. Também a literatura e o cinema do século XX — os romances de Jack Kerouac ou os filmes de Jim Jamusch — revisitam os temas que essencialmente já estavam lá em Whitman.   Mas o que dizer do século XXI ou mesmo das últimas décadas do século XX? Ainda é possível, depois da tomada de consciência dos Estados Unidos como um império capitalista em franco declínio diante do presente, ler aquelas ideias a sério? Não só as “massas” — se é que ainda pode-se usar esse termo pouco razoável sociologicam...

Joseph Brodsky

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Por Ernesto Hernández Busto Joseph Brodsky. Leningrado, 1972. Foto: Lev Poliakov. Na primavera de 1972, Joseph Brodsky saiu da Rússia com um livro de John Donne na bagagem. Nesta imagem podemos depositar, talvez, alguns dos precoces desenvolvimentos de um poeta que, apenas cumprido os 32 anos, descobre o tema da velhice. Dedicará a John Donne sua “Quase uma elegia”¹, o primeiro de seus poemas importantes e também seu primeiro poema publicado na Rússia tão logo se confirma o eclipse de seus censores. Como uma herança do poeta inglês, Brodsky arrastará sempre o gosto pelo paradoxo, uma impureza de origem que recorda aquela “sombra do motivo impuro” que T. S. Eliot, com a severidade mestra, impunha sobre Donne. Para trás ficava o Império, adiante, as ilhas: a medida dessa perda (“ato que iguala a Deus com os humanos”) é incomensurável. Durante muito tempo as experiências poéticas de Brodsky não serão novidades, apenas o prolongamento memorioso de sua vivência russa: o grande exemplo é a a...

Lazarilho de Tormes ou a astúcia do anti-herói

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Por Joaquim Serra Lázaro de Tormes, um pícaro – palavra que remete a ajudante de cozinha –, é o astuto, o sagaz, o velhaco. Na novela espanhola, não há como desassociar o pícaro de suas características. Lazarilho de Tormes , o protótipo do gênero picaresco, é a novela que daria origem a várias outras que viriam depois como Guzmán de Alfarache , de Mateo Alemán e El Buscón , de Francisco de Quevedo. Mas Lazarilho de Tormes teria um reconhecimento além por conta de suas estruturas narrativas próprias; segundo Mario González, “sem dúvida, o que mais importa para a história da literatura com relação a Lazarillo de Tormes é a profunda inovação que a obra apresenta em termos de modalidade narrativa: o texto anônimo é uma das raízes do romance” (p. 194). Para Lázaro, anti-herói do protótipo da novela picaresca, escrever em uma carta sua biografia para “Vossa Mercê”, carta em que tenta justificar sua vida e suas ações, parece um ato tão descompromissado a ponto de contar ao leitor as diversa...

Dez poemas e fragmentos de Safo

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Por Pedro Belo Clara   Afresco de uma jovem nomeada Safo. Pompeia, 55-79 d. C. Se passares por Creta 1 vem ao templo sagrado, onde mais grato é o pomar de macieiras e do altar sobe um perfume de incenso.   Aqui, onde a sombra é a das rosas, no meio dos ramos escorre a água, e no rumor das folhas vem o sono.   Aqui, no prado onde todas as flores da primavera abrem e os cavalos pastam, a brisa traz um aroma de mel. …   Vem, Cípris 2 , a fronte cingida, e nas taças de oiro voluptuosamente entorna o claro vinho e a alegria.     ***     E de súbito a madrugada de sandálias de oiro.     ***     No ramo alto, alta no ramo mais alto, a maçã vermelha ali ficou esquecida. Esquecida? Não, em vão tentaram colhê-la.     ***     Vésper 3 , tu juntas tudo quanto dispersa a luminosa aurora, trazes a ovelha, trazes a cabra, só à mãe não trazes a filha.     ***     Desejo e ardo.     ***   ...