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A invenção de Drácula

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Por José de la Colina Cena de Drácula , filme de Tod Browning (1931). O vampiro humano sempre ressuscitado, o dândi noturno chupa-sangue, o príncipe universal da Transilvânia, o temível e agradável personagem que seria multiplicado por Hollywood e outras cinematografias, ou seja, o Conde Drácula, apareceu pela primeira vez no final do século XIX com o romance de um escritor nada ou quase nada conhecido: Bram Stoker. Mas, se sabe que, durante séculos e com ou sem nomes diferentes, o sinistro anti-herói vinha sendo auto-engendrado através das superstições arcaicas, dos folclores orais antigos e das literaturas populares e outras mais destacadas, como por exemplo: no  Satiricon , de Petrônio; n’ As mil e uma noites  (de Sherezade?); no  Dicionário Filosófico , de Voltaire; em  Smarra , de Nodier; em  A noiva de Corinto , de Goethe; no  Manuscrito encontrado em Zaragoza , de Potocki;  Vampirismus , de E. T. A. Hoffmann;  O vampiro , atribuíd...

Efêmeras notas para a efeméride de Fagundes Varela

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Por Fábio Roberto Ferreira Barreto Fagundes Varela. Arquivo: Biblioteca Nacional / Reprodução.                 Dissensos entre especialistas   Em edição especial do “Suplemento Literário” da Folha da Manhã , por ocasião das comemorações do centenário de nascimento de Fagundes Varela, Mucio Leão acertadamente escreveu sobre o poeta: “Ele é adorado por alguns; é negado e detestado por outros” ( Folha da Manhã , 24.08.1941, p. 25).   O literato Murilo Mendes — naquela mesma publicação — é elogioso: “Considero Fagundes Varela um dos maiores do Brasil, dos mais autênticos” ( Folha da Manhã , 24.08.1941, p. 32). Reconhecido especialista em literatura, o professor Antonio Carlos Secchin — no início do Século XXI —, prefaciando antologia que ele mesmo organizou, se junta ao coro: “Não haveria exagero em perceber na sua poesia a mais complexa construção literária de nosso Romantismo” (SECCHIN, 2005, p. 7).   José Veríssimo, por sua v...

O amor e o mundo: tensões entre a permanência e o efêmero em Emily L., de Marguerite Duras

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Por André Cupone Gatti Marguerite Duras (1914 - 1996), seja em seus filmes, seja em seus livros de ficção, tematizou o amor como uma dolorosa resistência ao mundo. Escrevendo quase sempre a partir do universo sentimental feminino, a autora soube construir uma obra ficcional fortemente influenciada por sua biografia e pelas ideias do nouveau roman ; soube, porém, acima de tudo, valendo-se de voz particular, imergir no limbo dos relacionamentos amorosos e representá-lo em relação à sua contraparte caótica, o mundo, a História. Inquieta quanto à busca das possibilidades representativas, formalizou tanto no cinema quanto na literatura os signos da passagem, da memória e da melancolia. Certa vez me disseram que o cinema de Duras é muito literário, e a sua literatura é muito cinematográfica. Apesar de ser uma visão superficial e generalista, há nisso alguma verdade: o formalismo extremo dos seus filmes carrega como contrapeso a fluidez das narrações em off ou das contínuas conversações; por ...

Boletim Letras 360º #444

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DO EDITOR   1. Caro leitor, aqui estão as notícias que circularam nos últimos dias na página do Letras no Facebook e a atualização das demais seções deste Boletim, com outras dicas de leituras e informações.   2. Nossa campanha para arrecadar fundos para cobrir despesas com o domínio e a hospedagem do Letras na web , continua (há informações  aqui no Facebook   e   aqui no  Instagram .)   3. A todos que acompanham o blog e de alguma maneira ajudaram até agora, muito obrigado! E, obrigado sempre, pela companhia! Patricio Pron. Foto: Jeosm.     LANÇAMENTOS Uma antologia para recolocar a obra de Olga Savary em circulação .   Olga Savary não foi uma, mas várias: a poeta movida pela natureza do Pará, seu estado natal; a praticante de haicais; a autora dividida entre a carne e a imaginação. Esta antologia cobre toda a carreira da escritora, apresenta de forma panorâmica todas as suas múltiplas vertentes e oferece uma nova porta de entrada pa...

Clarice Lispector: a liberdade

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Por Gisela Kozak Rovero Clarice Lispector. Foto: Correio da manhã . Arquivo Nacional.   Quantos escritores na casa dos vinte anos gostariam de se dar ao luxo de escrever em um romance de estreia uma indagação tão radical sobre a liberdade como a feita por Joana, a protagonista de Perto do coração selvagem (1944): “O que seria então aquela sensação de força contida, pronta para rebentar em violência, aquela sede de empregá-la de olhos fechados, inteira, com a segurança irrefletida de uma fera? Não era no mal apenas que alguém podia respirar sem medo, aceitando o ar e os pulmões? Nem o prazer me daria tanto prazer quanto o mal, pensava ela surpreendida. Sentia dentro de si um animal perfeito, cheio de inconsequências, de egoísmo e vitalidade.” Nos anos quarenta, tempo de uma guerra cujas consequências moldaram o planeta, Clarice Lispector (1920-1977) se pergunta, com espírito nietzschiano, sobre os limites da moral, esses limites que no caso da mulher implicam se...

Viagem ao fim da noite, de Louis-Ferdinand Céline

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  Por Pedro Fernandes Louis-Ferdinand Céline. Foto: François Pages.   Os romances que melhor dizem de nós são os escritos sem quaisquer toques melodramáticos porque apenas assim não se contaminam com os limites impostos pela força do egocentrismo que nos regula mesmo quando acreditamos libertos dela. Machado de Assis, por exemplo, fez uso — para recuperar uma expressão sua muito adequada — da pena da galhofa. Esse tom, o escritor brasileiro encontra a partir de uma posição nenhum um pouco irmanada aos de seu tempo; ele propositalmente os trapaceia, qual o homem do subsolo, de Dostoiévski, não porque os renegue, mas porque motivado por visão desencantada desse mundo em que apenas na aparência se manifesta razoavelmente ideal prefere reconhecê-los à contrapelo.   No caso de Viagem ao fim da noite , o desconcerto interior encontra forte correspondente com o exterior e traga qualquer possibilidade de uma mínima noção de idealismo. Isso significa dizer que, ao contrário do rec...