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Risque esta palavra, de Ana Martins Marques

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Por Pedro Fernandes Ana Martins Marques. Foto: Mauro Figa.   O livro de estreia de Ana Martins Marques, A vida submarina , demonstra uma poeta ciosa do seu ofício. Poderá parecer lugar-comum a afirmativa, mas só agora, com um olho na obra em curso e o outro no título de 2009 reeditado uma década depois é que melhor conseguimos compreendê-la. Esqueçamos a inegável ansiedade pela palavra e a irregularidade do livro. Inegável porque visível nas dimensões que escapam à convencional brevidade de peças do tipo — A vida submarina é um livro robusto — e irregular porque feito do uso de múltiplas técnicas composicionais. Essas características são agora parte de um trabalho que se torna uma referência indispensável a quem se interessar por compreender melhor o funcionamento do universo poético estabelecido pela poeta.   Em Risque esta palavra — um título que instaura o paradoxo de afirmação do poema pela negação da palavra — descobrimos um livro que repara muitos dos interesses manif...

Roberto Calasso

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Por Gabriel Bernal Granados Roberto Calasso. Foto: Ferdinando-Scianna.   A maior parte dos textos publicados em decorrência da morte de Roberto Calasso reflete, além de seu lado criativo, o trabalho editorial que desenvolveu à frente da Adelphi por pelo menos quatro décadas. Parece-me um equívoco não compreender que sua obra editorial é um distanciamento natural da obra de escritor, que foi alimentada, do primeiro ao último dos livros publicados, por uma curiosidade intelectual insaciável.   Na verdade, a vida de Calasso poderia ser dividida em dois grandes ciclos. O primeiro seria marcado pelo profundo interesse que despertou, em sua juventude, o mundo das ideias ocidentais (filosofia, psicanálise, teoria do capital); e o segundo, pela amplitude incomensurável que sua obra se desdobra diante de nossos olhos como criador de paisagens fragmentadas ou em ruínas.  Desde os primeiros livros se anuncia já a vontade, tão profundamente nele enraizada, tão legítima, proveni...

O asno de ouro, de Apuleio

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Por Joaquim Serra Lúcio, o narrador de O asno de ouro , está viajando para Tessália e vê dois homens conversando. Muito curioso, interpela os viajantes e quer saber do que eles falam. Um desses homens, Aristômenes, começa a contar algo inacreditável. A história diz respeito a um tal de Sócrates, que é encontrado por Aristômenes na rua. Sujo, malvestido, Sócrates conta sua história ao companheiro: fora enganado pela amante feiticeira, que tem a fama de transformar pessoas em animais. Tudo parece um devaneio do pobre Sócrates; melhor talvez fosse dormir para esquecer o tal acontecido. Assim fazem Aristômenes e Sócrates. No cume da noite, a feiticeira e sua irmã aparecem para exigir do amor foragido algo que só poderia ser pago com a vida. Assim é feito. A feiticeira atravessa a garganta de Sócrates com uma espada, poupando Aristômenes para que ele possa servir de coveiro ao companheiro. As mulheres desaparecem, deixando Aristômenes em uma situação difícil: como explicar a garganta corta...

Um mistério chamado Carmen Laforet

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Por Anna Caballé Carmen Laforet. Arquivo do Estado Espanhol. Carmen Laforet, outra vez. Este é o ano do centenário de seu nascimento, ocorrido no dia 6 de setembro, em Barcelona, ​​em um apartamento da rua Aribau para o qual voltaria ainda jovem, fugindo de uma experiência familiar incômoda e que ficaria famosa depois de Nada . Seu pai, Eduardo Laforet, um arquiteto atraente e sedutor, casou-se poucos meses depois de ficar viúvo de Teodora Díaz, mãe dos três filhos do casal, e a situação em Las Palmas, onde a família vivia desde 1923, se tornou notável porque era um homem muito conhecido na cidade. No entanto, o ciúme e a tensão entre a nova esposa e os filhos ainda muito pequenos de Teodora fizeram essa nova aventura conjugal uma experiência difícil.   Jean-Paul Sartre escreveu sobre a falta de amor de Flaubert na infância: “Quando o amor está presente, a massa do espírito se eleva e, quando está ausente, ela afunda”. Foi o que aconteceu, pelo menos em parte, na família Laforet, e...

Boletim Letras 360º #446

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    DO EDITOR   1. Caro leitor, esta é a última semana da campanha para arrecadar fundos a fim de cobrir nossas despesas com o domínio e a hospedagem do Letras na web — há informações  aqui no Facebook   e   aqui no  Instagram . Ainda faltam alguns dólares, mas vamos nos virar com o que temos e a possibilidade de ajudar ficará aberta continuamente.     2. A todos que ajudaram até aqui — e não foram poucos —, não importa como, reitero em nome do blog todos os agradecimentos externalizados pessoalmente, aqui, nos contatos e nas redes. Aguardamos a chegada de alguns livros prometidos por algumas editoras para organizar uma promoção entre os contribuintes; será outra maneira de dizer obrigado.   3. Abaixo, as notícias que passaram pela página do blog no Facebook durante a semana e as demais dicas nas outras seções deste Boletim. Boas leituras! Enzo Maqueira. Foto: Pedro Montero   LANÇAMENTOS   Noir argentino de Enzo Maqueira che...

Ler é o passatempo mais bonito criado pela humanidade

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Por Azahara Alonso Wisława Szymborska. Foto: SIPA   Alguns bibliófilos são tão intensos quanto os escritores. Neles coexistem as forças exemplares de quem ama os livros — desculpem a analogia — do centro e à margem, da criação à recepção: da escrita à leitura. Quase sempre partem deste último e a familiaridade com as letras acaba levando-os a tentar um papel mais ativo, criador e interessado em alcançar o cume do mundo literário. Confundem, felizmente, o pertencimento de um livro: é mais seu o que compraram ou o que escreveram? Sentem-se melhor definidos como consumidores ou como produtores da palavra escrita? Confusões e dilemas, os mencionados, sem necessidade real de resolução: também podemos viver sem uma resposta a este respeito.   A observação e a conversa, pelo menos, satisfazem parte de nossa curiosidade. Uma pergunta direta convida a uma resposta igualmente simples: se tivessem que escolher, os escritores prefeririam escrever ou ler? Embora Mark Twain (ou Benjamin Dis...