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Boletim Letras 360º #523

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DO EDITOR   1. Queremos realizar o próximo sorteio entre os apoiadores do blog no próximo dia 7 de março de 2023. Até lá é possível se inscrever para concorrer a um dos dois livros disponibilizados: Lições , de Ian McEwan (Companhia das Letras) e Aniquilar , de Michel Houellebecq (Alfaguara).   2. Para registrar seu apoio é simples. Basta enviar a partir de R$20 através do PIX blogletras@yahoo.com.br e em seguida fornecer o comprovante por este mesmo endereço de e-mail. Se quiser outros detalhes, acesse aqui .   3. Outra forma de apoio a este projeto é a aquisição de qualquer um dos livros apresentados pelos links ofertados neste Boletim ou mesmo qualquer produto que você adquirir online, use este link .     4. Um fim de semana excepcional e com boas leituras. Juan Pablo Villalobos. Foto: David Ramírez.   LANÇAMENTOS   No novo romance de Juan Pablo Villalobos dois imigrantes precisam lidar com uma dura crise existencial em meio a burocracias, teoria...

William Faulkner foi um mau carteiro

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Por Rafael Ruiz Pleguezuelos William Faulkner. Foto: Henri Cartier Bresson.   Uma batalha entre Hemingway e Faulkner, na minha imaginação, é como um daqueles blockbuster que coloca Godzilla contra um bando de zumbis. Algo atraente, mas também ridículo. Muito já foi escrito sobre a animosidade de Faulkner contra aquele ilusionista de frases curtas chamado Ernest Hemingway. Saber a origem da rivalidade é fácil: Hemingway representa tudo o que Faulkner não é, e vice-versa. Suas duas escritas, quando comparadas, tendem a se odiar. E temos que assumir isso como leitores. Você está de um lado ou de outro. Eu gosto dos dois, mas se você realmente quer encontrar seu caminho na literatura, não é uma escolha lógica.   Hemingway começou a trabalhar para um daqueles jornais cujo nome parece destinado a aparecer em algum filme de Hollywood dos anos 1950: o Kansas City Star , e começou a colaborar com eles quando tinha apenas dezessete anos, porque seu tio Tyler o apresentou a esse mundo um...

Em torno do “Silêncio na era do ruído”, de Erling Kagge

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Por Maria Vaz Erling Kagge Foto: Thomas Ekström   De capa pálida em letras claras. Chamou-me a atenção a ideia antitética que dá nome ao livro. Desfolhei as páginas e pude ler uma escrita pragmática mas, ao mesmo tempo, provinda de alguém que busca a raiz das coisas ou das ‘não-coisas’ que nos enredam naquilo que está além de nós e nos supera.   Confesso que quando adquiri o livro desconhecia que o seu autor fosse um grande aventureiro e explorador, que viajou por alguns dos locais mais inóspitos do planeta, muitas vezes sozinho. Depois percebi que, além de ser jurista, a dada altura trocou o direito pelo estudo de filosofia em Cambridge e que, mais tarde, abriu uma editora na Noruega, ao mesmo tempo que se iniciou na escrita sobre as suas viagens e sobre a arte, que considera uma das suas grandes paixões. Pronto, a partir daí ganhei uma certa empatia com ele: gosto de direito, filosofia, arte, viagens e de escrever.   Quando percebi que a paixão do autor pelas viagens er...

A ilha de Bergman, de Mia Hansen-Løve

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Por Pedro Fernandes Não é mais uma novidade o cinema buscar nas suas próprias referências os materiais de sua composição. Um procedimento que resulta tão antigo como a história dessa arte, no entanto, se fez uma recorrência entre as produções no entre-séculos XX e XXI. Como em todo caso, nem sempre isso é qualidade, principalmente, quando o cineasta decide se aproximar de obras idiossincráticas, que participam na constituição do cânone cinematográfico. Nesses casos, é recorrente se cair na homenagem reiterativa como o aluno que ao invés de acrescentar ao aprendizado oferecido pelo mestre apenas repete seus procedimentos.   Felizmente, nada disso acontece com A ilha de Bergman , por muito que se sublinhe em várias passagens da narrativa, certo culto que o diretor sueco inspira na cinefilia. Nem é possível fixar o filme de Mia Hansen-Løve como uma pura homenagem à Ingmar Bergman, porque sua qualidade, nesse território, é uma celebração a atividade criativa, e nesta, o cinema. Isto é...

A caixa do apocalipse

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Por Christopher Domínguez Michael   Louis-Ferdinand Céline. Arquivo Pierre Duverger/ IMEC Images Em novembro de 1961, Lucie, também conhecida como Lucette, a viúva de Céline, colocou uma inscrição no túmulo de seu marido no cemitério de Meudon que dizia: “Louis-Ferdinand Céline / Docteur L. F. Destouches / 1894-1961 / Lucie Destouches / Née Almansor / 1912-19…” Ao gravar esses nomes e essas datas, a mulher que foi companheira do escritor desde 1943 não sabia que sua própria vida continuaria no século XXI. A morte de Lucette, ocorrida a 8 de novembro de 2019, permitiria se concluir a viagem de uma caixa de manuscritos desaparecida em 1944 e que continha, juntamente com outros valiosos documentos pessoais, Guerre , Londres , La volonté du roi Krogold e Casse-pipe (1952), este último em sua versão definitiva. A editora Gallimard publicou os dois primeiros romances em 2022, totalmente inéditos, e anuncia que, em 2023, fará o mesmo com os outros dois livros.   Nos anos oitenta,...

Charles Simic, contra os monstros da solenidade

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Por José Pulido   Alguém  poderia compor uma autobiografia com cada uma das comidas memoráveis de sua existência e talvez resultaria mais interessante que as autobiografias comuns. Com toda honestidade, o você preferiria ler: a descrição de um primeiro beijo ou a de um repolho recheado feito à perfeição?   — Charles Simic Charles Simic. Foto: Scott Cook.     Fazia dois anos que estava na Cidade do México quando, em 2014, vi no Bellas Artes uma homenagem pelo centenário do nascimento Octavio Paz. Tratava-se de uma leitura de poesia onde participaram amigos do poeta homenageado. Estavam Wole Soyinka, Derek Walcott, Valerio Magrelli, Lasse Söderberg, Ida Vitale, Pura López Colomé, José Luis Rivas, Fabio Morábito, o grande David Huerta, Rafael Vargas e Charles Simic.   Ainda hoje recordo meu entusiasmo. Eram escritores que admirava, e admiro. Ante a comum solenidade dos mexicanos se impôs a poesia jocosa e as anedotas vívidas de Söderberg e Simic. Noutro tempo,...