Postagens

Seis poemas de Robert Frost

Imagem
Por Pedro Belo Clara (Seleção e versões) Robert Frost. Foto: Alfred Eisenstaedt   CEIFANDO ( A Boy’s Will , 1913)   Nada se ouvia junto à mata, sendo isto a excepção: A minha gadanha à terra sussurrando. Que era que sussurrava? Não saberei dizer; Talvez o sol e seu calor fosse a questão, Talvez que nenhum som se estava escutando – E por isso sussurrava na vez de falar. Não foi nenhum sonho de dádiva das horas ociosas, Ou oiro fácil nas mãos de fada ou elfo a resplandecer: Algo mais que a verdade iria decerto fraquejar Diante do sincero amor que em filas a vala colocou, Não sem arrancar os frágeis picos de flores vaidosas (Pálidas orquídeas), e assustar uma cobra de verde avivado. O facto é o mais doce sonho que o labor experimentou. A minha gadanha sussurrou e o feno por fazer foi deixado.     REPARANDO O MURO ( North of Boston , 1914)   Há algo que não morre de amores por muros, Que faz o chão congelado inchar debaixo deles, E desarranja os pedregulhos do top...

Boletim Letras 360º #527

Imagem
DO EDITOR   1. Olá, leitores, desta vez, passamos apenas para deixar o recado de costume: sobre as possibilidades de apoio ao Letras .   2. Nosso projeto é feito e distribuído gratuitamente, mas precisamos pagar despesas mínimas para a manutenção do blog online, como domínio e hospedagem. E, para isso, a sua ajuda é importante. Para descobrir todas as formas de colaborar, basta ir aqui .   3. Entre essas formas de apoio, está a aquisição de qualquer um dos livros apresentados neste Boletim pelos links nele ofertados ou mesmo qualquer produto adquirido online usando este link .     4. Deixamos o desejo de um excelente final de semana, com boas leituras e algum descanso. Elizabeth Bishop. Foto: Yale Collection of American Literature.   LANÇAMENTOS   A vida de Elizabeth Bishop em uma prosa arrebatadora .   “A arte de perder não é nenhum mistério”, vaticinou Elizabeth Bishop em “Uma arte”, um dos seus poemas mais conhecidos. Nesta biografia fascina...

Johnny vai à guerra, Dalton Trumbo

Imagem
Por Bruno Botto Dalton Trumbo. Foto: Bettmann. Dalton Trumbo lança Johnny vai à guerra no dia 3 de setembro de 1939, dois dias depois do começo da Segunda Guerra Mundial. Para um livro com a proposta de ser pacifista é uma baita ironia. Mas nem Trumbo na década de 30, poderia prever que tal livro deveria resistir às várias intervenções militares estadunidenses nas décadas seguintes. Afinal, a paz parecia uma fruta ainda meio verde para a maioria do mundo no começo do século XX.   Para quem possa achar que Trumbo era um desses escritores panfletários vazios, ele foi um dos célebres roteiristas da época de ouro de Hollywood dos anos 1930 e 1940; roteirizou filmes como Trinta segundos sobre Tóquio (1944), Roman Holiday (1953) e Spartacus (1960).   No final dos anos quarenta e começo dos anos cinquenta, Hollywood decretou caça às bruxas aos comunistas e Dalton Trumbo, que era filiado do Partido Comunista dos Estados Unidos, entrou para a lista negra; deliberadamente esquecid...

Quando ela era boa, de Philip Roth

Imagem
Por Pedro Fernandes Philip Roth. Foto: Inge Morath.   Antes de publicar When She Was Good , em 1967, Philip Roth já era autor de outros dois livros: Goodbye, Columbus and Five Short Stories (1959) e Letting Go (1962). É ainda um escritor interessado em explorar o folhetinesco ou à procura do grande romance. O leitor custa se integrar no universo dos acontecimentos porque, como criança aprendendo a andar, um narrador titubeia sem saber ao certo como caminhará. Enquanto nos adaptamos ao sobre o que irá contar , eis outro problema, ele nos oferece um complexo enredamento de núcleos familiares, cada um, com múltiplas personagens e múltiplos enredos. Somente quando encontra um dos fios e o elege como principal é que nos situamos e podemos melhor acompanhar os passos muito precisos da narração que não se descuida de alinhavar os aparentes fios desconexos do começo. Tudo isso serve para dizer como este romance constitui um sério exercício de aprendizagem que resultará o engenhoso Portno...

A revolução como imagem de paz: “Agitação”, de Cyril Schäublin

Imagem
Por Alonso Díaz de la Vega   O diretor multinacional Fritz Lang disse que todo grande filme está contido na primeira cena. Também me lembro que o autor estadunidense John Steinbeck disse que os melhores romances podem ser resumidos em uma frase. Se for esse o caso, Agitação ( Unrest , 2022), do cineasta suíço Cyril Schäublin, pode ser descrito como uma resposta insubordinada a um famoso lugar-comum: “Tempo é dinheiro”. A frase foi repetida tanto que pode ter perdido seu impacto. Para a maioria, é apenas uma forma de apressar as pessoas para entregar um pedido, terminar de montar um produto ou enviar um e-mail para convocar imediatamente uma reunião de trabalho, mas suas implicações são encontradas em cada um destes exemplos: pensar que tempo é dinheiro significa dar mais importância para as receitas do que para o trânsito de cada um por uma dimensão que causa marcas e memórias, significa submeter as maravilhas da natureza ao desejo de explorar os seus recursos e os trabalhadores ...

Sobrevivência da poesia

Imagem
Por Michael Hamburger Foto: Masao Yamamoto   Nas últimas décadas, houve menos controvérsias sobre “a morte da poesia” do que sobre “a morte do romance”. Uma explicação óbvia é que os romances recebem mais atenção de qualquer maneira porque podem se tornar best-sellers ou serem adaptados para o teatro, cinema, rádio ou televisão. Outra é que a poesia era considerada um anacronismo já no início do século XIX, no início da Revolução Industrial, quando Thomas Carlyle declarou que a poesia não poderia ter nenhuma função real no que ele chamou de “Era Mecânica”. Sua previsão, é claro, carecia da dialética necessária para acomodar o movimento romântico com seus ímpetos antimecânicos e antirrealistas, e seu retorno aos paradigmas não apenas pré-industriais, mas pré-literários: baladas, canções folclóricas e contos de fadas.   Agora, durante a Segunda Revolução Industrial — a eletrônica —, é a alfabetização e não o analfabetismo que ameaça a sobrevivência da poesia, embora não a da li...