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Stephen Crane e a comunidade leitora

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Por Pablo Medel   Stephen Crane, fotografia de estúdio, Atenas, 1897. Arquivo Universidade Syracuse.   Estamos em Nova York. Final do século XIX. 1890, para ser mais exato. Enquanto no centro de Manhattan estão sendo levantadas as primeiras pedras do que será o majestoso Carnegie Hall, nos bairros do sul as ruas do Bowery afundam cada vez mais na miséria. Pelo local, um garoto desengonçado de 19 anos de Nova Jersey, um tanto rebelde e apaixonado por beisebol, vagueia em busca de histórias. Ele trabalha como redator no New York Tribune por recomendação de um de seus quatorze irmãos. O jovem Stephen Crane acaba de abandonar a escola pela segunda vez, mas desta vez o faz dominado por uma certeza: quer ser escritor.   É mais do que provável que Stephen Crane carregue debaixo do braço uma cópia do novo romance que Émile Zola acaba de publicar. O título, A besta humana , define perfeitamente o movimento literário defendido pelo naturalista francês do outro lado do Atlântico. ...

Três grandes escritores ucranianos de agora (3)

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Por Mercedes Monmany Yuri Andrujovich Foto: Kateryna Lashchykova   Desde o início do século atual, dois escritores do que outrora se chamava Leste Europeu e que hoje são considerados os gênios mais inspirados vindos daquelas latitudes, até bem pouco tempo envoltos nas trevas de uma ignorância extraplanetária (“vindos daquelas regiões nebulosas, daquelas que os manuais e livros raramente falam, cada vez tinha que recomeçar do início; mesmo que seja difícil, ou doloroso, explicar quem sou, é preciso tentar”, dizia com tristeza o grande poeta polonês Czesław Miłosz no início do seu livro Minha Europa ) têm estado entre os mais privilegiados na hora de se difundir através de várias e sempre esplêndidas obras.   Um seria o polonês Andrzej Stasiuk (Varsóvia, 1960) e outro o ucraniano Yuri Andrujovich (Ivano-Frankivsk, 1960). Amigos e cúmplices literários, separados por uma tênue fronteira que outrora os unia, ambos começaram como poetas e se movem como peixes na água, indistintament...

Boletim Letras 360º #543

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Albert Camus. Foto: Daniel Fallot LANÇAMENTOS   Em uma reunião de 34 textos de palestras de Albert Camus, Conferências e discursos: 1937–1958 é uma excelente porta de entrada ao pensamento camusiano e uma introdução a um dos gênios filosóficos mais influentes do século XX .   Não há melhor forma de reconhecer a imagem que Albert Camus tinha de incansável, artífice das palavras e implacável do que em seus discursos. Além de gênio do pensamento filosófico e da escrita, Camus era mestre da oratória. Conferências e discursos reúne 34 textos de palestras de Albert Camus realizadas entre 1937 e 1958, incluindo “O tempo dos assassinos” ― preparado para ser apresentado em diversas cidades no Brasil em 1949. De uma palestra a outra, o autor argelino oferece um diagnóstico do que chama de “crise do homem”, esforçando-se para devolver a voz e a dignidade àqueles que foram privados delas ao longo de meio século pelas mais variadas formas de violência. Para ele, era a própria civilizaçã...

O livro predestinado: os Ensaios de Michel de Montaigne

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Por Pablo Sol Mora   A leitura tem seus fados, que obram misteriosa e, por vezes, providencialmente. Algum deles decidiu que eu leria, no mesmo ano, o Livro do desassossego e os Ensaios de Montaigne, a obra da desolação e a obra da ventura. Com os Ensaios chegamos ao coração destas memórias porque se trata, talvez, da leitura decisiva da minha vida. De certa forma, creio que todas as minhas leituras anteriores foram apenas uma série de passos prévios para chegar a esta, e se de todos os livros que li tivesse que escolher apenas um, provavelmente seria este.   É um fenômeno raro e que não necessariamente ocorre com todos os leitores, incluindo aqueles que muito leram: encontrar o livro, aquele que nos define e marca por inteiro. É um momento único, privilegiado, aquele em que o leitor encontra seu livro e o livro, seu leitor. Sempre gostei da ideia, de que fala Piglia em Alvo noturno , do livro predestinado , aquele que parece feito para nós, pessoalmente, e que pode estar n...

Dor fantasma, de Rafael Gallo

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Por Pedro Fernandes Rafael Gallo. Foto: Bruno Colaço   A literatura brasileira em curso é bastante diversa, embora isso não corresponda com a qualidade, principalmente no romance. A razão para o problema talvez ainda precise ser observada, descrita e analisada com melhor profundidade em tempo oportuno, muito embora seja possível designar a partir de um convívio breve com os livros que nos alcançam porque conseguem encontrar um lugar fora do pequeno raio do reduto de convívio do próprio autor que o problema reside em certa atitude servil dos escritores aos ditames do mercado, muitas vezes por uma necessidade perversa da subsistência e noutras por se deixar cooptar pela dama estéril da fama. Escreve-se para leitores interessados na literatura como um eco de suas próprias inquietações ou ainda construir pequenas zonas de conforto onde possam se reconhecer positivamente fora da condição a qual estão destinados num país como o Brasil.   Se um dos males da diversidade é o de retarda...