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José Gorostiza para o novo século

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Por Luis Bugarini   A poesia é um bem social que se materializa quando os versos entram em contato com o leitor. Nos registros poéticos mais felizes, nos marcos distinguíveis à primeira vista na profusa história da criação literária — digamos, as obras de Ausiàs March ou Du Fu —, o instante poético é uma operação de inteligência e não uma mera manifestação emocional de seu autor, o que requer uma ação idêntica para se comunicar com seus potenciais destinatários.   1 Luz e poesia   Na leitura da poesia mais elevada, duas inteligências se olham para falar a partir de uma distância fora do tempo, independentemente de o poeta estar morto há quinhentos anos ou ter apenas vinte anos.   Essa operação encontra-se hoje em crise. Tudo se opõe à leitura e pior ainda se for aquela que exige amor ao detalhe. O tempo vigente exige habilidades para se concentrar e abandonar as intermináveis ​​preocupações e distrações da vida ultramoderna: chame-se dispositivos eletrônicos com qu...

Martin Walser: o escritor e o polemista

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Por Judith Kunze Martin Walser. Foto: Felix Kaestle   “Pode-se dizer que é a compulsão constante de não deixar que a dor incessante da existência tenha a última palavra.” Esta frase de um dos mais importantes romancistas alemães do pós-guerra, Martin Walser — nascido em 1927 em Wasserburg e falecido no final de julho de 2023 em Überlingen — é talvez o que ilustra mais claramente a estrutura das suas personagens literárias, anti-heróis que lutam com conflitos internos, vivenciam decepções, enganam-se, fogem e fracassam.   No entanto, a maioria das pessoas associará Martin Walser a uma figura altamente controversa que defendia veementemente as suas opiniões em público. Assim, muitos se lembrarão da grande disputa mediática com Marcel Reich-Ranicki, desencadeada pelo seu romance de 2002, Morte de um crítico , ou pelo seu discurso em Frankfurt, em 1998.   O comprometimento político de Walser foi mais do que a “percepção de um tema obrigatório”, como chamava o próprio autor, s...

Boletim Letras 360º #552

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DO EDITOR   1. Olá, leitores! Nesta semana, ficou disponível dois outros livros para venda no nosso pequeno bazar, realizado desde há quatros com o interesse de arrecadar fundos para custeio do domínio e hospedagem deste blog na web . Saiba destes e de outros títulos por aqui . Caso não consigam aceder ao Facebook, podem solicitar as informações que precisarem pelo nosso e-mail blogletras@yahoo.com.br   2. Confira ainda outras maneiras de ajudar ; e, lembramos mais adiante, uma dessas maneiras é a aquisição de quaisquer livros pelos links disponibilizados neste boletim e nas nossas redes ou ainda a aquisição de quaisquer outros produtos neste endereço. 3. Agradecemos a todos que seguem conosco fazem este projeto permanecer online da maneira como acontece hoje, livre, independente. Italo Calvino. Foto: Pepe Fernandez LANÇAMENTOS   No mês de centenário de Italo Calvino, dois livros inéditos do escritor .   1. Italo Calvino por ele mesmo. Um volume monumental de entrev...

Confissões de um leitor de 2h a 2h15 p. m.

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Por Juan Carlos Onetti William Faulkner. Foto: Henri Cartier-Bresson   Meu primeiro encontro com Faulkner foi peripatético. Esse início que parece promissor de arrepios nada mais é do que a imagem, a lembrança de um pequeno acidente, de uma coincidência. Uma tarde, ao sair do escritório onde trabalhava, passei numa livraria e comprei o último número da Sur , revista fundada e mantida por Victoria Ocampo. Acho que o nome foi sugerido por Ortega y Gasset. A intenção do título foi desvirtuada porque Sur se tornou — felizmente — um instrumento que nos permitiu conhecer o melhor da literatura europeia e dos Estados Unidos.   Foi, repito, uma coincidência porque lia a revista esporadicamente porque os poemas que publicava eram intercambiáveis. Ou seja: colecionava poemas que pareciam ser todos de um mesmo autor. Quantas vezes fingi ler os poemas de qualquer número da revista e, escondendo o nome do poeta, perguntar quem era o autor. Foi uma piada e uma tortura para os amigos. ...

Pureza, de Garth Greenwell

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Por Sérgio Linard Garth Greenwell. Foto:  Bill Adams “Para meus padrões americanos, G. estava atrasado”¹. Os padrões americanos do protagonista de Pureza , de Garth Greenwell, são os que guiam este professor de literatura, abertamente homossexual, vivendo na Bulgária, país conhecido por sua intolerância com índices de diversidade sexual. É importante o destaque deste tipo de padrão, desde já, porque é este o padrão de concepção das situações que o romance persegue e que é explorado a cada capítulo.   Pureza é um texto que, como muitos da mesma seara, recorre a uma temática em alta na contemporaneidade com vistas a uma construção literária com certos níveis de representatividade e de enredo psicológico minimamente angustiantes comum a qualquer grupo que esteja fora dos espectros hegemônicos da sociedade atual. Contudo, antes que adentremos a questões mais específicas sobre erros e acertos dessa obra de Greenwell, vejamos, brevemente, do que se trata o romance.   Pois be...

Terror solar: os novos cenários do medo em plena luz

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Por Cristina Jurado   Daylight is nobody’s friend.  God comes in like a landlord  and flashes on his brassy lamp. — Anne Sexton Frame de Midsommar  (2019).   Você já se perguntou qual foi a primeira vez que sentiu medo? No meu caso, eu devia ter uns sete anos e, mesmo agora, enquanto escrevo, não consigo deixar de estremecer ao lembrar disso. Acontecia à noite, quando ia dormir. Demorava-me o máximo possível para atrasar aquele momento e, como já tinha aprendido a ler, usava os livros como desculpa para ficar acordada o maior tempo possível. Mas chegava a hora que minha mãe vinha me dizer que era hora de dormir e apagava a luz. Depois, eu ficava de olhos abertos na cama, examinando as sombras. Nesse momento, minha imaginação notava pequenos detalhes na escuridão do meu quarto: uma peça de roupa pendurada no cabide que parecia assumir forma humana; o rosto do palhaço no topo da estante, cujo olhar eu tinha certeza de que estava me seguindo, ou a porta do armário...