Postagens

O escritor de fundo de quintal que sonhava enriquecer nos cassinos

Imagem
Por Martín Sacristan   A fama de Roald Dahl como autor de histórias infantis eclipsou a sua outra faceta, a de contador de histórias para adultos, na qual foi um verdadeiro inovador. Conectando-se tão bem com a psicologia humana que muitas de suas histórias foram repetidas e divulgadas sem nem saber que foi ele quem as inventou. Como assassinar seu marido com uma perna de cordeiro congelada e depois servi-la ao policial que investiga o crime para eliminar a arma. Ou que um determinado restaurante só muito ocasionalmente serve um requintado prato de cordeiro, coincidindo com o desaparecimento de um dos seus clientes habituais, sempre solteiro e sem família. Poderíamos citar dezenas de exemplos, mas vale a pena parar em um deles, que Wes Anderson acaba de trazer à atualidade. Demonstrando o fascínio que Dahl ainda exerce sobre todos nós, direta ou indiretamente. Mas também demonstrando a presença na sociedade de um fator muito britânico, o jogo, ao qual os casinos online internaciona...

Coetzee: o coração da história

Imagem
Por Rafael Narbona J. M. Coetzee. Foto: Bert Nienhuis.   Misturar literatura e vida nunca é fácil. Se coexistirem no mesmo texto, podem interferir ou desfigurar-se mutuamente. No entanto, se conseguirem unir-se, poderão revelar-nos a camada mais profunda da nossa cultura. Coetzee realizou esse feito em Foe , romance publicado em 1983. Foe não é um simples palimpsesto que recria a história de Robinson Crusoé a partir da perspectiva de uma mulher. Não se trata de literatura sobre literatura, mas de uma tripla investigação, onde se especula sobre a civilização, a escrita e a criação artística.   Quando Susan Barton é abandonada por uma tripulação amotinada, seu barco chega acidentalmente à Ilha de Crusoé. Acompanhado pela Sexta-Feira, o homem que ali está não é um colonizador, mas um náufrago que sobrevive apaticamente, contentando-se em construir inúteis lavouras, onde pode semear sementes inexistentes. Não é essa mente cartesiana que Michel Tournier recria em Sexta-feira ...

Coleção de areia, de Italo Calvino

Imagem
Por Alfonso D’Aquino Italo Calvino. Foto: Emilio Ronchini.   Nesta coleção de artigos jornalísticos sobre diversos temas — exposições, livros, viagens —, Italo Calvino, além de autor, é também leitor e protagonista, e o mundo é o livro pelo qual este metódico e curioso viaja para encontrar e depois mostrar certos destaques em que a realidade e a fantasia confluem de tal forma que surge a dúvida sobre o que pertence a uma ou outra área. E uma vez localizados esses pontos vitais, Calvino tem prazer em desvendar, com paixão e erudição, as sempre surpreendentes relações entre o seu tema específico e o resto das coisas, para estabelecer vínculos entre a cultura contemporânea e a história. É necessário acrescentar, embora não surpreenda ninguém, que Calvino não segue outro guia no mundo senão a imaginação.   Parece que a vasta e singular ideia de considerar o mundo como um livro ou como uma biblioteca corresponde, como gênero de escrita adequado para se referir às suas circunstânc...

Boletim Letras 360º #554

Imagem
Nelson Rodrigues. Foto: Arquivo O Globo LANÇAMENTOS   Livro reúne 25 histórias inéditas de A vida como ela é... , de Nelson Rodrigues . O escritor brasileiro estreou a coluna A vida como ela é... nos anos 1950 já com grande sucesso. Essas histórias de ciúme, obsessão, dilemas morais, inveja, desejos desgovernados, adultério e morte fascinaram os leitores da época e continuaram fazendo sucesso durante mais de setenta anos, provando ser um verdadeiro clássico. A popularidade dos textos é tamanha que sofreu inúmeras adaptações, passando das páginas do jornal a programa de rádio, fotonovela, filme, peça de teatro e até seriado para a televisão. A Nova Fronteira reuniu numa coletânea 25 histórias que permaneceram inéditas em livro.  Você pode comprar o livro aqui .   Colm Tóibín elabora um retrato ficcional da vida de Thomas Mann .   Crescendo entre os privilégios burgueses da Alemanha do início do século XX, o jovem Thomas Mann começa, não sem dificuldades, a embarca...

Notas sobre um estilo e uma visão do mundo

Imagem
Por Israel Paredes Graham Greene. Foto: Armstrong Jones Graham Greene formou-se como escritor na década de 1930 em um mundo literário permeado pelas novas formas do modernismo literário, que ele conheceu e admirou, mas do qual gradualmente se afastou em direção a um realismo metafórico mais existencial e ligado às emoções, menos maneirista, para seu gosto, do que os modos modernistas da época. Antes da Segunda Guerra Mundial, Greene já delineia nos seus romances o seu próprio mundo que antecipa, tanto em termos de estilo e temáticas, a sua produção literária pós-guerra e, sobretudo, estabelece uma visão do mundo que a partir de meados dos anos quarenta se intensificará e se aperfeiçoará. Desde cedo, o escritor diferencia sua obra entre entretenimento e romances sérios, obtendo sempre mais sucesso com os primeiros e conseguindo, ao longo dos anos, que esses adquirissem uma seriedade perfeitamente inserida nos parâmetros do romance popular em que trabalhava. Entre as margens da construçã...

Confissões de uma máscara, de Yukio Mishima

Imagem
Por Sérgio Linard Recentemente a Companhia das Letras anunciou em suas redes sociais que este livro estava retornando para as prateleiras depois de um bom tempo indisponível. Não há uma justificativa por parte da editora para essa decisão agora, nem mesmo uma explicação sobre o porquê de um dia o material ter parado de ser vendido. De todo modo, ganhamos com a oportunidade de conhecermos um dos textos mais elogiados da literatura japonesa, que é repleto de bastante vigor e pujança ainda que possua momentos monotônicos, mas que são muito bem-vindos exatamente por ajudarem a perceber a constância do sentimento de opressão enfrentado. Aquilo que poderia ser uma grande falha ou motivo para abandono da leitura, por exemplo, torna-se fôlego pertinente para a história.   Inicialmente, importa que eu faça aqui o destaque de que não considero a monotonia algo necessariamente ruim. Por muito tempo em nossas vidas é um ritmo único e constante que procuramos, é a estabilidade que almejamos. Ót...