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Estranha fruta

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Por Vicente Molina Foix   O filme começa com uma canção clássica do repertório sentimental, “Estranha forma de vida”, um fado que Amália Rodrigues cantou mas que aqui ouvimos na voz de Caetano Veloso, enquanto no tela vemos um belo jovem com um rosto bastante nórdico reinterpretando-a. Contudo, a miscelânea (ou geringonça, poderíamos dizer em homenagem luso-brasileira, palavra hoje muito usada pelos portugueses), essa miscelânea, digo, não cede lugar no filme de Pedro Almodóvar a uma das selvagens fusões formais e temáticas que o diretor de La Mancha tanto gosta e que tanto influenciou a cinematografia internacional nos últimos trinta anos.   Estranha forma de vida , ao contrário, é um breve western de câmara, um diálogo de amor comprimido e sem floreios, um pequeno poema elegíaco em que brilha comoventemente aquele “sentimento trágico de vida” ultimamente tão presente em sua filmografia. E vale destacar, aliás, que, sempre contrariando o que é habitual, Almodóvar, numa fas...

Poesia épica: a busca da imortalidade

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Por Raúl Rojas Já foi dito que toda filosofia tem sua origem no dilema da mortalidade humana. Ao contrário de qualquer outro animal, a razão nos torna conscientes da natureza transitória da nossa existência. Verdade ou não, o curioso é que o longo poema mais antigo que se conhece na literatura, a chamada Epopeia de Gilgámesh , se desenvolve justamente em torno desse tema, ou seja, o caminho para alcançar a vida eterna. O poema épico surgiu, fragmento por fragmento, como uma compilação das façanhas do mítico rei Gilgámesh, que se acredita ter governado a cidade suméria de Uruk no século 28 ou 27 a.C., tornando-se uma divindade nos séculos subsequentes. Pensa-se que grande parte da lenda de Gilgamesh foi transcrita gradualmente há cerca de 4 mil anos. Já nos tempos babilônicos, um escriba chamado Sîn-lēqi-unninni reuniu todas as histórias, com começo e fim, e essa é a versão que chegou até nós. A disposição do texto tem causado debates e objeções, uma vez que existem diversas transcriçõe...

Mundo escrito e mundo não escrito, de Italo Calvino

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Por Juan Malpartida Italo Calvino. Foto: Albert Negrin   A obra de Italo Calvino (Cuba 1923-Itália 1985) não está alheia às buscas estéticas de sua época, do neorrealismo às ideias derivadas de concepções estruturalistas e semióticas. Calvino foi um escritor para quem uma obra era um problema a ser resolvido e esse problema, em princípio, é de natureza formal. Poucos romancistas ou poetas do seu tempo consideraram a poética do romance e o significado do leitor de maneira tão profunda e contínua. E poucos a partir de uma atitude não sujeita a concepções prévias, mas auxiliada por uma busca aberta. Desta liberdade em relação à procura e ao respeito pela literatura — que nunca o levou a esquecer que a literatura é apenas uma dimensão parcial mas essencial da realidade — há um testemunho notável na sua correspondência de trabalho na editora Einaudi.   Em Mundo escrito e mundo não escrito , compilação de artigos, conferências e entrevistas resgatados por Mario Barenghi, encontram...

Boletim Letras 360º #555

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Jon Fosse. Foto: Tor Stenersen LANÇAMENTOS   Depois do Prêmio Nobel de Literatura, o próximo livro de Jon Fosse no Brasil .   Neste breve romance em que a atmosfera onírica se mescla à transcendência, um homem começa a dirigir sem rumo e, desconhecendo as próprias motivações, conduz seu carro até uma floresta. Logo escurece e começa a nevar. Obedecendo à lógica trágica e misteriosa que opera nos pesadelos — ou no encontro inescapável com o destino —, em vez de procurar ajuda, ele decide se aventurar pela mata escura, onde se depara com um ser de brancura reluzente. Como as vozes que o protagonista escuta em sua errância, tudo nesta breve narrativa é ao mesmo tempo estranho e excessivamente familiar. Num jogo de claro e escuro, concreto e sublime, Jon Fosse tensiona a escrita num fluxo de consciência que escala depressa para uma voltagem inesperada, tragando o leitor e fazendo-o experimentar fisicamente a radicalidade de seu projeto literário. Considerado um dos maiores escrit...

Jon Fosse

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Por Pedro Fernandes A literatura é mentir de maneira que seja verdade. —  Jon Fosse Jon Fosse. Foto: Tom A. Kolstad É provável que muitos leitores brasileiros tenham lido o nome de Jon Fosse pela primeira vez com Karl Ove Knausgård. O nome e de outros escritores nórdicos aparece no grandioso romance Minha luta , cuja estrutura parece dever alguma coisa das obras do agora Prêmio Nobel de Literatura: uma série composta por seis volumes como dois dos mais emblemáticos títulos de Fosse, Trilogia e Septologia , considerado pela crítica até agora a sua Magnum Opus . O curioso é que, quando a obra do assim referido Proust do século XXI chegou neste país de elevada carência editorial, alguns poucos já conheciam um livro de Fosse: o díptico  Melancolia .   Mas, no nosso idioma, ainda era possível encontrar uma generosa variedade de títulos no âmbito dos dois gêneros mais bem praticados por Jon Fosse: na prosa, os romances É a Aless (grafado sem um s na tradução que se publica ag...

Como si fuera esta noche la última vez

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Por David Toscana Edvard Munch. O Beijo .   Catulo escreveu seus poemas quando faltavam seis décadas para o nascimento de Cristo. Sentia uma grande atração por um menino chamado Juvêncio e dedicou-lhe um poema para expressar seu desejo de beijá-lo trezentas mil vezes. Aparentemente não conseguiu conter o desejo, pois num poema posterior fala de ter roubado um beijo de Juvêncio enquanto brincava, um suaviolum “mais doce que a ambrosia”. E ainda assim, o prazer se transforma em sofrimento, pois “mas não impune pois por uma hora ou mais/ me vi na ponta de uma estaca enfiado/ me desculpando, mas meus prantos não dobraram/ nem um tantinho da maldade tua”.   Juvêncio havia enxugado os seus “lábios, úmidos de muitas/ gotas, secaste com teus dedos todos,/ minha boca malsã não fosse qual saliva/ suja de meretriz em que se mija”. A doçura se transforma em amargura, ele se sente crucificado e aprende a lição: “Porque esta é a pena que atribuis a um triste amor,/ eu beijos nunca mais he...