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Wisława Szymborska e Kornel Filipowicz: as cartas de amor e humor entre a poeta e o romancista

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Por Nuria Azancot Wisława Szymborska e Kornel Filipowicz, 1973.   Anos mais tarde, quando Kornel Filipowicz (1913-1990) já havia morrido, a própria Wisława Szymborska (1923-2012) recordava, numa conferência em homenagem ao escritor, como o viu pela primeira vez “por volta de 1946 ou 1947. Não lembro onde estava, mas a impressão que causou em mim. Loiro grisalho, bronzeado, vestia calça azul e uma camisa de um maravilhoso amarelo claro. Pensei: ‘Meu Deus, que homem lindo.’ Mas esse encontro não teve consequências naquele momento. Durante muitos anos apenas nos olhamos de longe.”   Quando se reencontraram, em 1965, ela acabara de ler uma antologia de contos de Filipowicz intitulada Menina com uma boneca ou sobre a necessidade de tristeza e solidão e pensou: “Igual a mim. Eu também preciso de tristeza e solidão.” Mestre do conto e da novela, dizia-se que era o único autor polonês que aprendeu a escrever com Anton Tchekhov e que sua prosa, “concisa e magistral”, “não envelhece”, ...

Ricardo Piglia e o que fazer com desprolixidade do real

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Por Flavio Lo Presti Ricardo Piglia. Foto: Divulgação de 327 Cuadernos .   Quando Ricardo Piglia escreveu Respiração artificial era um jovem desencantado, num contexto assustador. Ele havia abandonado a revista Los Libros , ganhava a vida ministrando cursos particulares e tentava pensar numa questão que aparece obsessivamente na textura do romance: como narrar acontecimentos reais? Ao seu redor, Rodolfo Walsh e Haroldo Conti haviam desaparecido, e um aparato de censura tão difuso quanto ameaçador, filtrava as produções culturais, obrigando as pessoas a escreverem sem assinatura, ou com nomes falsos. Essa experiência se combina com uma sensação registrada literalmente no romance ora citado: a de escrever “porcaria”, o fracasso diante do mandato (não destinado por ninguém além dele mesmo) de ser escritor.   Com essa sensação, uma imagem começou a se transformar no germe do romance que foi inicialmente intitulado com um verso de Jorge Luis Borges, A prolixidade do real : a de u...

Hlynur Palmason e a dissolução agônica

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Por Jorge Ayala Blanco   Em Terra de Deus (Vanskabte Land/ Volaða land, Dinamarca-Islândia-Suécia-França, 2022), o desarmante terceiro filme do autor dinamarquês Hlynur Pálmason ( Irmãos do inverno , 2012; Um dia muito claro , 2019), Lucas (Elliott Crosset Hove, exausto), um jovem padre dinamarquês do século XIX é enviado no meio de um verão sem noites para construir a primeira igreja no sul da implacável Islândia e opta por fazer a viagem por terra desde o norte para tirar fotos enquanto anda, com a ajuda de um tradutor (Hilmar Gudjonsson) e o difícil guia de patriarcal barba branca em parte inacessível Ragnar (Ingvar Eggert Sigurdsson).   Os três completam a façanha de uma jornada através de planícies, montanhas íngremes, rios caudalosos e horizontes que desaparecem, embora entrando em crise físico-moral ao longo da jornada e desabando em agonia, mas conseguindo ressuscitar no porão do bem-adaptado agricultor Carl (Jacob Lohmann), sendo bem cuidado pela filha mais nova ai...

“Os 120 dias de Sodoma”. A história do manuscrito maldito do marquês de Sade

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Por Marta Ailouti Marquês de Sade. Desenho de Charles Amédée Philippe van Loo, 1760   Todos os dias, das sete às dez da noite e à luz de velas, trancado na sua cela na Torre da Liberdade da Bastilha, onde fora preso em 1784 como castigo pela sua depravação, o Marquês de Sade dedicava todos os seus esforços para escrever o que muitos mais tarde descreveram como o “Evangelho do Mal”, Os 120 dias de Sodoma ou a escola da libertinagem , uma história sobre quatro nobres e ricos degenerados que planejavam uma orgia de quatro meses com 32 subordinados, muitos adolescentes e sequestrados entre as classes mais baixas.   “Quando chegava ao fim de uma página”, diz o escritor e editor Joel Warner, “ele colava outra logo abaixo para criar um pergaminho cada vez mais longo. Depois de vinte e duas noites, virou o documento e continuou a escrever. O resultado, após trinta e sete dias de trabalho, foi um rolo composto por trinta e três folhas de papel coladas de uma ponta à outra, com apenas d...

O ministério da verdade

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Por Daniel Gascón   No início de 2017, 1984 , de George Orwell (1903-1950), voltou à lista dos mais vendidos. Quatro anos antes, também estivera na mesma lista da Amazon, quando as revelações de Edward Snowden sobre a NSA, a Agência de Segurança Nacional dos Estados Unidos, foram tornadas públicas. Em 2017, após a vitória de Donald Trump nas eleições presidenciais estadunidenses e a popularização da expressão “fatos alternativos” fenômenos para os quais muitos comentadores recorreram ao adjetivo orwelliano , que nem sempre significava o mesmo e isso provavelmente teria surpreendido Eric Blair, o verdadeiro nome do autor do livro em evidência.   Richard Rorty escreveu em Contingência, ironia e solidariedade que Orwell alcançou reconhecimento porque escreveu exatamente os livros certos na hora certa. De toda maneira, este sucesso veio quase no fim de uma curta vida, com A fazenda dos animais e 1984 . Antes disso, publicou vários romances e livros jornalísticos, e escreveu mui...

Boletim Letras 360º #563

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José Saramago em registro de percurso promocional do seu livro Viagem a Portugal , abril de 1981. Foto: Arquivo da revista Blimunda . LANÇAMENTOS Edição inédita de  Viagem a Portugal , com material fotográfico de autoria de José Saramago, mapas com itinerários sugeridos pelo escritor e texto de 1999 nunca antes publicado no Brasil .   Ao longo dos anos,  Viagem a Portugal  já ganhou diferentes edições. Esta, porém, é a primeira composta apenas de fotografias tiradas pelo próprio José Saramago. As imagens, assim como o texto, são as memórias de sua jornada pelo país em que nasceu. A convite do Círculo de Leitores, clube do livro que comemorava o décimo aniversário de sua criação em Portugal, Saramago viajou pelas terras lusitanas por quase seis meses. O relato é transposto nesta obra com o distanciamento do narrador em terceira pessoa, que descreve os deslocamentos de um “viajante” no tempo e no espaço, a conhecer pessoas, paisagens e construções desde Trás-os-Montes ...