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Boletim Letras 360º #611

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Carlos Drummond de Andrade. Foto: Lena Muggiati LANÇAMENTOS   Obra reúne pela primeira vez crônicas de Carlos Drummond de Andrade originalmente publicadas no antigo jornal carioca Correio da Manhã , entre 1954 e 1969 .   A antologia é composta de 150 crônicas do poeta, cronista e contista Carlos Drummond de Andrade, nunca vistas em livro. Estes textos, publicados entre 1954 e 1969 nas páginas do antigo jornal carioca que durante a ditadura militar, foi perseguido e fechado em diversas ocasiões ficaram por quase três quartos de século no vasto acervo pessoal do autor. Organizada pelo também cronista Luís Henrique Pellanda, a obra funciona como uma lente que amplia nossa compreensão acerca do tempo e do cotidiano, refletindo a visão de Drummond sobre o século XX. Pellanda observa, no texto de apresentação à edição, que o cronista é, em essência, “um cortejador de acasos”, e que, apesar de o período em que foram escritas estar claramente marcado nas crônicas, Drummond, mesmo à ...

Mortes de intelectual

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Por Violeta Leiva Sebastian Stoskopff. Até que ponto a nossa ocupação determina a forma como morremos? Deixando de lado os acidentes de trabalho, é mais provável que um vendedor de enciclopédia se engasgue com um camarão do que um toureiro? É sabido que há uma multiplicidade de fatores condicionados pelo trabalho — exposição a substâncias tóxicas, stress, esgotamento físico, sedentarismo, hábitos alimentares etc. — que acabam por ter uma influência mais ou menos direta, para bem ou para mal, da maneira como terminaremos nossos dias.   Poderíamos pensar que as ocupações intelectuais, por não implicarem à primeira vista um risco físico significativo, têm pouca influência nos fins daqueles que as realizam. Talvez a corroboração de uma estatística que não possuo não seja necessária para confirmar que o trabalho intelectual é, no entanto, uma atividade de alto risco. As dificuldades e resistências enfrentadas por quem se esforça para preencher páginas e páginas — seja o resultado um gra...

É a Ales, de Jon Fosse

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Por Pedro Fernandes Jon Fosse. Foto: Ole Berg-Rusten   Depois de vários anos inteiramente dedicados à escrita para o palco, Jon Fosse regressa à prosa ficcional com É a Ales ; àquela altura, somava mais de sete dezenas de títulos, incluindo poesia, novela e livros para a literatura infantil e era reconhecido um dos dramaturgos mais importantes do seu tempo e entre os vivos um dos mais representados no mundo. O destaque no teatro parece constituir uma marca importante no restante do seu universo criativo e dizemos isso considerando este romance de 2004.   Uma das incursões de Fernando Pessoa pelo teatro, O marinheiro , se tornou exemplo para o que ele próprio designou como teatro estático, “cujo enredo dramático não constitui ação — isto é, onde as figuras não só não agem, porque nem se deslocam nem dialogam sobre deslocarem-se, mas nem sequer têm sentidos capazes de produzir uma ação; onde não conflito nem perfeito enredo.” 1 O designativo do poeta português cai bem par...

Morte por pós-produção

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Por Diego Cuevas Adrien Brody em Além da linha vermelha .   A anedota é bastante popular: em dezembro de 1998, Adrien Brody compareceu à exibição para a imprensa em Nova York de um filme chamado Além da linha vermelha , dirigido por Terrence Malick. O ator sentou-se pela primeira vez assistindo ao filme bastante animado, sem ter visto anteriormente nada do material filmado, mas feliz porque em teoria seu papel no filme era muito importante para a história. A participação nesse projeto significou frequentar um treinamento militar, onde passou sete noites dormindo no meio da selva em uma pequena barraca, muitas semanas de filmagens dando o melhor de si e vestindo todos os dias um uniforme que “nunca se se movimentaram para lavar." Depois de tanto trabalho, e depois de esperar alguns meses para que a pós-produção fizesse a sua parte, Brody finalmente estava prestes a assistir com os jornalistas um corte preliminar do filme, uma versão de duzentos e quinze minutos que Malick nem havi...

Morte em pleno verão, de Yukio Mishima

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Por Eduardo Galeno Mishima por Kishin Shinoyama em A morte de um homem .   Mishima se forma dentro de mim como um autor que, quando leio, sinto um mecanismo sem limites de prazer textual. O seu repertório em descrever e narrar situações humanas é encontrado vastamente nas miúças. Minha introdução na prosa dele, me lembro, foi Vida à venda , algo de insultuoso em relação à vivência do cotidiano, praticado por um jovem, dormente, determinado a se matar por um preço. O livro é quase do fim da existência de Hiraoka — Kimitake Hiraoka é o nome verdadeiro — e excedeu, para mim, justamente nesse apanhado de histórias em que alguns tipos são desenvolvidos. Muitas espécies de jogo narrativo — rítmico, inclusive —, personagens e ideias estão remexendo no que ele escreveu. É um quadrado de exposições, possivelmente vindo através da fusão conceitual da totalidade poética de Mishima, que vai ganhando corpo durante a leitura.   Morte em pleno verão confere uma severidade tremenda, que as...