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Interpretando Dom Quixote

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Por Juan Montes Quixote leitor de novelas de cavalaria. Juan Salvador Carmona, José del Castilho. Biblioteca Nacional da Espanha. Quando o fidalgo que passa a se chamar Dom Quixote de La Mancha deixa sua aldeia em busca de aventuras, fama e glória, transformado em um cavaleiro andante, ele se encontra clinicamente louco ou se trata de uma alma livre, um rebelde radical que busca abandonar sua existência monótona e cinzenta para viver outra vida, uma vida fictícia melhor, mais emocionante, completa e feliz do que a vida real?   Uma leitura cuidadosa do Dom Quixote sugere que a segunda possibilidade tem mais um toque de verdade do que a primeira.   Cervantes repetidamente chama Dom Quixote de louco e declara reiteradas vezes seu desejo de enterrar de uma vez por todas o crédito e a fama dos livros de cavalaria com as disparatadas histórias de seu cavaleiro. Mas as entrelinhas deixam dúvidas sobre as verdadeiras intenções do novelista, esse grande comediante e bufão que zombava d...

Boletim Letras 360º #628

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    DO EDITOR   Olá, leitores! Sabiam que as suas chances de ganhar um livro do nosso Clube de Apoios aumentaram? Pois é. Todo mês temos um livro que pode ser seu. O próximo sorteio será de um exemplar dos contos de  Morte em pleno verão , do escritor japonês Yukio Mishima. O lembrete está aqui, neste comentário, mas está também à esquerda desta página. Saiba todos os detalhes de como participar aqui . Um excelente Carnaval para vocês! José Donoso. Foto: Ulf Andersen LANÇAMENTOS   Numa retomada da publicação da obra de José Donoso começada pela Mundaréu, o romance O lugar sem limites. El Olivo, cidadezinha do interior chileno que perdeu seu ramal ferroviário e ainda espera a chegada da luz elétrica, é um testemunho do abandono e do poder de Alejo Cruz, senador e proprietário das terras e parreirais da região. A decadência se reflete no bordel local, que vive da lembrança de farras  passadas e é gerido por Manuela e sua filha Japonesita. As únicas coisas vív...

“Ninguém quer” e a reconstrução da masculinidade

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Por Rafael Kafka Me vejo numa mesa após me exercitar fisicamente e observo com atenção a conversa que os homens, todos mais velhos que eu, mantêm. Nesse espaço em geral eu cultivo a postura de ouvinte por ser um ambiente bem conservador e eu hoje preservar minha saúde mental. O diálogo gira em torno do fato de que hoje os homens não podem mais ser homens.   — Deram tanto direito às mulheres, são tantas coisas que não podem mais, que agora a gente não consegue mais chegar numa mulher sem medo de ser acusado de assédio.   Como alguém em celibato não me preocupo muito com essa questão. Mas lembro de que já passei por experiências em que ultrapassei os limites estabelecidos por uma pessoa do gênero feminino. A priori, eu não entendia bem qual era meu erro e foi preciso muito tempo de leitura e escuta empática para entender o que fiz.   Eu ouvia aquela fala angustiada de um conhecido e pensava em como eu era e em como ainda havia em mim resquícios daquele modo de ser. Pensa...

Para acabar com tudo, de Gonzalo Unamuno

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Por Pedro Fernandes Gonzalo Unamuno. Foto: Maxi Falla Muitas vezes a literatura lembra que o espírito de uma época não morre com o fim de uma era, aspectos variados se distendem e ocupam algum lugar nos tempos vigentes. E as transformações desse espírito também não estão circunscritas nas frágeis fronteiras de um povo mas são inerentes do humano, ainda que entre nós se manifestem de maneira consciente, propositada ou com a imprecisa rapidez.   Quanto da natureza primitiva dos primeiros homens se manteve na força incendiária dos gregos que passou às civilizações seguintes até nos alcançar e se imiscuir entre as nossas vidas cotidianas? Não é possível determinar, mas um ávido leitor conseguirá vislumbrar certas permanências no que para alguns é apenas um traço inerente a tempos pregressos.   Para acabar com tudo , de Gonzalo Unamuno, reaviva o tédio dos nossos dias, este que é sustentado em parte pela interminável espera da novidade, enquanto perscruta uma saída incendiária à ma...

O dinheiro e Cem anos de solidão

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Por Rubén Díaz Caviedes   Gabriel García Márquez queria que fosse feito um filme sobre O outono do patriarca , mas não queria que qualquer um o dirigisse. Tinha que ser feito por Akira Kurosawa. Sua determinação foi tanta que ele chegou a fazer a proposta pessoalmente durante uma longa conversa que os dois tiveram em Tóquio, em outubro de 1990, cujos trechos foram posteriormente publicados no Los Angeles Times . “Se você puder, quiser e tiver a ideia”, ele disse ao cineasta japonês, “pode fazer com esse livro o que quiser. Acho que o único que pode fazer cinema com esse livro é alguém como você, então faça o que quiser. Acho que é impossível adaptá-lo para o cinema. Repensá-lo como cinema em uma cultura completamente diferente, acredito sim que é possível, se for uma pessoa como você.”   O diretor de Às portas do inferno e Os sete samurais afirmou que ainda estava finalizando seu último filme, Rapsódia em agosto , e escapou da armadilha prometendo pensar um pouco sobre o as...

A cidade das mulheres, de Christine de Pizan

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Por Eduardo Galeno     Esses testaram o Horizonte — E desapareceram Pássaros antes de cumprir A Latitude.   Nossa Retrospectiva Deles Prazer pousado, Nossa Antecipação — Dúvida — Dado —   (Emily Dickinson) Christine de Pizan recebe a dama da Justiça. Iluminura do manuscrito A cidade das mulheres , de Genebra.   Frequentemente, as histórias sobre as mulheres são submetidas à intenção de corroborar genealogias do pensamento feminino. A cidade das mulheres ( La cité des dames ) confirma a tese. Desde o século XV, a autora vem sendo um marco para se notar a contribuição fora do cânone, ou seja, um plano que trace o pioneirismo de figuras não tão reconhecidas pela historiografia das letras. Christine de Pizan, assim como eu faço a partir do texto — tecendo sobre ela —, é uma historiadora da mulher. Bem, mas como? A partir do princípio de arqueologia de seus feitos, sejam fictícios ou reais. Aliás, sejamos claros: a maior característica da produção da veneziana ass...