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Deus na escuridão, de Valter Hugo Mãe

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Por Gabriella Kelmer  Valter Hugo Mãe. Foto: Paulo Pimenta O romance mais recente de Valter Hugo Mãe no Brasil, Deus na escuridão , leva o selo da editora Biblioteca Azul e foi lançado em 2024, tendo como temáticas centrais o amor familiar e o amor divino, sendo os dois correspondentes ao longo da obra. A narrativa é inaugurada com o nascimento de Serafim, mais comumente chamado de Pouquinho, menino nascido “sem as origens” (metáfora elucidada no mesmo período pelo uso de outra, que diz ter vindo ele “mordido entre as pernas”).  O romance é elaborado do ponto de vista do filho mais velho da família, Paulinho, o Felicíssimo, cuja perspectiva fraterna e protetora circunda a existência castrada do irmão, moldando-se a ela. Dividida em três partes, chamadas “O nascimento de Pouquinho”, “O evangelho segundo aqueles que sofrem” e “Felicíssimo irmão”, a obra acompanha momentos diferentes da relação entre os irmãos. Serve a primeira seção, mais longa, de introdução ao nascimento de Po...

Auta de Souza: a indelével mediocridade

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Por Márcio de Lima Dantas Et comme il savourait sur tout les sombres choses, Quand, dans la chambre nue aux persiennes closes — Artur Rimbaud Mas perdi-me ao seguir a criançada — Bruno Tolentino 1. Prelúdio: andante Também não gosto. Lendo-a, no entanto, com total desprezo, a gente  acaba descobrindo nela, afinal de contas, um lugar para o genuíno. — Marianne Moore Até parece que a poeta americana escreveu este poema pensando na poeta norte-rio-grandense Auta de Souza (12.09.1876 – 07.02.1901). Poucos são os que a leram com atenção, porém vasto o número dos que apreciam a poesia do seu único livro publicado em vida: Horto . No âmbito da nossa crítica universitária, é unânime o desprezo pela obra da poeta, embora no entourage dos meios indigitados oficiais o nome dela seja citado como uma das potentes vozes da lírica do estado. Contudo, um olhar mais acurado sobre o conjunto da sua obra talvez revelasse coisas para além dos clichés , sem muita reflexão, que lhe são atri...

Boletim Letras 360º #677

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DO EDITOR Renovo os agradecimentos aos autores que até o dia 25 de janeiro enviaram as suas candidaturas para os novos colunistas no Letras . Durante a semana que agora termina foi encerrada a análise das propostas e os selecionados ou não já receberam através dos seus correios eletrônicos as respostas. Cumpriu-se, assim, o previsto dentro dos prazos. A partir de março, o leitor conhecerá um a um os que chegaram para enriquecer este projeto em 2026. Recordo que o Letras começou seu 19º online com um grupo no WhatsApp. Se você é um dos usuários desse aplicativo e quer receber diariamente em primeira mão as nossas publicações, então aproveita e já segue agora — basta clicar aqui .  Finalizo com um lembrete essencial: na aquisição de qualquer um dos livros pelos links ofertados neste boletim, você pode obter um bom desconto e ainda ajuda a manter o Letras . A sua ajuda continua essencial para que este projeto permaneça online. Valério Pereliéchin. Foto: Jan Paul Hinrichs LANÇAMENTOS ...

A ética da solidão

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Por Juliano Pedro Siqueira Não há nenhum pensamento importante que a burrice não saiba usar, ela é móvel para todos os lados e pode vestir todos os trajes da verdade. — Robert Musil Henrik Ibsen. Foto: Arquivo Getty (Reprodução) A literatura é voz que ecoa no tempo, discorrendo sobre as múltiplas perspectivas do drama humano. Em tempos quando as paixões políticas se mostram exacerbadas, recorrer aos clássicos é necessário para compreender seus desafios históricos, sem apelar a sentimentos obscuros. Dentro desta proposta, trago à reflexão a obra Um inimigo do povo (1882), do dramaturgo norueguês Henrik Ibsen. Nela encontramos o icônico Dr. Tomas Stockmann, personagem central, e que encarna a figura do mártir, ao exercer a ética solitária; assumindo sobre si e sua família, terríveis consequências. A peça ganha intensidade e tons sombrios quando o Dr. Stockmann, um médico residente, resolve alertar as autoridades políticas que as águas balneárias da cidade tornaram-se impróprias para o u...

As marcas do vampiro em Virgínia mordida, de Jeovanna Vieira

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Por Vinícius de Silva e Souza Em sua estreia no romance, Jeovanna Vieira consegue algo invejável: pegar o leitor e deixá-lo incapaz de não concluir o livro — algo que, recentemente, aconteceu comigo apenas com a leitura de  A vegetariana , de Han Kang. Virgínia mordida , à primeira vista, parece um romance nichado, mas é justamente nesse aspecto que reside sua principal qualidade: o ritmo próprio e sua narrativa, que é a história de uma mas também de tantas pessoas ao mesmo tempo.  Como os começos dos feminicídios nesse tempo recordes, o começo da história é quase o mesmo: uma mulher presa a um relacionamento abusivo que escala a violência até os níveis mais extremos. Nos casos mediatizados, quase todas as vezes, fatais. Não é o caso de nossa protagonista. Por mais verossímil que fosse, uma narrativa de abuso e machismo concluir-se com a morte da vítima, muito facilmente, ficaria esvaziada de sentidos para além da denúncia, por isso, sabiamente, o romance de Jeovanna Viei...