A experiência estética em Ulysses por uma formação leitora
Por Herasmo Braga
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| Leopold Bloom visto por James Joyce. |
Ulysses, de James Joyce, constitui uma das mais significativas obras da literatura e, no tocante à sua recepção, apresenta inúmeras particularidades. Algumas delas foram destacadas pelo crítico estadunidense Harold Bloom, para quem, assim como o pensamento de Freud, o feito estético do escritor irlandês influencia até mesmo aqueles que não conhecem ou nunca leram esse romance. Outra particularidade reside no fato de que, como ocorre com os grandes textos em prosa por excelência, este marco da literatura do século XX é frequentemente citado, mas, inversamente, pouco lido. Quais seriam, então, as razões para irmos além, mesmo após mais de um século da sua publicação?
De início, trata-se de uma questão de honestidade intelectual. Interpretar, ainda que com dificuldades, os aspectos de uma obra literária mediante efetiva leitura constitui um passo importante. Assim como ocorre com Ulysses, outros livros de enorme contribuição, não apenas na ordem cognitiva, mas também na qualificação do sujeito sob o ponto de vista sociocultural, acabam sendo reduzidos a uma espécie de falácia narcisista. Dessarte, a leitura de O homem sem qualidades, de Robert Musil; de Em busca do tempo perdido, de Marcel Proust; de Dom Quixote, de Miguel de Cervantes; bem como de Crime e castigo, O idiota e Os irmãos Karamázov, de Dostoiévski; entre outros, acaba, em geral, convertendo-se no que descreve Pierre Bayard em os livros que não lemos. Com isso, perde-se e empobrece-se o nosso imaginário.
É interessante observar como se elaboram teses, por vezes absurdas, para justificar a não leitura dessas obras. Um exemplo são aquelas mediadas pelo mantra estéril da condenação dos clássicos e dos cânones por terem sido escritos por homens, brancos, europeus, católicos, heterossexuais, burgueses etc., em um conjunto de enumerações que busca atribuir à literatura o caráter de uma arte pertencente exclusivamente a grupos elitizados. Quem se fundamenta apenas nesse tipo de argumento, possivelmente, revela um conhecimento raso não apenas da literatura, mas também das manifestações artísticas, históricas e sociais.
Essa pseudocrítica confunde a necessária busca pela inclusão de novos autores e de obras injustamente não valorizadas no meio literário — lembrando que a literatura, como toda obra artística, é dinâmica e que, por isso, as portas para novos leitores, autores, formas e pensamentos devem estar sempre abertas, sendo todas as configurações continuamente vistas e revistas — com uma relativização condenatória movida pela ignorância ou pela preguiça intelectual diante do desafio de ler e compreender a nossa tradição histórico-sociocultural.
Aqueles que escapam dessa perspectiva percebem, ao ler Ulysses, que James Joyce desmonta esse tipo de postura sem grande dificuldade. Para exemplificar, tomemos a última parte da obra, o décimo oitavo episódio, denominado “Penélope”. Nele encontramos, em sua maior extensão narrativa, uma das mais fascinantes personagens da literatura: Molly Bloom. Nesse momento, a intriga é construída sob a forma de monólogo e, embora tenha sido escrita por um homem, branco, europeu e heterossexual, a personagem exerce uma autonomia e uma liberdade sobre si que igualam ou até superam as de muitas personagens concebidas por autores pertencentes aos segmentos sociais frequentemente invocados por esse mantra estéril.
Importa ressaltar que a qualidade literária não se mede pela origem social, étnica ou cultural de quem escreve. Todos os autores e todas as obras devem ser considerados em razão de sua realização estética, sem ares de condenação ou de qualquer linha interpretativa fundada em pretensões de superioridade. Diante da leitura, além de nos afastarmos desse equívoco condenatório, também nos distanciamos dos clichês que caracterizam os fingidores de conhecedores das grandes obras, os quais parecem desejar chamar mais atenção para si mesmos, por meio de suas inverdades, do que para as próprias obras literárias.
Assim, ao tratarem de Ulysses, esses fingidores costumam afirmar que a narrativa acontece em apenas um dia, 16 de junho de 1904, na vida de Leopold Bloom. Complementam dizendo que ele participa de inúmeros acontecimentos ao longo desse dia porque precisou sair de casa em razão da trama de adultério envolvendo a esposa, Molly. Para não surpreendê-la com o amante e, consequentemente, evitar as implicações de um flagrante, o corretor de anúncios publicitários passaria o dia inteiro ocupando-se com qualquer atividade.
Esse breve resumo, frequentemente reproduzido pelos pseudoleitores, já poderia ser desfeito por qualquer leitor ainda nas primeiras páginas do romance. O primeiro personagem a se configurar no romance é Stephen Dedalus, o mesmo protagonista de Um retrato do artista quando jovem. O conhecimento acerca dessa personagem revela-se significativo para a melhor compreensão de diversos momentos de Ulysses. Outro aspecto que desfaz o discurso dos não-leitores reside no fato de que o enredo se inicia nas primeiras horas da manhã do dia 16 de junho, mas não se encerra nesse mesmo dia. Os acontecimentos avançam pela madrugada do dia 17, como se observa no monólogo de Molly após a chegada de Leopold Bloom, já tomado pelo sono, depois das inúmeras peripécias vividas não apenas por ele, mas também entrelaçadas ao percurso de Dedalus, às inquietações da própria Molly e de seu amante, à saudade do filho falecido, à distância da filha Millicent Bloom, a Milly, e aos tantos outros personagens, pensamentos, reflexões e acontecimentos que compõem o desenvolvimento desse expressivo romance.
Superar desafios, adquirir e compartilhar experiências representam algumas das maiores virtudes humanas. Ao nos depararmos com grandes textos que elevam o nosso sentir, perceber e refletir, somos profundamente gratos. Dessa maneira, podemos reunir todos esses elementos na leitura imersiva de Ulysses. Por se tratar de uma obra instigante e formativa, tanto para o aprimoramento do leitor quanto para a formação de um possível autor, encontram-se aí algumas das diversas razões que evidenciam sua vitalidade e a permanência de sua substância na contemporaneidade.
Referenciamo-nos no parâmetro de que, quando uma obra apenas diz, será, a nosso ver, uma produção ficcional de pouca qualidade. Ao contrário, quando sugere, o texto estético passa a conter possibilidades efetivas de qualidade. Se essa singela classificação, por si só, já suscitaria inúmeros debates diante de diferentes textos, imaginemos quando a escrita literária não nos oferece apenas elementos de exposição, descrição e imaginação, mas sentidos em suas mais diversas modalidades. Desde sensações tradicionais, como angústia, receio, raiva, expectativa e indignação, acompanhadas de atitudes reflexivas, problematizadoras e reveladoras de mundos e de fissuras sociais desconhecidas, até aquelas de ordem mais tácita.
Na leitura do romance de James Joyce, deparamo-nos, sobretudo, com sentidos. De forma consciente, o autor de Ulysses nos conduz à elaboração dessas sensações ao longo de toda a narrativa, para que possamos compartilhar não apenas os acontecimentos na condição de espectadores, mas também vivê-los como um participante daquela jornada do dia 16 de junho de 1904 e da madrugada do dia 17, em Dublin. Percebemos esse movimento desde o início da narrativa, quando Malachi St. John Mulligan, após fazer a barba, encontra-se com Stephen Dedalus, um dos primeiros personagens que se constituem nos episódios iniciais do romance.
A intriga é apresentada em ritmo lento. Os diálogos entre Mulligan e Dedalus ilustram a vagarosidade das primeiras horas do dia para aqueles que acabam de despertar. Essas sensações permanecem constantes ao longo da obra e alcançam até mesmo o penúltimo episódio, quando Bloom retorna para casa, cansado, tomado pelo sono, cumprida a longa jornada. A escrita desenvolvida nesse trecho denota certa confusão mental e esgotamento físico, típicos de quem viveu intensamente os diversos acontecimentos do dia. Essa é uma das particularidades do desenvolvimento da diegese e constitui um desafio para o leitor não habituado a se deixar imergir nos textos literários.
Essa transformação do sujeito enquanto leitor constitui uma das diversas contribuições que Joyce oferece em sua ficção. Umberto Eco, em Sobre a literatura, caracteriza dois tipos de leitores: o semântico e o crítico ou estético. O primeiro é movido pela vontade de informar-se e de compreender o texto, nutrindo-se do desejo de saber “como a história vai acabar”; já o crítico ou estético, que Eco também denomina semiótico, empreende uma investida mais profunda no texto e com maiores pretensões interpretativas, isto é, ele buscará, como afirma, “descobrir como procede o autor modelo que o instrui passo a passo”. Procura, portanto, compreender todo o processo de construção da obra e, obviamente, não se limitará a uma única leitura. Retornará ao texto diversas vezes, a fim de compreender boa parte dos mecanismos dessa engrenagem estética tão harmônica.
O leitor imerso aproxima-se do leitor semiótico, mas com uma singularidade. Como Hans Gumbrecht nos aponta, ele estará envolvido com o sentir da obra não apenas em seus aspectos cognitivos, mas também no efeito de presença que ela produz. Em Ulysses, a permanência do leitor semântico tende a ser breve, ao passo que o leitor semiótico estará mais apto e munido de maiores elementos para compreender, analisar e relacionar os múltiplos aspectos da narrativa. O leitor imerso, por sua vez, estará preparado não apenas para compreender a obra, mas sobretudo para vivê-la e compartilhar, por excelência, a experiência da prosa joyciana.
Assim, diante dessa transformação da figura do leitor, este deverá abandonar o cômodo lugar da compreensão imediata e do anseio pela simples informatividade para alcançar uma postura que reúna o aspecto crítico ou estético, sintetizado por Umberto Eco na figura do leitor semiótico, à experiência sensível proporcionada pelo leitor imerso. Este, ao nosso ver, constitui o complemento do leitor semiótico, pois estará ainda mais profundamente envolvido com as sensações e as provocações que o texto literário lhe apresenta. Essa transformação do leitor constitui apenas um dos muitos elementos significativos de Ulysses. De nada adianta fingir, fragmentar, condenar ou justificar a não leitura de um dos maiores livros todos os tempos da literatura.
A experiência proporcionada por Ulysses demonstra que essa transformação do leitor constitui apenas um dos muitos elementos que conferem singularidade ao romance. Ao exigir um leitor disposto a ultrapassar a superfície da narrativa e a compartilhar seus ritmos, silêncios, sensações e deslocamentos, James Joyce faz da leitura uma experiência estética que extrapola a simples decodificação dos acontecimentos e se converte em efetiva vivência da obra.
Diante desses aspectos, ratificamos não termos o menor receio em afirmar que de nada adianta fingir, fragmentar, condenar ou justificar a não leitura de uma das maiores produções literárias de todos os tempos. Somente a leitura efetiva de Ulysses permite ao leitor compreender a riqueza de sua construção narrativa, a complexidade de seus personagens e a intensidade das experiências estéticas que fazem do romance uma obra permanentemente viva e capaz de renovar-se a cada nova leitura.

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