Neoconcretismo devassado e poético, as instaurações de Tunga
Por Felipe Vieira de Almeida

Tunga é um artista brasileiro que me interessa singularmente, talvez por influência do pai, o poeta Gerardo Mello Mourão. As suas obras exalam literatura, poesia sobretudo, ao ponto de o próprio artista ter cunhado um neologismo para o que criava: instaurações.
O mercado contemporâneo de arte tenta a todo custo reter valor através de obras que existem como joias cujo valorização é medida não só pela raridade, mas também suposta pela relevância do artista que a criou. A performance, por outro lado, é o tipo de criação que por excelência não se permite capturar visto que está mais para um acontecimento e depende do corpo que a pratica, ainda que filmagens e fotografias tentem solidificar aquilo que acontece no tempo.
Híbrido entre os dois extremos, temos as obras que são instalações, associando os objetos de arte em um espaço com corpos, compartilhando limitações e possibilidades criativas com os exemplos já discutidos. Insatisfeito com essas categorias, o brasileiro propôs um novo conceito com a sua visão específica.
Lançado em 2025 pelas Edições Cosac, o livro Tunga, organizado por Tatiana Grimberg, traça um panorama da obra do artista. Com educação formal em arquitetura, sabemos que ele também editou e publicou em revistas e jornais, inclusive lançando o Barroco de lírios, seu único livro, pela extinta Cosac & Naify. O corpo de seu trabalho segue a mesma linha plural, indo desde esculturas e instalações até obras que exploram campos magnéticos e o corpo físico no encadeamento artístico.
Tunga defendia a ideia de que o artista é antes de tudo o instigador, alguém que propõe a um outro um conjunto de signos cujo significado é de antemão deixado em aberto tanto para o artista quanto para o observador. Arrisco dizer que ele subscreve a algumas das proposições do pós-estruturalismo sem, no entanto, deixar de inserir um fio narrativo — literário, como dissemos — em suas obras.
Ainda que Tunga defendesse uma paridade entre as posições de artista e observador, não é difícil encontrar limites consideráveis nesse argumento, visto que o artista propõe e seleciona tanto no espaço quanto no tempo a instauração que pretende fazer acontecer.
“Todo ator sou eu/ Eu posso ser qualquer um deles” — Tunga
Lampert dá o devido peso ao termo instauração, caro a Tunga. O artista vê na instauração um acontecimento cujo decorrer no tempo é o próprio processo criativo. A diferença em relação a uma performance ou instalação é o fato de que a instauração ocorre no tempo e no espaço com corpos envolvidos, porém aquilo que resta ao fim não é necessariamente a produção artística, mas o subproduto, a decantação do processo artístico que transcorreu previamente e que deixa para o tempo futuro um estado alterado de coisas.
Tunga nunca pertenceu ao neoconcretismo, mas é tentador ver em seu trabalho o que designaríamos como um neoconcretismo devasso ou, quem sabe, devassado, uma forma de abordar temas como o não-objeto, o corpo em jogo, mas enveredando por sendas mais abaixo, introduzindo na desmaterialização neoconcreta a narrativa mítica e um apelo erótico característicos.
De textos literários a personagens e alquimia, Tunga não hesitou em se imiscuir como provocador e diretor de cena através da palavra escrita. Todavia, quando o fazia, intervinha com o objetivo de multiplicar, como bem explica Catherine Lampert no texto para a edição aqui comentada: “Tunga preferia usar expressões compartilhadas, adotando signos que existem como uma maneira de deliberadamente pisar fora de sua própria imaginação, de convidar outros a adentrar o significado.”
No extremo, a utopia do artista era criar uma arte sem lugar, sem linguagem, ou melhor, uma arte que seria, em suas palavras, “a experiência bruta de estar dentro da poesia”. Ele perseguiu o que chamou de energia poética e um de seus maiores sucessos nesse sentido é a obra “Xifópagas capilares entre nós” de 1984 onde, na descrição de Lampert, “Duas irmãs gêmeas, ligadas pelo cabelo, andam pelo espaço expositivo, como visitantes entre os visitantes.” que retoma e desenvolve explorações anteriores do artista enquanto introduz uma narrativa acerca das Xifópagas que é parte integrante da obra, dando-lhe profundidade, mas principalmente alterando por completo o escopo do que foi apresentado artisticamente.
Tunga criava pontos de confluência e neles o convite era discernir significados a partir de conjuntos de signos selecionados mais por possibilidades interpretativas do que por congruência. O artista-escritor criou literatura em carne e osso e tem uma ou duas lições a ensinar a leitores e escritores da literatura de papel e tinta.
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Tunga
Tatiana Grimberg (org.)
Tatiana Grimberg (org.)
Edições Cosac, 2025
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