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Mostrando postagens com o rótulo Não ler

O romance que perdi

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Por Alejandro Zambra Jamais pensei que Bonsai fosse um livro “filmável”. A primeira proposta me surpreendeu, não sabia o que responder, então disse que não. Também disse que não para Cristián Jiménez uns meses mais tarde, mas também lhe pedi que me deixasse ver seu trabalho. E sucedeu que Ilusiones ópticas [Ilusões de ótica], seu primeiro filme, me deixou comovido como há muito não ficava. Fui cativado por seu olhar, por sua busca, que me pareceu diversa da minha, mas também, em outro plano, muito próxima, muito familiar. Confiei instintivamente em Cristián e decidi que, não importa o que acontecesse, em caso algum eu seria o típico escritor ressentido com a adaptação do seu romance. Pelo mesmo motivo, pensei que se não gostasse do filme ficaria em silêncio. Tinha, porém, um bom pressentimento. Pensava, sobretudo, na cena final de Ilusiones ópticas , com a maravilhosa Paola Lattus e Iván Álvarez de Araya frente a frente. Não o contarei aqui, mas para mim é um dos finais mais arris...

Em voz alta

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Por Alejandro Zambra André Kertész. Velho lendo . Japão, 1968.   Às vezes penso que uma obra literária só é boa se passa no teste de ser lida em voz alta, submetida à paciência alheia ou ao irritadiço ouvido próprio. Por isso gosto dos audiobooks, que recuperam o antigo costume de escutar as palavras, de receber também o ritmo, a postergada música da narração. Em seu ensaio Uma história da leitura , Alberto Manguel lembra que a leitura silenciosa se estabeleceu somente no século X, já que até então se entendia que ler era ler em voz alta. Na Antiguidade as bibliotecas eram espaços ruidosos. Acreditava-se que o ato de ler comprometia a visão e o ouvido, daí ser impensável a imagem do leitor isolado, que veiculava até mesmo um misterioso egoísmo. Há beleza, para nós, por outro lado, na imagem do leitor solitário. Lembro-me de um companheiro de curso que ia de tarde à Biblioteca Nacional não para ler, mas para observar os outros lendo. Ele, na verdade, não gostava de ler, e valia-se d...

Elogio da fotocópia

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Por Alejandro Zambra Jess Allen (detalhe).   Ensaios de Roland Barthes sublinhados com marca-textos fosforescentes, poemas grampeados de Carlos de Rokha ou de Enrique Lihn, romances espiralados ou precariamente encadernados de Witold Gombrowicz, de Clarice Lispector: é bom recordar que aprendemos a ler com essas fotocópias que esperávamos impacientes, fumando, do outro lado da janelinha. Umas máquinas enormes e incansáveis nos ofereciam, por poucos pesos, a literatura que queríamos. Líamos esses feixes mornos e logo os guardávamos nas prateleiras como se fossem livros. Pois é isso que eram para nós: livros. Livros queridos e escassos. Livros importantes.   Lembro-me de um companheiro que fotocopiou Guerra e paz , trinta páginas por semana, e de uma amiga que comprava resmas de papel azul-celeste, pois, segundo ela, dessa forma a impressão saia melhor. De minha parte, a maior joia bibliográfica que tenho é um exemplar peregrino de La nueva novela [O novo romance], o inimitável...

Corrigir até doer

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Por Alejandro Zambra Adolfo Couve   Nas narrativas de Adolfo Couve abundam os meninos silenciosos, as famílias discordantes e os artistas temperamentais desaparecidos na “deterioração infinita” de uma paisagem outrora esplendorosa e agora decadente que, justamente por isso, mostra-se encantadora, literária.   Desdenhando sua inegável destreza como pintor, o autor optou pelo desafio da escrita e por fim se transformou, como disse César Aira, em um eterno principiante da literatura que preferia polir infinitamente os traços e corrigir o texto até que ficasse reduzido a sua expressão mínima.   Talvez o próprio Couve, que se suicidou em 1998, teria se surpreendido com o fato de que os brevíssimos volumes que foi publicando em intervalos irregulares — precisava anexar prólogos e aumentar a letra para que pudessem ter lombada — agora totalizem as quase quinhentas páginas da sua Narrativa completa .   A despeito das notórias mudanças de perspectiva existentes de Alamiro (1...

Como ficar quieto em alemão

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Por Alejandro Zambra Adolfo Couve   Macedonio Fernández é meu escritor favorito de dois em dois anos. Admiro naturalmente seu humor e sua elegância singular, mas por vezes a relação malogra, por assim somos nós, leitores: por vezes pedimos a um escritor o que jamais quis nos dar. Macedonio é brilhante, mas nem sempre desejamos esse brilho, porque nem sempre somos, como queria ele, “leitores artistas”. Releio Papeles de Recienvenido [Papéis de um recém-chegado] e Continuación de la nada [Continuação do nada], os livros de Macedonio que voltaram a ser reunidos há alguns meses pela editora espanhola Barataria, em uma coleção mais que necessária na qual também comparecem Martín Adán, Juan Emar e outros gênios da vanguarda latino-americana. Rapidamente descubro que neste ano me cabe amar Macedonio. E me parece estranho que às vezes não goste.   Seja como for, devo esclarecer que sempre — nos anos que quero e nos que não quero — rio de suas piadas. Esta é muito boa: “O bezerro Ton...

Leituras obrigatórias

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Por Alejandro Zambra Ramon Casas. Jovem decadente , 1899.    Ainda me lembro da tarde em que a professora de castelhano se voltou para o quadro e escreveu as palavras prova , próxima , sexta , madame , Bovary , Gustave , Flaubert , francês . Com cada palavra crescia o silêncio e ao fim somente se ouvia o triste riscado do giz. Já havíamos então lido romances longos, quase tão longos como Madame Bovary , mas desta vez o prazo era impossível: teríamos apenas uma semana para enfrentar um romance de quatrocentas páginas. Estávamos começando a nos acostumar, contudo, com essas surpresas: acabávamos de entrar no Instituto Nacional, tínhamos doze ou treze anos, e já sabíamos que dali em diante todos os livros seriam longos.   Assim nos ensinaram a ler: às pancadas. Ainda penso que os professores não queriam nos entusiasmar e sim nos dissuadir, nos afastar para sempre dos livros. Não gastavam saliva falando sobre o prazer da leitura, talvez por terem perdido este prazer ou n...

Não ler

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Por Alejandro Zambra Arte: Sumuyya Khader   Como falar dos livros que não lemos é o título do ensaio de Pierre Bayard que por estes dias se lê ou ao menos se vende em todo o mundo. Não posso dizer muito mais sobre o livro pois, lamentavelmente, não o li, mas o tema me parece de imediato familiar.   Experimentei nos últimos anos a felicidade de não ler alguns livros que, se tivesse continuado trabalhando como crítico literário, deveria ter lido. Tiver de comentar certa vez, por exemplo, um pobre romance de Jorge Edwards inspirado na figura de Joaquín Edwards Bello, de modo que há alguns meses, ao saber que o novo alvo de Edwards para suas investigações novelísticas era o poeta Enrique Lihn, respirei bastante aliviado por não ler La casa de Dostoiesvsky . Pessoas com menos sorte que eu leram o romance e consideraram que ele prejudicava a memória de Lihn, motivo pelo qual Edwards — incensado de forma quase unânime por sua obra anterior — desta vez foi atacado injustamente, pois ...

Kafka, o uruguaio

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Por Alejandro Zambra Mario Levrero . Ramiro Alonso.   Certa vez Mario Levrero definiu sua obra como uma tentativa de traduzir Kafka para o espanhol. Especialmente em seus começos esta influência é importante, e há também passagens em seus últimos livros que lembram o Kafka dos Diários , mas creio que, por assim dizer, Levrero era muito mais uruguaio que kafkiano. Gosto de pensar que a tradução fracassou e que, graças a esse fracasso, Levrero acabou escrevendo uma obra pessoalíssima que ao longo dos anos encontrou seus leitores, não sei se numerosos, mas certamente bastante fiéis.   Também gosto do desconcerto provocado por O romance luminoso . Ainda há críticos que advertem “isso não é um romance”, como se sentissem obrigados a informar sobre o limite de garantia estatal para depósitos. Ademais, o próprio Levrero disse nas primeiras páginas do livro: “Um romance, atualmente, é qualquer coisa que se coloque entre capa e contracapa.” Levrero se mostra desejoso ou então resignado...

Árvores cerradas

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Por Alejandro Zambra Wolfgang Volz. Christo and Jeanne-Claude: Wrapped Trees, Fondation Beyeler and Berower Parc, Riehen, Switzerland (1997 - 1998)   A história de Bonsai é a história longa de um livro curto. Nove anos atrás, em uma manhã de 1998, encontrei no jornal a fotografia de uma árvore coberta por um tecido transparente. A imagem pertencia a série Wrapped Trees , de Christo & Jeanne-Claude, artistas que há décadas correm mundo recobrindo paisagens e monumentos nacionais. Lembro que escrevi, naqueles dias, um poema não muito bom que falava de árvores cerradas, encerradas. E logo me deparei com os bonsais, tão parecidos, em certo sentido, com as árvores de Christo e Jeanne-Claude, embora reduzidas, à força, pelo capricho da poda.   Escrever é como cuidar de um bonsai, então pensei e agora penso: escrever é podar os ramos até dar a ver uma forma que já estava ali, oculta; escrever é alambrar a linguagem para que as palavras digam, de uma vez, o que queremos dizer; es...

Contra os poetas (II)

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Por Alejandro Zambra Giorgio De Chirico. Praça , 1913.   Dois anos atrás, os editores da Etiqueta Negra deram início a uma nova seção da revista que consistia em escrever contra os colegas, ou, como então me explicou Marcos Avilés, “contra os males do ofício, os vícios e enfermidades da ocupação”. Neste contexto Martín Caparrós escreveu contra os cronistas; Alberto Fuguet, contra os cineastas; e Marcos me pediu que escrevesse contra os poetas.   Aceitei, claro. Escrevi — a sério e brincando — uma diatribe a partir de minhas próprias experiências. Pareceu-me uma honra fazer uma versão incidental [de paso], modesta, do divertido ensaio de Witold Gombrowicz. 1 Lembro de logo ter recebido algumas reações favoráveis, que em geral valorizavam a veia satírica do artigo. E em seguida dele me esqueci, ou melhor, arquivei-o para sempre, ou pensava que para sempre.   Tempos depois, quando a publicação completava quase um ano, Luis Martínez Solorza, o homem polivalente por trás de ...

Contra os poetas (I)

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Por Alejandro Zambra Giorgio De Chirico, O poeta e sua musa , 1925.   Aos vinte anos já acumulam experiências importantes: publicaram poemas em revistas e antologias, participaram de oficinas, escreveram artigos para anuários escolares e talvez tenham concedido uma ou duas entrevistas precoces. Já têm prontos seus primeiros livros, que estão a ponto de serem lançados por editoras emergentes. São livros muito ruins, mas por ora isso não importa. Seus poemas são longos e sentenciosos, abusam dos gerúndios, dos pontos de exclamação e das reticências. Leem Vicente Huidobro, Delmira Agustini e Oliverio Girondo, mas sobretudo leem-se uns aos outros, em intermináveis reuniões só por vezes amistosas.   Aos vinte e cinco já renegaram aqueles primeiros poemas, que consideram longínquos pecados de juventude. Esperam logo encontrar a maturidade como poetas, que a eles importa muito mais do que a maturidade como pessoas. O segundo livro largamente cumpre o objetivo: não é bom, mas sem dúvi...

Correspondência alheia

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Por Alejandro Zambra Vincent van Gogh. Natureza-morta com prato de cebolas (1889). Museu Kröller-Müller.   É difícil ler a correspondência alheia sem pensar nas próprias cartas. Minha geração foi a última que escreveu e recebeu cartas. Só algumas, muito poucas, sobreviveram às mudanças.   O que buscamos nas cartas alheias? Segredos, revelações, detalhes? “Se a letra sair torta é porque bebi muita cidra esta noite”, escreve Sylvia Plath à mãe. “Te digo que estou triste. Te digo que estou só. Te digo que estou morta. Preciso de um ataúde e de um discurso ridículo”, lemos em uma atordoante carta de Violeta Parra a Gilbert Favre.   Às vezes as revelações não aparecem. A correspondência entre Mishima e Kawabata é, por exemplo, estranhíssima. Durante longas passagens presenciamos nada mais do que uma incansável troca de cortesias. Mishima manda um salmão e Kawabata responde com bocados de castanha e misteriosas palavras de alento: “Diga sua mãe o que quiser, sua escrita é...

Atualidade de Hamlet

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Por Alejandro Zambra Arte: Patrick Hruby.   É preciso dizê-lo com alegria, gratidão: nosso trabalho é ideal. Ainda que vez por outra um editor nos chame e peça que sejamos mais atuais, sabemos muito bem como escapar da contingência; somos capazes, inclusive, de dedicar nossa coluna dominical a falar sobre Hamlet . Além do mais, se o editor insiste, basta agregarmos uma ou duas frases ao final da coluna. Podemos dizer, por exemplo, que ao reler algumas passagens dessa obra maravilhosa descobrimos a profunda atualidade de Shakespeare. Não é preciso aclarar quais são as passagens tão atuais pois é sabido que nas seções de cultura não há muito espaço para argumentar.     E qual a diferença, se também sabemos que ninguém nos lê? Todos os colunistas de todas as seções de cultura de todos os periódicos do mundo sabemos disso. Puramente neuróticos, cuidamos da prosa, saboreamos cada adjetivo, perdemos um tempo valioso decidindo se dois pontos ou ponto e vírgula, e dói o cora...

Quatro pessoas

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Por Alejandro Zambra Jacob Lawrence. The Businessman   Quão solitário é o trabalho de um escritor?   Pergunta-me um amável desconhecido, por pura curiosidade, ao fim de uma sessão de leituras. Respondo vacilante, não estou seguro. Penso no lugar-comum do escritor trancafiado por muitas horas, lutando com suas convicções, com seus desejos. Lembro-me deste fragmento tão dramático e de certa forma cômico em que Kafka confessa o desejo de isolar-se em uma caverna, apenas com uma lâmpada e seus materiais de escrita: “Haveriam de trazer-me a comida e a deixariam sempre longe de onde eu estava instalado, atrás da porta mais externa da caverna. Ir buscá-la, em roupa de dormir, passando por todas as abóbadas, seria meu único passeio.”   Ao escrever ficamos ausentes do mundo e por vezes dias inteiros se passam em que saímos apenas para comprar cigarros ou levar o cachorro para passear (e costuma ser o cachorro que nos leva para passear). Mas não estou certo de que escrever sej...

Festival do romance longo

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Por Alejandro Zambra Arte: Erika Lee Sears (Detalhe)   Há alguns anos, organizei o Primeiro Festival do Romance Longo, que não chegou a se realizar, mas segue me parecendo uma boa ideia. Ainda conservo os e-mails que enviei a dezenas de escritores e professores convidando-os a compartilhar suas experiências como leitores de romanções, embora jamais tenha conseguido precisar um número mínimo de páginas e me perdi um pouco em uma série de conversas graves e simultâneas sobre quais romances eram realmente longos. Tempos depois publiquei um romance muito curto e algumas pessoas me tomaram por defensor da brevidade. Nada disso. Eu prefiro os romances longos, aqueles que reservamos para a primeira gripe do ano, aqueles que nos obrigam a inventar a primeira gripe do ano para ficarmos em casa lendo.   Em algum momento da adolescência comecei a fingir doenças que me permitiam avançar à vontade nas leituras importantes. Meus pais talvez suspeitassem de alguma coisa, pois me obrigavam a ...

A memória de Borges

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Por Alejandro Zambra Dois amigos incansáveis passam a última noite de 1970 traduzindo Shakespeare. Os amigos se chamam Borges e Bioy Casares. Não são exatamente mestre e discípulo, mas de alguma maneira o velho Borges inventou Bioy. Ou, melhor dizendo, é Bioy, com suma cortesia, que se deixou inventar, com a condição de manter alguns favoráveis sinais distintivos: ao lado de Borges será sempre jovem; ao lado de Borges será sempre longo, porque escreve romances, os romances que Borges aceitou não escrever para que Bioy os escrevesse.   Naquela noite, a de 31 de dezembro de 1970, após jantar peru com purê, os amigos incansáveis trancam-se a traduzir Shakespeare. “Com Borges dormimos um cadinho, versificando em espanhol as bruxas de Macbeth”, escreve Bioy em seu diário, e a imagem reaparece de forma invariável: em 10 de janeiro diz que trabalharam “cabeceando entre hendecassílabo e hendecassílabo”, e em 13, que traduziram “entre cabeceios”, e em 18 é Borges quem aceita que trabalhem ...

Bibliotecas

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Por Alejandro Zambra Arte: Erika Lee Sears.   Conheci a biblioteca de meu amigo Álvaro há cinco anos — e foi decepcionante, pois estava cheia de livro ruins. Naquela época falávamos quase exclusivamente de livros e nossas conversas tinham esse encanto do provisório, do incompleto. Não era necessário ir demasiado longe para nos entendermos: dizíamos que um romance era bom ou tedioso, mas não elaborávamos os juízos, simplesmente desfrutávamos da cumplicidade.   Pensava encontrar nas estantes de sua casa livros que eu também amava, ou os nomes desconhecidos de uns escritores surpreendentes, e em vez disso deparei-me com os mesmíssimos autores que conhecia e que bem pouco me interessavam. Não que houvesse realmente inspecionado a biblioteca — isso nunca me pareceu algo de bom tom. Por certo, o fato de os livros estarem na sala de estar nos autoriza a olhá-los, mas é melhor começar de esguelha, com prudência, sem ansiedade.   Duas semanas depois, Álvaro me convidou novame...